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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Uma Senhora Herança (My Old Lady) - Israel Horovitz

oldlay.jpg  Tirem lá o vinho à professora Mcgonagall de uma vez por todas! Que diabos anda ela a fazer a aparecer em filmes? Não só a aparecer neles, como a dar performances esplêndidas. E aliás, não só ela como os outros dois actores principais deste filme. Este realizador tem uma carreira bem mais relacionada com teatro do que com cinema e, tendo sido ele a escrever o filme, antes de um argumento este foi primeiramente uma peça de teatro. É um filme bastante fácil de imaginar enquanto peça por estar, na sua maioria, feito dentro de uma casa, em menos de uma mão-cheia de divisões.

  A história em si é interessante, seguindo a personagem principal, Mathias, um homem de meia-idade que pouco ou nada conseguiu na vida, até Paris onde o espera uma casa que herdou do pai. Nessa casa vai encontrar as personagens de Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, mãe e filha, lá residentes. O que se segue é um desvendar de histórias familiares, de amores, desamores, encontros, desencontros e reencontros. Gostei imenso do filme e recomendo-o vivamente a quem queira ver algo simples e inteligente, por vezes divertido, por vezes bastante dramático. Com o background teatral que o filme tem uma coisa é óbvia: o foco é dado às personagens e aos diálogos que são extremamente bem escritos, tendo sempre, mesmo nos momentos mais informais, bastante classe. Há tempos vi uma entrevista com alguém (terá sido Woody Allen?) que afirmava que para se fazer um bom filme a única coisa necessária é contratar os melhores actores que por aí há e deixá-los brilhar. Israel Horovitz certamente fez isso aqui e assim fico à espera do próximo trabalho dele: que seja tão bom quanto este.

Edgar Allan Poe - Histórias Extraordinárias

100_4015.JPG    Sem nunca ter lido grande coisa dele, já tenho este pequeno livro de contos* de Edgar Allan Poe há muitos anos. Foi com a leitura da Narrativa de A. Gordon Pym que o meu interesse em relação ao autor veio à baila.

    Pois bem, o que se pode encontrar nestes contos*? Antes de qualquer outra coisa e acima de tudo encontram-se muitas, muitas, muitas divagações sobre a natureza humana, sobre as nossas propensões para o mal, para o bem, para o amor e para o ódio. Poe é dos poucos autores que prefere escrever na primeira pessoa e faz uso do narrador autodiegético para explorar as suas personagens a um nível bastante pessoal, escrevendo sobre sentimentos, medos e pontos de vista específicos às personagens principais.

    Há uns tempos li algures que os géneros de fantasia e terror afinal ocupam apenas uma pequena parte do conjunto escrito pelo autor. Certo é que foi essa a veia a ficar marcada na história. Este livro tem 15 contos e tocam todos eles, invariavelmente, ou a morte, vindo por ela mesma ou por meios de assassinato, ou alguma espécie de miséria, por vezes com uma grande pitada de ironia e comédia até. Há uns quantos que na minha opinião valem a pena ressaltar.

    Começando por aquele que para mim foi o pior, Ligeia: credo, uma autêntica seca; divagações e descrições horrivelmente longas que partem de uma mente irritante e egoísta. Enfim...Em O Poço e o Pêndulo encontrei uma história de um autêntico terror; nunca antes um livro me tinha feito virar a cara, que nem um filme de terror, com um final abusivamente abrupto, mas muito bom. O Escaravelho de Ouro também merece ser mencionado, narrando uma história de tesouros perdidos em que um amigo que anda a fazer pouco de outro de uma forma bem cómica até. William Wilson é um conto bastante inteligente de um rapaz/homem que encontra alguém igual a ele, fazendo lembrar por vezes o Homem Duplicado de Saramago. Por fim, em Manuscrito Encontrado numa Garrafa encontrei um retorno aos assuntos do mar, piscando um pouco o olho a Gordon Pym mas passando-se num barco cuja tripulação tem ares de fantasmagórica, navegando por mares nunca percorridos.

