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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

O dinheiro não importa

  Tantas vezes se ouve essa frase, tantas vezes exaltada, tantas vezes é o dinheiro desdenhado. Tantas vezes se diz que o amor à camisola é que importa, tantas vezes se diz que trabalhar por paixão é melhor que trabalhar por pão.

 

  Estas frases e muitas mais são tantas vezes ditas, como hoje o foram a mim, por gente endinheirada...

Lançaram-me os dados

  A Sra Pântano fez-me hoje este desafio em que teria de escrever uma pequena história usando três palavras: flor, música e dragão. Lá fui a correr escrever isso, tentando não fazer batota. Espero que gostem, aqui está o apressado resultado:

 

  A velha gadanha enferrujada, após afiada com pedra e água, corta a alta erva como nos seus tempos de juventude. O homem de meia-idade que agora a embala para trás e para a frente é que já perdeu não só a força, mas também o jeito. Afinal há coisas que parecem não ser como andar de bicicleta, e após vinte anos longe do campo a trabalhar sentado a uma secretária, bastam-lhe alguns minutos daquele trabalho para as costas lhe doerem e as mãos começarem a calejar. Juntemos a isso este sol absurdamente quente de início de verão e a António Silva, apesar de rodeado por quase todos os lados de verde, parece-lhe estar o mundo a arder.

  Afinal que espécie de ideia tinha sido aquela? Durante toda a sua juventude tentara fugir a sete pés daquele lugar e agora, só por a mulher o ter deixado e levado com ela a filha, tendo duas semanas de férias vai para a casa dos pais? Inicialmente vieram-lhe à lembrança algumas memórias felizes dos tempos de garoto, mas começando o trabalho, no silêncio do campo, interrompido apenas por trechos de música gritados bem alto pelas colunas dos raros carros que ali vão passando, nada o anima e as memórias parecem querer lavrar apenas em campos cheios de pedras. Ele é o pai a chegar a casa bêbedo, ele é a mãe a bater no pai por o ver naquele estado, ele é mulher a dizer que nunca mais verá a filha.

  Na torreira do sol e sem chapéu, passados vinte minutos, já o suor lhe escorre pelo corpo todo, pelo rosto, pelo pescoço, pela barriga, pelas pernas. O trabalho ainda nem a meio vai, aliás, muito longe de chegar a meio está ele, mas António Silva decide fazer uma pequena pausa. Tira a camisola, ficando em tronco nu, e senta-se numa pedra, cotovelos nos joelhos, camisa nas mãos, cabeça baixa para limpar com a camisa o suor. Não é preciso muito tempo para o sol lhe começar a escaldar as costas, qual fogo de um dragão. É então que António Silva torna a olhar em volta, para o horizonte interrompido pelos altos montes adiante. Olhando para longe não vê logo o que está perto: meia dúzia de regos bem delimitados na terra onde crescem girassóis, as flores que ofereça à mulher quando casou. Ao baixar os olhos do horizonte reparou neles, e tornou a baixar para as mãos a cara, onde agora corriam não só rios de suor mas também de lágrimas.

Ocean's 8 de Gary Ross

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  Filmes de assaltos há muitos. A premissa é quase sempre a mesma: junta-se um grupo de pessoas, cada uma com a sua especialidade e papel a representar no roubo em si, e cria-se um plano bem espetacular, desses que um criminoso provavelmente teria dificuldade em criar, mas que para um escritor com conhecimento de causa pode ser relativamente fácil. Depois a história é arrastada tanto pelas personagens em si como, principalmente, pelo plano de assalto, que o vemos enquanto se desenrola.

 

  Nunca vi nenhum dos Ocean’s, mas fiquei com vontade de procurar os anteriores e quem sabe fazer até um post de comparações ou algo assim, isto porque gostei deste Ocean's 8. Vão roubar joias avaliadas nuns quantos milhões durante uma gala que irá ocorrer no Museu Metropolitano de Arte em Nova Iorque debaixo dos olhos de inúmeros seguranças e inúmeras câmaras de vigilância.

 

  No que toca a assaltos, é difícil ser-se mais perfeito que isto. Aliás, o maior defeito que ponho no filme é ser perfeito demais, pois há ali muita coisa que poderia ter corrido mal e que, aliás, quase parece que deveria ter corrido mal. Fiquei com a impressão que faltava talvez algum drama, algumas pedras no caminho.

 

  Mas pronto, lá fui ontem ao cinema ver o filme e certamente não me desapontou. Vejam e digam de vossa justiça.

Stephen King - A Cúpula

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  Após a leitura de alguns livros, fica-se com uma certa excitação do tipo “Raios partam! Melhor livro de todos os tempos!” Foi assim que fiquei após ler A Cúpula de Stephen King.

 

  No final há uma “nota do autor”, duas pequenas páginas com alguns detalhes e agradecimentos na qual, para começar, destaco a menção a Nan Graham, editora do livro, que aparentemente percebeu que Stephen King queria algo bem acelerado e cortou/editou tudo de forma a garantir o passo apressado que aqui se lê. Pode mover-se rapidamente mas é grande; nesta edição de bolso dividida em dois volumes, o primeiro deles tem, no total, 700 páginas e o segundo 655. No início do primeiro, antes de começar a prosa em si, temos uma lista relativamente grande das personagens de uma forma ou de outra mais importantes do livro. E a partir do momento em que há uma lista de personagens é porque vem aí algo longo, mas, como disse anteriormente e voltando um pouco atrás, rápido. Aliás, é surpreende o quão rápida A Cupula se move. Enfim, há livros que têm 100 páginas e parecem nunca mais acabar, este tem mais de 1000 e parece acabar cedo demais e de forma abrupta.

