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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

José Saramago - As Intermitências da Morte

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   Saramago enquanto escritor gosta bastante de saltar do geral para o particular e do particular para o geral. É bastante comum falar de algo numa perspectiva política, social, geral, seja o que for, para depois saltar para o particular, para vidas de pessoas que vivem dentro do contexto político, social, geral, que ele acabou de descrever. Assim, em "Ensaio sobre a lucidez", por exemplo, temos os movimentos tanto de cidadania como políticos, ocupando uma metade do livro, e a história de apenas umas quantas pessoas ocupando a outra metade; em "Memorial do Covento" temos por um lado a vida na corte real, do outro a vida de Baltasar e de Blimunda. Enfim...o mesmo aplica-se neste livro, várias vezes e de variadas formas.

  Em As Intermitências da Morte Saramago fala de um país no qual se deixa de morrer, descrevendo as possíveis implicações disso, para depois virar o leitor ao contrário, fazendo uma personificação da morte. A morte, tantas vezes desenhada e narrada, sendo a sua principal figura o esqueleto munido da gadanha, nunca teve tanta vida como a que Saramago lhe dá.

  O livro tem grandes implicações religiosas, umas óbvias e descritas, outras nem tanto. Alguns farão uns quantos paralelos entre o que é relatado aqui e certas histórias bíblicas, outros não as farão por talvez serem até disparatadas. Não sei...

  A escrita é bastante simples e a leitura rápida, mais até do que aquilo a que estou habituado vindo do autor. Poucas vezes recorri ao dicionário durante As Intermitências da Morte. Para ser sincero não o achei tão bom quanto outros que já li do autor. Houve partes que me aborreceram, que achei secantes, que me fizeram querer parar de ler apenas por puro tédio. Mas uma coisa fica dita: Mesmo nesses momentos Saramago sabe atirar um qualquer anzol que nos prende ao livro, havendo sempre uma espécie de promessa de que "é desta que a história vai andar finalmente para a frente depois de tanta divagação" até que anda...e assim se chega ao belo final do livro, que comoverá uns, outros nem tanto, mas que deixará quase todos de boca aberta.

Final Fantasy: The Spirits Within (2001) - Hironobu Sakaguchi, Motonori Sakakibara

  Quem tenha jogado qualquer título da saga Final Fantasy sabe bem a capacidade que os criadores de tais jogos têm para criar mundos, personagens e histórias fantásticas. Todos os jogos narram histórias diferentes e este The Spirits Within nada tem a ver com qualquer dessas histórias. É um filme de ficção cientifica. Aliás, é um bom filme de ficção científica.

  Os desenhos hoje podem até parecer fora de moda, ultrapassados, enfim, old school, mas quando saiu, em 2001, este filme criou grande sensação pois a animação era de um realismo nunca antes visto. Pelo que vi no making of, foi também inovador no uso de motion caption, que é nada mais que arte de fazer animações baseados em movimentos de gente de carne e osso, vestidos em fatos cheios de sensores.

  A história em si é, na verdade, bastante original. Quando se pensa em aliens, regra geral, pensa-se que eles são como nós, mas mais avançados tecnologicamente. Aqui o planeta vê-se destruído por uma raça que nem parece inteligente, cujos corpos e formas são estranhos e que não conseguimos sequer começar a compreender. São seres inteiramente diferentes de nós em tudo quanto é possível pensar. Depois há a tal batalha por sobrevivência, há filosofias e teorias e tudo o mais, mas o verdadeiramente original é o conceito desta bicharada que atracou na terra através de um cometa que cá veio cair. O resultado final é uma mistura entre conceitos novos e conceitos já batidos, da qual eu confesso ter gostado bastante.

Contact (Contacto), (1997) - Robert Zemeckis

   Tenho um fraquinho por ficção científica. Um fraquinho bem grande. É curioso como a certa altura do filme a personagem de Matthew McConaughey faz uns quantos comentários em relação à passagem do tempo noutros pontos do universo. Em 1997 parecia adivinhar que iria protagonizar o Interstellar. No entanto a personagem dele aqui não poderia ser mais diferente da do filme de 2014. Ele é um padre. Jodie Foster é uma astrónoma. Ele, verdade seja dita, apesar de importante aqui e ali, nem aparece muito. Ela anda à cata de aliens, ouvindo e procurando possíveis mensagens que tenham enviado através de frequências de rádio (se não me engano). Visualmente é um filme rico, cheio de cor e lindos cenários. Aborda algumas típicas linhas da ficção científica, como o debate entre avanço tecnológico, ciência e religião. Deixo também o comentário à prestação de Jodie Foster que, como é habitual, sozinha dá um brilho impressionante ao filme.