    Há, no geral, algo que tenho que mencionar: é difícil escrever sobre pessoas pobres. Nos seus contos, como em quase todo o lado, não estando as personagens em ambientes inóspitos nos quais o estatuto social não importa absolutamente nada, estas são, sempre, ricas. Sempre provindo das dias "antigas famílias", com inúmeros bens e possibilidades de vida, tendo criados e até escravos. Irrita-me um pouco que até na literatura se usem personagens assim apenas por ser essa uma forma de as colocar em circunstâncias curiosas sem se fazer perguntas. Quando leio algo tenho tendência a questionar COMO?. Como é que esta pessoa consegue ter e/ou fazer isto e aquilo? As respostas no geral da literatura a tal, ou são vagas e não se percebem, ou são apenas "eh...tem dinheiro e pronto". É um pouco triste que até neste tipo de ficção haja tal diferenciação de pessoas.

 

*contos presentes no livro, por ordem: A pipa de amontillado; O coração delator; A caixa longa; Morella; O gato preto; O poço e o pêndulo; O demónio da perversidade; Metzengerstein; O enterro prematuro; O escaravelho de ouro; A esfinge; Ligeia; Berenice; William Wilson; Manuscrito encontrado numa garrafa.

 

Por Aqui e Por Ali (A Walk in the Woods) (2015) - Ken Kwapis

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  Com a idade nem sempre vem um entendimento superior da vida em si, muito menos qualquer sentimento de auto-realização. Gostamos de pensar que daqui a uns anos teremos a vida mais orientada, mas independentemente de tal se verificar ou não, o seu sentido - ou significado - escapar-nos-à sempre. É com este sentimento, uma mescla de nostalgia e desalento, que um escritor, Bill Bryson, já velho, decide partir numa grande caminhada ao longo de um conhecido trilho americano (Appalachian), acompanhado de um amigo que não vê há décadas.

  O filme é baseado na vida real do autor que editor um livro com o mesmo nome. Gostei dele. Os cenários são lindos e é apenas uma história simples de desencontros e velhas amizades quando a idade já vai avançando. Vejo-me imensas vezes a preferir e a querer ver filmes assim, calmos e serenos, mas na verdade são relativamente difíceis de encontrar, ou pelo menos não saltam aos molhos das prateleiras. A idade das personagens, com as diferentes perspectivas de vida que as acompanham é, sem dúvida, uma mais e grande valia.

Star Wars: O Despertar da Força (The Force Awakens) (2015) - J.J.Abrams

star-wars-force-awakens-official-poster.jpg  Quando ouvi que iam fazer um novo Star Wars torci o nariz. Afinal a história já estava terminada, tendo os rebeldes destruído o império galáctico e formado novamente a república no episódio 6, e, como tal, ignorei este novo filme por completo. Certo dia ouço de um conhecido meu, que o viu, as seguintes palavras: "Eh...eu não ser daquelas pessoas que diz que o que é antigo é que era, mas sim, prefiro bem mais os filmes velhos". Sendo esta pessoa alguém de gostos relativamente pretensiosos devo dizer que fiquei bastante intrigado pois, em circunstâncias normais, fosse o filme apenas de uma qualidade ligeiramente inferior à dos antigos, ele teria apenas dito "o filme é uma m**da! não percas tempo com isso!". Posto isto, o "Despertar da Força" tinha, obrigatoriamente, de ser um bom filme e de fazer jus à trilogia original.

  Lá vi o filme. Surpreendeu-me bastante. Por alguma razão as equipas que fizeram a segunda trilogia, que serve de prequela à primeira, falharam redondamente em fazer filmes que os fãs dissessem estar à altura dos originais. Não sei, demasiado romance, demasiadas imagens feitas em computador (especialmente o episódio 3 que em muitas parte quase parece desenhos animados), demasiada palha no geral. Comparando com o mais famoso episódio 5, "O império contra-ataca", em que as personagens estão constantemente em situações de perigo e a acção é quase non-stop, percebe-se o porquê de eu não ter grandes expectativas em relação ao novo filme.

