Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Ocean's 8 de Gary Ross

oceans8.jpg

  Filmes de assaltos há muitos. A premissa é quase sempre a mesma: junta-se um grupo de pessoas, cada uma com a sua especialidade e papel a representar no roubo em si, e cria-se um plano bem espetacular, desses que um criminoso provavelmente teria dificuldade em criar, mas que para um escritor com conhecimento de causa pode ser relativamente fácil. Depois a história é arrastada tanto pelas personagens em si como, principalmente, pelo plano de assalto, que o vemos enquanto se desenrola.

 

  Nunca vi nenhum dos Ocean’s, mas fiquei com vontade de procurar os anteriores e quem sabe fazer até um post de comparações ou algo assim, isto porque gostei deste Ocean's 8. Vão roubar joias avaliadas nuns quantos milhões durante uma gala que irá ocorrer no Museu Metropolitano de Arte em Nova Iorque debaixo dos olhos de inúmeros seguranças e inúmeras câmaras de vigilância.

 

  No que toca a assaltos, é difícil ser-se mais perfeito que isto. Aliás, o maior defeito que ponho no filme é ser perfeito demais, pois há ali muita coisa que poderia ter corrido mal e que, aliás, quase parece que deveria ter corrido mal. Fiquei com a impressão que faltava talvez algum drama, algumas pedras no caminho.

 

  Mas pronto, lá fui ontem ao cinema ver o filme e certamente não me desapontou. Vejam e digam de vossa justiça.

Stephen King - A Cúpula

100_56011.jpg

  Após a leitura de alguns livros, fica-se com uma certa excitação do tipo “Raios partam! Melhor livro de todos os tempos!” Foi assim que fiquei após ler A Cúpula de Stephen King.

 

  No final há uma “nota do autor”, duas pequenas páginas com alguns detalhes e agradecimentos na qual, para começar, destaco a menção a Nan Graham, editora do livro, que aparentemente percebeu que Stephen King queria algo bem acelerado e cortou/editou tudo de forma a garantir o passo apressado que aqui se lê. Pode mover-se rapidamente mas é grande; nesta edição de bolso dividida em dois volumes, o primeiro deles tem, no total, 700 páginas e o segundo 655. No início do primeiro, antes de começar a prosa em si, temos uma lista relativamente grande das personagens de uma forma ou de outra mais importantes do livro. E a partir do momento em que há uma lista de personagens é porque vem aí algo longo, mas, como disse anteriormente e voltando um pouco atrás, rápido. Aliás, é surpreende o quão rápida A Cupula se move. Enfim, há livros que têm 100 páginas e parecem nunca mais acabar, este tem mais de 1000 e parece acabar cedo demais e de forma abrupta.

 

  Já falei muito sem mencionar o que se passa. A premissa é aparecer uma cúpula gigantesca à volta de uma pequenina cidade que mais parece uma grande vila. Nada entra, nada sai, tirando som e algum, ainda que ridiculamente pouco, ar e humidade. Dentro da cúpula o ar depressa fica bem malcheiroso não tendo a poluição atmosfera para onde subir e vento que a leve.

 

  Não há uma personagem principal mas sim uma boa porção delas. Há grupos e interesses diferentes. Após o aparecimento súbito e sem aviso da dita cúpula, que ninguém sabe explicar de onde ou como veio, sem ajuda exterior a cidade, de uma forma ridiculamente rápida, transforma-se numa espécie de ditadura militar em que o ditador é gordo, guardando sempre para amanhã a questão do controlo de peso e o tratamento dos vários problemas cardíacos que isso já lhe gerou juntamente com a idade, e o exército são uma data de adolescentes e “jovens adultos” sem qualquer espécie de treino e um gosto por vezes doentio em “fazer merda”. Depois vai-se também formando um pequeno grupo de “resistência” que não resiste coisa alguma, simplesmente não está de acordo com aquilo que o doente cardíaco anda a fazer. Enquanto o plano do ditador até parece bem constituído (excluindo a parte de não querer saber da cúpula em si para nada, apenas rezando a deus que a retire de lá após pôr em ordem os seus assuntos), o dos outros nem por isso, em parte porque são apenas um grupo de pessoas que se junta para fazer aquilo que pensam ser correto, apesar de não saberem como, em parte porque a história dura apenas cerca de uma semana.