  Contacto é baseado num livro com o mesmo nome escrito por Carl Sagan. É um escritor que, estando nas prateleiras de umas quantas bibliotecas e papelarias, já me cativou a atenção umas quantas vezes, apesar de nunca ter lido nada dele. A julgar por este "contacto" irá sem dúvida para à lista de autores que quero ler.

O Senhor Dos Anéis

   Confesso que tenho uma espécie de fascínio estranho por estes filmes. Não os considero propriamente os melhores de todos os tempos, nem sequer os meus favoritos, mas é certo que quando alguma conversa por acaso chega a eles fico logo empolgado. Não sei. Talvez seja por já os ter visto uma data de vezes. Talvez seja a formação da irmandade no primeiro livro, com os seus altos e baixos, talvez seja a participação dos Ents no segundo a mostrar que com a natureza não se brinca, ou talvez seja a leve sensação de tristeza que fica no fim do terceiro. 

  Sim, os filmes têm defeitos...e muitos. Mas o mundo que Tolkien criou é tão abrangente e completo, a jornada de Frodo é algo de tão extraordinário que não consigo evitar amar estes filmes.

  Até da trilogia "Hobbit" eu sou fã, tão criticada por andar vagarosamente. "Eu vi o primeiro filme mas parece que nada se passou...". Enfim, as pessoas estão tão cheias de filmes de acção que parecem já nem aceitar um filme lento. Ou talvez seja uma questão de gostos, não sei.

  

  Passando à frente, hoje requisitei na biblioteca "O Hobbit" do senhor JRR Tolkien. Dele pouco ouvi, mas a trilogia que o segue parece ser de não muito agradável leitura pelo simples facto de ser bastante lenta e ter muitas músicas lá escritas. Mais uma vez: não sei. As minhas espectativas são muito altas. É acabar de ler o meu livro actual (Intermitências da Morte de Saramago) e depois vamos ver o que nos reserva o senhor Tolkien.

Agatha Christie - Mrs. McGinty está morta

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  O terceiro livro que leio de Agatha Christie, o segundo com o seu famoso detective Hercule Poirot que aqui vai investigar a morte de Mrs. McGinty, uma mulher-a-dias idosa que vive numa pequena aldeia cujos habitantes são, na sua maioria, endinheirados. Mrs. McGinty trabalhar para grande parte deles em limpezas e, de certa forma, todos são suspeitos. É interessante a "vida" que Christie dá às personagens, desde os seus mais pequenos actos até às histórias pessoais que Poirot se vê obrigado a investigar.

  Nem sempre gosto de Poirot. Inteligente ele é, atento aos detalhes também, enfim, um bom detective, mas tem um lado snob que me incomoda um pouco. Aliás, neste livro quase toda a gente tem. Do que gosto é da escrita de Agatha Christie, simples, como diriam os ingleses, straight to the point, com frases curtas e muitos diálogos bem escritos que aos poucos vão deixando dicas ao leitor sobre pistas sobre a investigação e assim vai avançado a narrativa. Mas, lá está, no fim surpreende-nos sempre, ficando-se de boca aberta com o desenlace da história. Um bom livro, rápido de ler e interessante.

Cães e talvez outros animais de estimação

  Há milhares de anos alguém teve a feliz ideia de capturar um cão e, estando ele uma vez encerrado num qualquer buraco, alguém teve novamente uma ideia feliz, a de o alimentar. Certamente na altura não seria o animal que conhecemos hoje, mas sim um bem mais feroz que tinha mais a ver com lobos, bastante ávido no que toca à colecta de alimentos e à caça. Depois de domesticado acabou por se fazer deste animal um parceiro de grande valor para a própria sobrevivência, tanto no que toca ao arranjo de comida, como, claro, à protecção das frágeis casas, cabanas ou sei lá o quê em que então os humanos habitavam.