  Felizmente estava enganado. O Despertar da Força capta grande parte da magia da trilogia original. O filme passa-se décadas depois do sexto episódio e, trazendo algumas personagens antigas, introduz bastantes. Se há coisa que, por vezes, me irrita bastante, é uma grande separação entre bem e mal; se bem que esta é bastante óbvia nos Star Wars, as novas personagens parecem-me ser mais complexas - pelo menos nesse sentido - tendo motivações e morais confusas. O uso de CGI não é excessivo nem de mau gosto, o que era o meu maior medo antes de ver o filme.

 Nem tudo o que acontece entre o sexto filme e este nos é dito e, presumo eu, muita coisa do passado que não foi explicada aparecerá nos episódios seguintes. Vi que Rian Johnson será o realizador do oitavo e isso só me aumenta as expectativas porque de entre os filmes dele que vi (Brick, Brothers Bloom e Looper) não há um ao qual se lhe possa apontar o dedo por ser mau. Enquanto esse não vem fica a recomendação de "O Despertar da Força". Não se vão arrepender.

 

Confianças e traições

  O facebook está entulhado de m**da. Acho especial piada ao conhecimento científico e às verdades irrefutáveis que são primeira e exclusivamente lá reveladas. Mas também há as dicas de alimentação com o que se deve e não deve comer, o que é pior e melhor, e, claro, aquilo que as pessoas bem sucedidas fazem. Muita coisa é publicada e partilhada por lá, todas elas com zero (ou próximo de zero) de interesse ou verdade, em especial estas.

  Como seria de esperar encontram-se ainda muitas dicas e regras em relacionamentos. É óbvio que os relacionamentos, o amor e a amizade não podiam ficar de fora. Aparentemente as pessoas que mais traem e encornam os parceiros são aquelas que:

1 - Passa muito tempo nas redes sociais

2 - Já traíram anteriormente

3 - Sejam bem sucedidas na vida

  Não posso dizer que discorde disso. O segundo ponto...enfim, nem vale a pena comentar por ser óbvio. O primeiro é bem visto e irónico, mas o certo é que hoje as pessoas conhecem-se mais na internet que na rua e lá marcam os encontros que haja para marcar. Quem desdenha quer comprar e, querendo comprar, que melhor sítio para se encontrar aquilo que se pretende que num sítio prontamente chamado de facebook? Já o terceiro ponto é mais curioso, mas não deixa de ter a sua verdade porque ao ser humano...enfim, nada basta. Há uns episódios de Friends em que uma das personagens namora com um milionário que, dando um pouco em louco, mete na cabeça que há-de ser campeão de luta livre sem ter a menor propensão para tal, mas enfim, não desiste da ideia dizendo que o único domínio que lhe falta conquistar na vida é o da força física.

  Quanto mais se tem mais se quer, mas quanto mais se precisa menos se tem. Identifico-me mais com personagens terra-a-terra que procurem companheirismo. Nunca tive uma vida familiar muito boa mas confesso que é algo que me encanta, nem que seja por não ter grande receio da morte, mas sim da solidão. No livro "A Caverna", Saramago dá-nos a conhecer a personagem de Cripriano Algor, um velho que, vendo-se em vias de sair da única casa onde residiu, procura agarrar-se ao que pode para não sair de lá, especificamente em Isaura Estudiosa, na qual vê alguém que pode tomar conta dele e, portanto, uma forma de não deixar as suas raízes. Essa ideia de amor agrada-me bem mais que qualquer outra e parece-me a mim ser a que mais propensão tem a não se desmembrar.

A Inocência e o Pecado - Graham Greene

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   Gosto quando a primeira frase de um livro cativa à primeira espreitadela. O Processo e A Metamorfose de Kafka encetam com períodos que toda a gente conhece e acredito que, em parte, foi por isso que se tornaram tão conhecidos. O início de A Inocência e o Pecado é igualmente forte:

  "Não havia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo."