 

  Uma semana! E uma semana chega para o ar ficar contaminado e poluído, para se formar todo um atabalhoado e armado batalhão de polícias, para um supermercado ser saqueado, para edifícios serem incendiados, pessoas assassinadas, dois presos, uma mulher violada, mais um ou outro tiroteio, mais uma ou outra pessoa morta, e até uma espécie de apocalipse. E depois é o final…mas os finais de Stephen têm tendência para, por vezes, serem um pouco… esquisitos… não é necessariamente o caso aqui, mas vamos ignorar.

 

  Voltando à nota do autor no final do livro, Stephen King diz que, apesar de ter sido lançado em 2009, tentou escrevê-lo pela primeira vez em 1976 e fugiu “com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho”, não devido à complexidade da história em si, com a quantidade enorme de personagens que a mim me assustaria imenso se o fosse tentar escrever, “mas pelos problemas técnicos” da situação, principalmente no que toca a detalhes e consequências ecológicas e meteorológicas que a cúpula em si geraria. O autor segue então agradecendo a um tal de Russ Dorr pela pesquisa necessária à história. É certo e óbvio que há imensa pesquisa por detrás de tudo isto, não só pelas mencionadas questões ecológicas, mas também sociais e políticas, e, entrando em pormenores, até em questões médicas e relativas a radiação e aos perigos desta.

 

  Quanto à escrita em si, o autor deixa muito daquilo a que em inglês se chama “hooks”. Vai acabando quase sempre os capítulos com uma frase ou uma expressão que nos faz querer saber o que vem a seguir, no entanto no capítulo seguinte vem uma outra personagem e a história anterior fica suspensa. Stephen King vai assim misturando as narrativas das várias pessoas que se vão cruzando. Mas posso deixar aqui aquele que talvez seja o meu exemplo favorito para explicar estes “hooks”. Mais ou menos a três quartos do livro há um capítulo que acaba com uma promessa: “Desde que não haja derramamento de sangue. (Ponto, Parágrafo). Nada de Sangue – Disse Joe”. Seguem-se algumas linhas descrevendo como para ali ficaram a falar baixinho durante a noite. Vira-se a página e o capítulo seguinte chama-se “Sangue por toda a parte”. Não sei se é o melhor exemplo dos inúmeros que aqui há, mas parece-me o mais óbvio de uma promessa de que algo grande se irá passar a seguir e que cola o leitor ao texto.

 

  Stephen King acaba os agradecimentos com uma frase que adorei, quase uma espécie de cereja (ainda que minúscula) no topo do bolo deste grande livro: “E a si, leitor fiel. Obrigado por ler esta história. Se se tiver divertido tanto como eu podemos considerar-nos afortunados.” Certamente foi esse o caso.

Não tenho um smartphone

phone-651704_640.png

   É giro como se criam necessidades, por vezes do nada. É mais giro ainda quando se forçam. As empresas de telecomunicações por vezes são bastante inteligentes no que que toca a forçar essas necessidades, se é que a tal sequer se pode dar esse nome. Por vezes não.

 

  Eu não tenho um smartphone. Nem pretendo ter. Quando necessitar de um, hei-de o arranjar. Que remédio terei? Mas até lá... Nem tenho razões específicas, nem é teimosia nem nada. Não preciso de um. Logo não tenho.

 

  Quase não utilizo o telemóvel. Uma chamada ou uma mensagem de longe a longe, portanto gasto mesmo muito pouco dinheiro com isto, apesar de ter um tarifário caríssimo. Qual foi então a minha surpresa quando recebi uma mensagem da dita empresa fornecedora de telecomunicações a dizer-me que a partir de agora teria um custo de manutenção mensal de 1€.

 

  Lá passei pela loja, tendo a sorte de estar vazia e ser logo atendido. E quais foram as alternativas que me deram? “Então, pode pagar esta mensalidade e fica também com 200mbs de internet incluída”. “Com as comunicações caríssimas como tinha não gastava esse dinheiro. E não tenho internet.” “Então pode comprar este smartphone que está baratinho e assim aproveita essa internet”. Claro. É já a seguir.