  Andando uns quantos milénios, séculos, décadas e anos para a frente os cães chegaram ao que são hoje, animais que nunca se conseguiriam desenvencilhar sozinhos no mundo. Uns de umas raças, outros de outras, a maioria rafeiros que é como me parece que todos deveriam ser, por aí andam, uns a viver dentro das próprias casas dos humanos ou em quintais, outros abandonados ao deus dará, e aqueles nem sempre melhor tratados que estes. A própria história das raças como as temos hoje é pouco mais que uma invenção humana. Manipulámos esta espécie até um ponto sem retorno, transformando-os em pouco mais que animais, brinquedos, enfim, coisas que se usam para companhia. Não digo que não têm o seu mérito enquanto tal, afinal muitos são os que de parceiros têm unicamente e cães e diga-se que não estão nada mal servidos. Muitos são também os que, ao verem um cão bem tratado, correm a fazer-lhe festas e o cão por sua vez parece gostar bastante desta atenção. No entanto os humanos parecem nunca saber quando dizer basta e assim se chega a esta publicação que agora escrevo.

  Ontem chegou-me aos ouvidos algo que eu considero deplorável: aparentemente em muitos países, dos quais se exclui a península ibérica, é obrigatório esterilizar os cães pouco depois de nascerem (até seis meses ou coisa assim  - não vou pesquisar), ou seja, os desgraçados mal nascem vão logo à faca. Percebe-se a intenção, ainda que não totalmente, mas tal medida parece-me bastante cruel, principalmente considerando o que o cão era no principio e aquilo em que nós o tornamos. Tempos houve, não há muito certamente, em que a vacina contra a raiva não era obrigatória e os cães que na rua viviam se contavam às mãos cheias por todo o lado. Nessa altura quando se via um cão na rua, com aspecto de perdido, abandonado e maltratado, fugia-se dele a sete pés, tal era a normalidade dos animais terem essa desgraçada doença e tal era a facilidade com que ela passava para os humanos. Hoje gozamos do privilégio de poder acolher com relativa facilidade os seres desta espécie que nós aos poucos fomos mutilando e pela qual somos agora inteiramente responsáveis. Há até incontáveis famílias e instituições que parecem viver para estes bichos, alimentando-os, vacinando-os, enfim, tratando-os como podem, nem sempre bem e por vezes obrigados a ir por caminhos negros que eu sei lá, mas enfim, elas estão lá, em certa medida fazendo o que podem. Talvez consigam corrigir um pouco do mal que se faz hoje a estes bichos que são visto mais como brinquedos do qualquer outra coisa.

  Por mais que digam que a história da esterilização é isto e aquilo e muito boa e benéfica, há que ter em conta que é, entre outras coisas, mais uma forma de comércio para que estes bichos sejam vendidos a preço de ouro e não arranjados por aí. Se tal entrar em vigor, há-de haver gente com licenças para não esterilizar os animais e esses vão ser os que mais lucram. E depois essas licenças hão-de ser bastante caras, talvez, não sei. Um mundo muito sujo, este dos humanos. Os cães são animais pelos quais, como já disse, somos responsáveis, não bonecos que se dão às crinças.

José Saramago - Ensaio Sobre a Lucidez

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  Como se pode ver pela imagem acima, a capa mostra apenas o nome do autor, a editora, o título da obra e o género literário a que pertence. Na contra-capa lê-se "Uivemos, disse o cão. - Livro das vozes". Estará lá só para encher chouriços, só para ocupar espaço? Às tantas há mesmo um cão no livro, que a certa altura, por alguma razão, há de começar a uivar. Pois bem, esse cão é o mesmo que foi lamber as lágrimas da cara da mulher do médico em Ensaio Sobre a Cegueira. A cidade também é a mesma. Já as circustâncias são completamente diferentes não sendo necessário ler um para ler o outro.

  O livro tem uma forte componente política. Há uma capital que deixa de o ser, tendo o governo e a polícia saido de lá. Há jogos políticos, há gente precipitada, há más decisões. Há censura, controlo dos meios de comunicação. Há a cidade que até há pouco tinha sido a capital de um país e que de repente deixou de o seu, vendo-se rodeada de altas muralhas num declarado estado de sítio. Há as pessoas residentes da cidade que continuam a viver as suas vidas como se pouco ou nada estivesse a acontecer.