  Toda a narrativa parte desse assassinato, revelando uma veia policial do autor que eu desconhecia e que adorei. O que se segue é o encobrir do crime num mundo de gangs cujo lucro anda em volta de apostas em corridas de cavalos, no sul de Inglaterra algures na década de 20 ou 30. O livro é bastante descritivo no que toca aos ambientes pesados em que as personagens vivem, marcados, no caso da personagem principal - Pinkie - e do seu gang, por um medo e paranóia, que os leva a cometer outros crimes.

  O título, apesar de diferente do original "Brighton Rock", não podia ser melhor na sua adaptação para português, marcando assim uma das principais diferenças entre as várias personagens, especialmente Pinkie - quase sempre referido apenas como "o rapaz" -  líder bastante novo do gang que assassinou o referido Hale, e Rosa, uma rapariga igualmente jovem que o poderia incriminar. Tirando isso os dois nada têm em comum senão a infância, envolta em excessiva pobreza, da qual Pinkie tenta desesperadamente fugir.

O Cônsul Honorário - Graham Greene

consul.JPG  No Natal passado, arrastado pela minha família, fui assistir à missa do galo. Na altura do sermão o padre decidiu abordar um tema bastante controverso: a dúvida cristã. Mas que diabo é isto? Bem, há muito, no território católico, quando a igreja tinha poder político e tudo o mais, a dúvida não existia, a crença era como que obrigatória. Com o passar do tempo o papel não só da igreja católica mas da religião no geral mudou: hoje a "dúvida" é não só aceite como incentivada. Aparentemente as pessoas devem questionar-se disto e daquilo, se é real, se não é, e é dessa dúvida que a fé deve surgir. Graham Greene é, ou era, um autor profundamente religioso e a tal da "dúvida" está bem implícita em tudo o que escreveu. Essa é uma das mais interessantes particularidades deste autor. As suas personagens não são rectas, mas sim puramente humanas, cheias de contradições, fugindo de dadas circunstâncias e indo parar a outras, para o melhor e para o pior, fazendo, pelo caminho, o bem e o mal.

  A história deste livro passa-se algures entre a Argentina e o Paraguai, com personagens que se movem de um lado para o outro das fronteiras, durante a forte ditadura militar do Paraguai. Tempos difíceis pedem acções extremas e assim um grupo de gente decide raptar um embaixador tendo em vista a libertação de uns quantos presos políticos, mas o tiro sai ao lado e tudo corre mal, raptando a pessoa errada. Como é de prever pelo título há, portanto, uma forte veia política neste romance, mas não só: também triângulos amorosos; velhice e juventude com espaços e conflitos entre pessoas de gerações e culturas diferentes que têm dificuldade em compreender-se. No entanto todos eles procuram o mesmo: dar um sentido às suas vidas, se possível de modo confortável.

 

O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde) - Robert Louis Stevenson

jekyllhyde.JPG  Desde pequeno que conheço estas duas personagens, Jekyll and Hyde, mas não sei bem de onde. Algum miúdo leu esta história ou viu o filme e falou dele, havia também, a certa altura, um jogo qualquer. Muitos anos depois vi um filme de nome "Liga de Cavalheiros Extraordinários" em que ele/eles era/eram uma/duas da/s personagem/ns. Nesse filme retratavam uma espécie de Hulk, um homem que se transformava num monstro grande, forte, feio e mau. O texto original pouco tem a ver com essa imagem.

  Ontem, procurando algo novo para ler, encontrei este pequeno livro cá por casa e foi com bastante gosto que já o acabei de ler. A história, sendo mais ou menos o que eu esperava, não se poderia afastar mais da idéia que tinha, superando largamente as minhas expectativas. . É uma série de eventos estranhos e mistérios, envolvendo até crimes, sobre a importância da amizade e a dualidade que existe nos pensamentos de todos entre, de um modo geral, o bem e o mal, a bondade e a crueldade. Recomendo a todos a leitura deste pequeno livro, escrito com, acima de tudo, simplicidade e muita, muita classe.