Trocas e baldrocas de copyrights

    É um pouco complicado saber o quão verdadeiras são estas histórias, e a pequena pesquisa que fiz também não ajudou grande coisa, tendo encontrado logo informações contraditórias. Independentemente disso, isto parece-me bem ridículo.

    Em 1993 os Radiohead lançaram um single daquela que viria a ser provavelmente a sua música mais conhecida: Creep. Em 2017 sai o álbum mais recente de Lana Del Rey intitulado Lust For Life, e a última música desse álbum, de nome Get Free,  inclui uma parte bastante semelhante à Creep dos Radiohead.

    Posto isto, lá entraram as trapalhadas dos Copyrights e polémicas e uns dizem que os Radiohead queriam isto e aquilo, outros dizem que não queriam coisa nenhuma. A trapalhada do costume até aqui. No entanto há mais.

    Os Radiohead foram processados pelos direitos da música Creep, pela banda The Hollies, por Creep ser semelhante à sua música The Air That I Breathe.

    Ou seja, os Radiohead estão a dizer que Lana Del Rey copiou uma música que eles próprios copiaram. Sem comentários. Ficam em baixo as três músicas. Decidam por vocês se esta confusão tem ou não nexo.

Tenho pena de vegetarianos

vegetables-1948264_640.jpg

  Porque há muita gente que, sendo ignorante, é arrogante ao mesmo tempo, e porque o chico-espertismo e a rudeza têm poucos limites. Conheço umas quantas pessoas que são vegetarianas, e mais do que isso, já assisti a muitas conversas sobre este tema, e sim, essas conversas assustam e bastante. É um tema até simples e já bem batido. Para mim é difícil imaginar uma pessoa jovem que nunca tenha conversado acerca dele. Ainda assim parece que as questões que se levantam, e mais do que isso, as tretas que se dizem, geralmente de forma ofensiva, são sempre as mesmas. Aqui vão algumas pérolas mais batidas:

 

 - Vais-me dizer que não gostas de um hamburger do mac?

 - ‘Tão e uma chichinha, não comes, não gostas? Vais dizer que não gostas de um belo bife de alguma coisa de que eu gosto particularmente?

 - E onde vais buscar a proteína?

 - Não comes pão? Ou isto? Ou aquilo? Por vezes coisas claramente vegetarianas ou apenas estúpidas que fazem os outros questionar a inteligência de quem pergunta?

 - Não comes carne porquê? Tens pena dos animais, é? Eles são criados para isso! Sabes que nem sentem, nem cérebros têm! (E isto aparece mais vezes do que se calhar alguns possam imaginar).

 

  Sendo algo que possa fazer confusão a alguns, até seria de esperar uma ou outra coisa, quiçá dicas para receitas se para lá estiverem inclinados, ou algo alguma questão genuinamente mais "técnica" e à qual o vegetariano pode não saber ou sequer importar-se minimamente com a resposta. No entanto a ignorância que as perguntas feitas por vezes revela e, mais do que isso, o tom jocoso subjacente… bem, mete nojo. Que levante a mão um vegetariano que nunca tenha estado num jantar qualquer de grupo, seja ele do que for, e que não tenha tido uma pessoa ou mais claramente a gozar e a fazer troça dele sabe lá deus porquê.

 

  Há muitos vegetarianos, muitos tipos de vegetarianismo. Eu lá sei, há gente para tudo! Uns levam mais a sérios que outros. Muitos até vão comendo um fiambre ou bacon numa pizza de longe a longe, por exemplo. Muitos não querem saber de idealismo algum e simplesmente não gostam de carnes ou peixes, ou preferem refeições vegetarianas. Alguns são ferrenhos e nem a morrer de fome seriam capazes de comer uma sardinha. Da mesma forma, há quem coma carnes e peixes, quem beba leite de vaca e coma ovos mexidos todas as manhãs, e ainda assim seja completamente louco pelos direitos dos animais e os ande a pregar aos sete céus. Porque uma coisa não invalida automaticamente a outra.