  Mesmo nos livros mais políticos de Saramago, não são tanto as suas idéias, chame-mos-lhe a sua "engenharia social" o que mais me impressiona, mas sim a sua cuidadosa escolha de palavras e, acima de tudo, a sua sensibilidade e ironia. Com isso temos as descrições dos ambientes e as várias personagens com as suas histórias, objectos, receios e vidas. Há pessoas que simplesmente querem viver como sempre o fizeram, outras que tentam descobrir verdades e mentiras, e ainda aquelas que são hipócritas e mentirosas. Aproveito para dizer: tomem atenção ao presidente da câmara - não é que seja umas das mais importantes personagens, na verdade a sua parte nem é muito extensa, mas é uma das mais belas e concerteza deixará muitos talvez até com uma lágrima no canto do olho.

  Falei do cão da contracapa, mas não falei da lucidez da capa. Clareza, perceptibilidade e transparência são alguns dos sinónimos que se podem arranjar, mas ainda assim o título não diz grande coisa. Lucidez em relação a quê? Leiam e descubram. Certamente não se arrependerão.

Escritos de uns e de outros

  Uma pessoa conhecida de uma amiga teve a sorte de conseguir, de alguma forma, publicar um livro. Já dei de caras com livros de gente cuja existência conheço indirectamente mais que uma vez e é sempre com alguma curiosidade que os começo a ler. É um "ah a tua amiga escreveu isto? Deixa lá ver". Estas edições muito raramente estão ao nível do que seria de esperar. Ele é erros de português, de gramática, de sintaxe, ele é frases mal escritas, ele é uma cadência estranha nessas frases, ele é uma total falta, tanto de saber como de sensibilidade, para com aquilo que se escreve. Em suma: o livro que assim nos veio parar às mãos é uma desilusão que nos leva apenas a pensar "epá...fico contente por esta pessoa ter lançado alguma coisa, mas isto é tão mau que não sei como o fez". E assim se pára a leitura ao fim de dez páginas ou menos.

  Não sei como funciona o mundo editorial. Sei que há muitos livros cujos custos de impressão e tudo o mais saem directamente do bolso dos autores. Talvez seja um pouco por aí, um "O seu livro é mau mas como é, se tem dinheiro para gastar a gente publica-lhe isto." O mais estranho é que vêm com o carimbo das editoras. Não há revisores que leiam aquilo? Não há editores que indiquem "olhe, mude lá isto esta frase se faz favor e já agora corrija a outra".

  Uma coisa é escrever mal num blogue que recentemente se começou e que poucos lêem, outra é escrever mal num livro que se dá a conhecer ao mundo e para o lançamento do qual se deram umas boas centenas, senão milhares, de euros.

  Há muita gente a querer ser escritor quando muito raramente mesmo os melhores conseguem viver da escrita. Alguns podem argumentar com um vago "são sonhos". Pois bem, que o sejam, mas os sonhos, regra geral, envolvem muito trabalho.

  O que muitos dos novos autores não parecem compreender é que escrever, sendo quase sempre um pequeno part-time, é uma trabalheira levada da breca, especialmente quando se quer ter alguma qualidade. Não é uma pequena ocupação que se tenha durante um breve período de tempo. Requer dedicação e empenho. Requer muita leitura também. Ai de quem queira escrever sem ler bastante e ai de quem escreva sem, ao ler, consultar o dicionário de cada vez que encontra uma palavra desconhecida.

  Eu cá estou neste momento sentado num sofá branco e digo desde já que ter um sofá branco é uma carga de trabalhos. Se alguém andar à cata de sofás que tenha escrúpulos para comprar um com cores mais neutras, talvez verde escuro ou cinzento. De certa forma também tenho o sonho de ser escritor. Vou rabiscando umas coisas aqui e acolá. Ainda hoje acabei uma pequena história de pouco mais de dez mil palavras. Nem sei como nem onde a enquadrar mas vá. Publicar? Não me parece. Virginia Woolf dá o conselho de não editar nada antes dos trinta. Escrevo por ser uma actividade que me dá algum prazer. Quando conseguir escrever algo que ache que valha a pena talvez me dê ao trabalho de tentar publicar, mas só se valer a pena, tendo o texto uma qualidade inegável, nem que seja aos meus olhos. Ainda está para acontecer.

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