Odisseia hospitalar - Parte 4

     No dia seguinte - era então o terceiro - lá me dei ao trabalho de, por volição própria, chatear e falar com as pessoas. Perguntei pelo médico umas quantas vezes e, outra vez, foi-me dito que já podia ter alta e que a teria assim que o homem por lá passasse. Se não me engano, ritmo cardíaco 60, tenção 111. A única coisa que me faziam era pôr pomada e já nem na cara toda, apenas em redor do olho esquerdo, numa pequena parte da testa e numa pequena mancha no pescoço.

     A estadia estava a ficar enfadonha até mais não, especialmente porque já não havia qualquer necessidade dela e estava complicado ter a desejada alta. Ainda assim, confiando nas conversas que me davam, comuniquei à minha Maria que sairia de lá nesse dia. A manhã passou, o almoço passou, chegou a hora visitas, na qual eu já esperava encontrar-me noutro sítio. Médico nada: "Ele há-de aparecer aí, está a dar consultas lá em baixo". Aparentemente nem fazendo um pouco de empecilho me queriam ver dali para fora. Para alguém habituado a caminhar bastante todos os dias e mais algum exercício físico à parte, a inacção hospitalar estava já, naquele terceiro dia, a assemelhar-se a uma prisão, sentimento que aumentava com o saber não haver necessidade nenhuma de estar ali. Até a Maria estava também cansada.

     O velhote a meu lado, o senhor Luís, como já disse, não tinha grandes capacidades motoras. De manhã dois enfermeiros deram-lhe banho, limpando-o com, presumo eu, panos molhados. De seguida, dizendo-lhe ser bom para o coração, levantaram-no e sentaram-no num grande cadeirão. Assim permaneceu uma hora, duas talvez, e lá pressionou o botão de campainha dizendo a quem apareceu que queria dormir um pouco. Marcavam presença no hospital uma mão cheia de estagiários. Definitivamente não gosto da "pinta", da postura das novas gentes, mas há um contraste interessante entre eles e aqueles que já lidam com pessoas há muitos anos: os mais novos ainda não têm empatia para com as pessoas; hão-de-a criar mais tarde, julgo eu. Ao contrário do dia anterior, o senhor Luis teve uma visita: a da sua esposa.

     As pessoas, especialmente as mais novas, podem defender a poligamia o quanto quiserem. Em parte até concordo com eles, mas acho sinceramente que tal não funciona - ou pelo para mim não funciona, nem que seja pela quantidade de interacção que isso requer. Se estou numa relação não é somente por impulsos sexuais; acima disso, bem acima, é por uma questão de companheirismo. Sou um ser pouco social. Falo para muito pouca gente, tenho poucos conhecidos, amigos então..mas gosto da ideia do companheirismo conjugal, de ter naquela parceira alguém com quem contar e vice-versa. Fiquei contente por ver que o velho tinha alguém, alguém que se importasse, alguém que o fosse visitar. Afinal nós éramos dois homens cujas únicas visitas provinham das companheiras.

     Por volta das quatro horas da tarde lá estava eu novamente à frente dos enfermeiros a perguntar pela alta que teimava em vir. Gosto de ter a barba feita e até isso já incomodava de grande que estava. Aí, dessa vez, fui informado de que o meu médico - de quem sinceramente nem me lembro, apenas me atendeu no dia da chegada e eu estava um pouco desorientado - já tinha ido embora.

     Tanto falam nos encargos do Estado com a saúde e às vezes tornam o acto de sair do hospital num autêntico frete. Estava farto e cansado de lá estar. A pergunta que fiz foi "E se pegar na tralha e for embora?". "Assina este papel em conforme rejeita o internamento e pode ir". Ponderei. Assinei. Vim para casa.

     Fui bem recebido, trataram-me bastante bem, as acomodações eram bem confortáveis, a comida superou grandemente as expectativas. À parte do abusivamente quente e sempre ligado ar condicionado não tenho qualquer razão de queixa. Apenas queria vir para casa e assim fiz. Depois de assinar o tal papel, fui até à casa de banho mudar de roupa e, sem ter mais nada a dizer, saí levando a minha Maria pelo braço.