 

  Enfim, há por aí muito vegetariano. Muitos deles tentam ao máximo esconder que o são. Por vezes apenas porque não querem falar disso, da mesma forma que não querem estar a justificar aos outros o porquê de terem vestido a camisola vermelha em vez da azul. Mas também muitas vezes só para se protegerem desta espécie não rara de bullying.

 

  Independentemente da razão pela qual fizeram essa escolha, que é pessoal, totalmente possível e saudável sem sequer andar a comer "coisas esquisitas", quase ninguém tem o mínimo de respeito por ela. Isso é vergonhoso. E especialmente triste e irritante quando vem de gente que come batatas fritas, arroz e bife todo o santo dia.

Sobre eutanásia

  Pessoas com cartazes a dizer “não matem os velhinhos”? “Quero viver!”? “Deus deu-me a vida, só ele sabe quando ma tirará!”? Ou, pior ainda, como vi aqui nos blogues ontem, “Eutanásia = Nazismo”? É que este último é ridículo, seja-se contra ou a favor à despenalização da eutanásia.

 

  Ninguém aqui está a falar de matar velhinhos. Na notícia que está agora na página principal do sapo diz-se o seguinte: “Todos os diplomas previam que só podem pedir, através de um médico, a morte medicamente assistida pessoas maiores de 18 anos, sem problemas ou doenças mentais, em situação de sofrimento e com doença incurável, sendo necessário confirmar várias vezes essa vontade.”.

 

  Isto não é algo complicado, nem algo que deva confundir as cabeças dos outros. São condições bem específicas para se ser “elegível”. E isto, publicado numa notícia, provavelmente é só um resumo. E amigos que dizem que “querem viver”: é uma escolha pessoal, não é por estarem doentes que vos vão matar no hospital. Entre as pessoas não perceberem sequer aquilo que está a ser debatido e ideias religiosa que talvez pouco tenham a ver com religião, lá se está a negar este direito a quem precisa dele. Negar-se vá...às vezes. Se uma pessoa pedir com jeitinho, muitos médicos fazem-no, arriscando-se a variadas represálias só por sentirem compaixão dos outros, porque de uma maneira ou de outra, é uma prática relativamente comum em hospitais.

 

  É engraçado é como se levam animais ao veterinário para serem “eutanasiados”. Aqueles que são contra a despenalização, nesta situação simplesmente…o quê? Estão fartos de pagar pelo tratamento do bicho? Ou voltamos à ideia religiosa de que os animais estão cá para nos servir e somos superiores a eles? Ou talvez seja uma ideia mais racional, em que se diga que os seres humanos são superiores, pensam e sentem de uma forma diferente dos animais, e como tal o sofrimento de um humano vale menos. Acabamos com o sofrimento de um animal, mas não com o de um humano, só porque alguns, como mais-ou-menos alguém aqui nos blogues também disse, “querem ser donos dos nossos corpos moribundos”.

 

  Mais uma vez, não se trata de suicídio, nem de os outros mandarem na nossa vida ou na nossa morte. As condições estão bem explícitas ali em cima, no parágrafo em itálico. Não é algo que dependa das circunstâncias: elas já foram claramente definidas. Mas enfim, por agora está decidido e, como aparentemente disse o Bruno Nogueira: “Nada como esperar em sofrimento e dor, a definhar e a agonizar numa cama, a cuspir sangue e a respirar entre tubos e máquinas, que quando tiver agenda deus logo nos chama para junto dele. Ou o Homem-Aranha. Ou qualquer outro super-herói que conheçam e que apreciem particularmente.”

Breves considerações infundadas sobre identidade de género

  Vamos lá então dar uma opinião pessoal e irrelevante sobre um assunto que para mim pouco interessa, mas do qual, pelo que vejo pela internet, tem-se feito grande alarido. Digo pela internet porque pessoalmente nunca ouvi ninguém falar sobre isto.