Odisseia hospitalar - Parte 3

     As recuperações hoje podem ser rápidas, em tempos não o seriam. Épocas de reis e rainhas, castelos e soldados, em que de um corte pais profundo, por não haver ora com o que se tratar, ora condições ou conforto para isso, lá apareciam infecções, deformações que deixavam os membros estropiados e abriam caminho para a gangrena que matava em menos de nada. A ganância do homem pode ser ilimitada, sim, quer-se sempre mais, e quer-se sempre fazer mal a gentes "de fora"; olha-se de lado, rogam-se pragas...Em tempos de reis conquistavam-se terras e castelos, matavam-se as populações, queimavam-se as casas. No cimo das muralhas havia todo o tipo de gente, soldados e escravos, catapultas atiravam pedregulhos, arqueiros disparavam setas. Atirava-se, lá de cima, também, azeite a ferver. Ando eu para aqui a choramingar por ter uma queimadura de 2ºgrau na cara quando outrora se fritavam assim pessoas vivas. Hajam gentes e mortes horríveis.

     No hospital o almoço é servido à uma. Às duas é hora de visita. Entre a uma e as duas trouxeram para a minha enfermaria um velhote a quem tratavam por senhor Luís e que mal se conseguia mexer. Não reclamava, não falava senão com algo específico em mente, não se movia, estava apenas lá. Ainda conseguia comer sozinho, levantando a parte de cima da cama com os pratos postos postos no tabuleiro que está na parte superior do móvel que serve de mesa-de-cabeceira. Este senhor Luis pouca mobilidade tem, não consegue andar, não consegue sair da cama. Nesse dia não teve visitas. Passava-me pela cabeça que estava apenas à espera de morrer, que tudo o que a vida tinha para lhe dar e tirar já lhe tinha sido entregue e roubado e que por isso ele dormia como nunca vi ninguém dormir, durane a maior parte do dia. Não perguntei a ninguém o que tinha ele e a única interação que houve entre os dois foi ter-me pedido água enquanto eu enchia o meu jarro - ele bebia-a através de uma espécie de biberão. Reparei também que de vez em quando coçava o braço no sítio onde estava a agulha intravenosa. Também a mim, que já não lhe dava uso, me incomodava. Esta agulha surpreendeu-me bastante pelo seu tamanho quando ma tiraram do braço, e também pela quantidade de sangue que desse buraquito saíu...

     Estava um dia de sol e, durante a hora de visitas, fui com a minha Maria até à entrada do hospital - a fim de andar um pouco - onde cravei um cigarro, quebrando novamente o meu "vou deixar de fumar". Cravar cigarros é como que uma pequena arte para quem tem vergonha. Não havendo vergonha pede-se a toda a gente e pronto, mas havendo é outra história. Há que, enfim, seleccionar a pessoa a quem se vai pedir; para evitar olhares desconfiados e de desconforto; muito velha não serve, muito jovem também não e de preferência que tenha bom aspecto e seja do sexo masculino, que o feminino é muito desconfiado. Não há tabaco à venda no hospital e, pedindo, as pessoas são bastante suvinas com os cigarros, mais depressa dão uma moeda de um euro... Lá me deram um cigarro, lá nós os dois caminhámos um pouco, de um lado para o outro, ao sol, perto da entrada do hospital.

     O segundo dia lá passou. Acabei a leitura de "O Consul Honorário" de Graham Greene e comecei "A Inocência e o Pecado" do mesmo autor. O livro de sudoku já ia quase a meio. Num hospital não há nada que fazer, apenas esperar. A pele da minha cara sarou de forma extraordinariamente rápida e ao fim do dia já nem se notava muito. O aspecto certamente era um pouco à Lázaro, ainda cheio de pequenas marcas e, em sítios, pequenas peles a saltar; dores não as havia desde o dia anterior. O médico não apareceu, portanto, e ao contrário do que me disseram, não tive alta.

     Seguiu-se a segunda e última noite lá. Adormeci a ler, sem sequer dar por isso, com a cama ainda reclinada, mas não foi algo de longa dura. Também passei essa noite mais ou menos em branco, despertando repetidamente.

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