 

  O primeiro contacto que tive com este tema foi já há alguns meses, através de uma notícia (não sei se era esta, mas serve) que partilharam comigo, em que se dizia que o facebook dos EUA permitia escolher de entre mais de 50 géneros diferentes. A ideia de “género” aqui é que, em vez de a palavra ser utilizada como um qualitativo para definir o sexo de um indivíduo, é utilizada para definir onde esse indivíduo se encaixa naquilo que são os papéis sociais de cada sexo no seu tempo e na sua cultura…ou seja, o significado da palavra foi alterado, o que é um bocado à 1984 mas eh…enfim. Essa alteração aparentemente foi feita já há umas boas décadas por uns quantos sociólogos que devem ter achado redundante haver basicamente duas palavras para definir o sexo biológico e associaram então “género” ao quão masculino, ou feminino, um indivíduo é, tendo em consideração a cultura em que se insere. Basicamente em vez de algo preto ou branco, ou nenhum, ou os dois ao mesmo tempo (porque a biologia é marada e não nos podemos esquecer dos hermafroditas), o género é visto como um espectro, uma linha, onde numa ponta está aquilo que é tido como cem por cento “masculino”, e noutra o que é tido como cem por cento “feminino”. Assim, uma mulher, só por ser mulher, começa na ponta do “feminino” e escolhe um ponto na linha onde se possa inserir, de acordo com os preconceitos existentes, podendo, assim, identificar-se mais com os estereótipos masculinos que femininos.

 

  Em português pode haver alguma confusão quando falo em mudar o significado às coisas, porque a palavra “género” é uma palavra bastante abrangente que basicamente serve para agrupar conjuntos do que quer que seja. No entanto em língua inglesa há uma palavra específica usada para qualificar coisas quanto ao sexo (ou pelo menos assim era): “Gender”. No entanto, mesmo em língua portuguesa, sendo a palavra abrangente como é, o mesmo aplicava-se: se um ser humano se define em relação ao sexo como “homem”, define-se em relação ao género como “masculino” e ponto final. Prós em linguística como somos, arranjámos uma solução com bem mais classe que a inglesa, de alterar o significado de palavras. Criou-se uma expressão: “Identidade de género”. É importante perceber essa diferenciação porque, isto em língua portuguesa, pelas pequenas pesquisas que fiz, confunde-se o "género" em si, com a "identidade de género", que trata da forma como se experienciam os estereótipos associados aos sexos.

 

  Não faço ideia se o facebook português já fez essa alteração, mas basta uma pequena passagem de olhos pelo artigo acima referido para verificar o ridículo ao que a situação rapidamente chegou. Em vez de se falar de género como algo mais ou menos identificável, confunde-se isto tudo e tratam-se estes conceitos como “novos géneros”, que não verdade não o são, e com os quais as pessoas se devem definir a elas mesmas no seu perfil e, por extensão, na sua vida. Tratando esta definição de género dos estereótipos e preconceitos associados a homens e a mulheres, esta escolha de género do facebook é como um ridículo preconceito que vamos atribuir a nós mesmos. Ou seja, transformando aquilo a que se poderia, estereotipa e preconceituosamente chamar a “experiência de género” num “género”, um homem que esteja a costurar deixa de pertencer ao género “masculino” e passa a pertencer ao género “feminino”. Ou melhor, passa a ser algo entre um e outro, e basicamente podem ir à tal lista de géneros do facebook e escolher à vontade. Esta abordagem só serve para reforçar e vincar ainda mais todo e qualquer tipo de preconceito que aqui possa existir, em vez de os tentar combater, que deveria ser o objetivo.

 

  Aqui o cerne da questão é que as pessoas não se deveriam definir desta forma, e na verdade não se definem desta forma. Isto porque esta abordagem, que tem vindo a ganhar cada vez mais destaque, não interessa para nada no dia-a-dia. Não é importante perceber qual a “identidade de género" de alguém. Esta trapalhada dos géneros é importante apenas no âmbito em que foi criada: para estudar os papéis sociais dos sexos. Tirada do âmbito da sociologia (e talvez psicologia?) e dos estudos a que pertence, como a maior parte das coisas quando tiradas do contexto, perde qualquer sentido ou significado, o que neste caso se torna mesmo preocupante.

 

  Mas vamos olhar para a lista do facebook para ver o que lá há. Bigenero: pode apresentar-se tanto como homem ou mulher. Cisgénero: Vive de acordo com o seu sexo biológico. Se uma mulher faz desporto ou corta o cabelo curto aparentemente já não é isto porque tem que estar em casa a costurar e a cozinhar o dia todo. Genderqueer: Fora do sistema dos dois géneros. Nem sei o que isso seria (uma caixa de cartão, talvez?). Não-binário: desprezam a dicotomia entre “homem” e “mulher”. Basicamente dizer que esta questão de género não interessa é, em si, um género. Transgénero: Identifica-se apenas com o género oposto ao seu sexo. Transexual: Quem alterou o seu sexo.

 

  Ei! Ei! Esperem! Algo ali está errado! Se a identidade de género tem a ver com os papéis sociais e culturais de homens e mulheres, como é que transexual pode ser um género? Há muitas confusões e contradições neste assunto. A principal é confundir-se o que é cultural e o que é biológico. E, neste caso em específico da transexualidade parece-me alarmante a quantidade de informação contrária que se encontra.

 

  Presumo que hoje em dia para se mudar de sexo baste basicamente querer e ter dinheiro. No entanto, o que abriu as mentes mais conservadoras à liberdade para agora se poder fazê-lo, foi o facto de biológica e hormonalmente haver homens que são mulheres e vice-versa. Isso não é um estereótipo, não é preconceito, não é cultural: é físico. Porque a criação de um ser é algo complexo que por vezes corre bem, por vezes corre mal, por vezes não se percebe como correu. E foi o facto de haver mulheres que são biologicamente homens (e vice-versa mais uma vez) que sequer permitiu que em larga escala a possibilidade da mudança de sexo. E isso para agora ser confundido com “género”. A liberdade do ser humano, não apenas neste assunto mas no geral, é algo muito frágil, e erros destes, se generalizados, podem vir a ter repercussões bem negativas no futuro.

 

  É óbvio que uma escolha de género no facebook não é grande base para coisa alguma, e grande parte destes “géneros” não passa de anedotas propositadas, mas penso que através delas se pode ver os buracos deste conceito quanto retirado do âmbito de estudo em que foi criado e onde pertence e é importante. Ainda para mais tendo em conta que é aqui que a maioria de nós - presumo eu - vem ter conhecimento deste assunto. Uma pessoa que goste de caçar e que subitamente ganhe gosto também pela cozinha não passa a pertencer a uma categoria de pessoas diferente, apesar de estupidamente parecer ser essa a mensagem. Mais uma vez porque o conceito foi retirado do âmbito a que pertence. Tentem aplicar esta lógica a qualquer outra coisa e é fácil compreender o ridículo a que se chega.

 

  A identidade de género não é um “problema” ou uma “questão” que tenha de ser identificada e seguida de perto. Não é algo importante de se localizar e descobrir desde cedo. É algo que retirado do contexto, como eu vejo sempre, só serve para manter, talvez até aumentar e até criar novos estereótipos e preconceitos. Na minha vida já conheci umas quantas “marias-rapazes” que não gostavam de ser assim conhecidas ou tratadas. Como é óbvio há gente para tudo, e cada um se identifica como e com o que quiser. Não vale é a pena pegar em preconceitos já existentes e simplesmente enfiá-los num saco de plástico novo, com uma cor diferente. Metam é os sacos na reciclagem onde pertencem e ensinem apenas uma coisa, que é o mais importante: que todos somos humanos, que para todos a vida é uma grande merda, e como tal todos merecemos talvez alguma consideração e respeito. Porque afinal jamais um preconceito deixou de o ser dando-se relevo e importância ao que nos torna diferentes, mas sim ao que nos torna iguais.

Pierre Loti - Madame Chrisanthème

100_5416.JPG

  Pierre Loti foi um oficial de alta patente da marinha francesa que, em 1885, passou cerca de dois meses e meio, entre Julho e Setembro, em Nagasaki, no Japão. Este livro, supostamente autobiográfico, relata os acontecimentos durante esse tempo.

 

  Começa com a sua chegada a Nagasaki. O que ele vai lá fazer ao certo, infelizmente nunca nos é dito, mas entende-se que a estadia no Japão faz parte do trabalho dele com a marinha. O que nos é dito, no entanto, é que ele tinha um sonho: casar com uma japonesa. Grande tara tinha este homem por quimonos no geral; por caras de olhos em bico e pele amarelada também.

 

  Pouco depois de chegar, o narrador vai ter com um homem que faz as vezes de vendedor de mulheres e, após lhe ter sido apresentada uma rapariga que, se bem me recordo deveria ter os seus 12 anos, deixando-o chocado por ser tão nova, o narrador acaba por escolher a irmã mais velha. Assim alugou ele uma mulher japonesa por vinte piastras por mês, seja lá isso quanto for. O “aluguer” de mulheres e a prostituição é algo bem batido no livro. Uma grande parte dos oficiais franceses que ali pára aluga mulheres com bastante facilidade, para depois se separarem delas (aparentemente fazia-se mesmo uma espécie de casamento e divórcio, assinavam-se papéis e tudo, qual contrato), para além de nos serem dados a conhecer casos de prostituição mais normal, que fora parte do negócio, há muitos anos atrás, dos que viriam a ser os senhorios do narrador. Tudo isso é descrito com bastante naturalidade e o mais politicamente correto possível, evitando praticamente sempre ferir suscetibilidades.

 

  O livro está escrito como um diário. Devo dizer que nunca gostei de livros escritos na primeira pessoa, mas este é capaz de me ter convertido. O narrador passa bastante bem os seus sentimentos para o papel, nomeada e especialmente o afastamento que sente em relação àquela cultura, o que é normal porque afinal não é a dele. Eu não sei explicar como ele o faz mas muitas vezes dá uma certa sensação de vazio como no filme “Lost in Translation” – que acidentalmente também se desenrola no Japão.

 

  No início do livro, numa nota do autor (aliás, uma carta a uma duquesa qualquer), o mesmo refere que “…as três principais personagens são: eu, o Japão, e o efeito que esse país produziu em mim” e isso é bem notório ao longo de todo o livro. O narrador desenvolve uma espécie de relação de amor-ódio (e tudo o que há entre os dois) para com o país. Tanto adora o cenário, as cores, os sons das guitarras japonesas, como não suporta nada disso. No entanto, na maioria dos casos e em grande parte do tempo, tudo lhe é indiferente, incluindo a própria mulher alugada, Crisântemo. Mas é das pessoas que ele menos parece gostar, notando toda a pequenez e hipocrisia desse povo que, em todo o caso, ou apenas para ele visto ser rico e estrangeiro, parece estar sempre a sorrir.

 

  Outra coisa que salta à vista é o quão turística Nagasaki é em 1885. Não só pelo negócio de jovens alugadas, que parece ser o sustendo de muitas famílias, mas também pelos restaurantes, pelas festas que decorrem à noite e até pelas pessoas que transportam os ricos. Parece que todos os empregos, todo o comércio local se centra em volta do turismo - ou, pelo menos, na satisfação da prazeres caros. Mas verdade é que, tratando-se Pierre Loti de um homem rico e estrangeiro, também não seria de esperar ver dali outra realidade.

 

  Enfim, assim nos são descritas paisagens (juro: nunca tive tanta vontade de viajar ao ler um livro), a cidade cheias de cores, objetos repletos das mais pequenas e detalhadas representações – especialmente pássaros por alguma razão, roupas estranhas também bastante coloridas, cerimónias e festas religiosas onde os locais colocam máscaras de animais, muitas, muitas lanternas de papel levadas na ponta de paus para alumiar o caminho, a arquitetura, os interiores das casas, brancas limpas e vazias, a gastronomia repleta de pratos e iguarias agri-doces, talvez demasiado açucaradas, uma indústria de papel que parece bem desenvolvida para o tempo e, por fim, como não podia deixar de ser e não será grande novidade para quem já tenha visto desenhos animados japoneses, o som de fundo constante do canto das cigarras que nunca acaba.

 

  No final da estadia, Pierre Loti tirou uma foto onde se pode ver ele mesmo, com o seu bigode, Yves, mais alto, o seu melhor amigo, e Crisântemo, sentada numa cadeira, com os pés virados para dentro seguindo as normas de beleza japonesa. Aqui está essa foto:

photoyvesandlotijapan2.jpg

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogues

Youtube

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Mensagens