 

  Já falei muito sem mencionar o que se passa. A premissa é aparecer uma cúpula gigantesca à volta de uma pequenina cidade que mais parece uma grande vila. Nada entra, nada sai, tirando som e algum, ainda que ridiculamente pouco, ar e humidade. Dentro da cúpula o ar depressa fica bem malcheiroso não tendo a poluição atmosfera para onde subir e vento que a leve.

 

  Não há uma personagem principal mas sim uma boa porção delas. Há grupos e interesses diferentes. Após o aparecimento súbito e sem aviso da dita cúpula, que ninguém sabe explicar de onde ou como veio, sem ajuda exterior a cidade, de uma forma ridiculamente rápida, transforma-se numa espécie de ditadura militar em que o ditador é gordo, guardando sempre para amanhã a questão do controlo de peso e o tratamento dos vários problemas cardíacos que isso já lhe gerou juntamente com a idade, e o exército são uma data de adolescentes e “jovens adultos” sem qualquer espécie de treino e um gosto por vezes doentio em “fazer merda”. Depois vai-se também formando um pequeno grupo de “resistência” que não resiste coisa alguma, simplesmente não está de acordo com aquilo que o doente cardíaco anda a fazer. Enquanto o plano do ditador até parece bem constituído (excluindo a parte de não querer saber da cúpula em si para nada, apenas rezando a deus que a retire de lá após pôr em ordem os seus assuntos), o dos outros nem por isso, em parte porque são apenas um grupo de pessoas que se junta para fazer aquilo que pensam ser correto, apesar de não saberem como, em parte porque a história dura apenas cerca de uma semana.

 

  Uma semana! E uma semana chega para o ar ficar contaminado e poluído, para se formar todo um atabalhoado e armado batalhão de polícias, para um supermercado ser saqueado, para edifícios serem incendiados, pessoas assassinadas, dois presos, uma mulher violada, mais um ou outro tiroteio, mais uma ou outra pessoa morta, e até uma espécie de apocalipse. E depois é o final…mas os finais de Stephen têm tendência para, por vezes, serem um pouco… esquisitos… não é necessariamente o caso aqui, mas vamos ignorar.

 

  Voltando à nota do autor no final do livro, Stephen King diz que, apesar de ter sido lançado em 2009, tentou escrevê-lo pela primeira vez em 1976 e fugiu “com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho”, não devido à complexidade da história em si, com a quantidade enorme de personagens que a mim me assustaria imenso se o fosse tentar escrever, “mas pelos problemas técnicos” da situação, principalmente no que toca a detalhes e consequências ecológicas e meteorológicas que a cúpula em si geraria. O autor segue então agradecendo a um tal de Russ Dorr pela pesquisa necessária à história. É certo e óbvio que há imensa pesquisa por detrás de tudo isto, não só pelas mencionadas questões ecológicas, mas também sociais e políticas, e, entrando em pormenores, até em questões médicas e relativas a radiação e aos perigos desta.

 

  Quanto à escrita em si, o autor deixa muito daquilo a que em inglês se chama “hooks”. Vai acabando quase sempre os capítulos com uma frase ou uma expressão que nos faz querer saber o que vem a seguir, no entanto no capítulo seguinte vem uma outra personagem e a história anterior fica suspensa. Stephen King vai assim misturando as narrativas das várias pessoas que se vão cruzando. Mas posso deixar aqui aquele que talvez seja o meu exemplo favorito para explicar estes “hooks”. Mais ou menos a três quartos do livro há um capítulo que acaba com uma promessa: “Desde que não haja derramamento de sangue. (Ponto, Parágrafo). Nada de Sangue – Disse Joe”. Seguem-se algumas linhas descrevendo como para ali ficaram a falar baixinho durante a noite. Vira-se a página e o capítulo seguinte chama-se “Sangue por toda a parte”. Não sei se é o melhor exemplo dos inúmeros que aqui há, mas parece-me o mais óbvio de uma promessa de que algo grande se irá passar a seguir e que cola o leitor ao texto.

 

  Stephen King acaba os agradecimentos com uma frase que adorei, quase uma espécie de cereja (ainda que minúscula) no topo do bolo deste grande livro: “E a si, leitor fiel. Obrigado por ler esta história. Se se tiver divertido tanto como eu podemos considerar-nos afortunados.” Certamente foi esse o caso.

Não tenho um smartphone

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   É giro como se criam necessidades, por vezes do nada. É mais giro ainda quando se forçam. As empresas de telecomunicações por vezes são bastante inteligentes no que que toca a forçar essas necessidades, se é que a tal sequer se pode dar esse nome. Por vezes não.

 

  Eu não tenho um smartphone. Nem pretendo ter. Quando necessitar de um, hei-de o arranjar. Que remédio terei? Mas até lá... Nem tenho razões específicas, nem é teimosia nem nada. Não preciso de um. Logo não tenho.

 

  Quase não utilizo o telemóvel. Uma chamada ou uma mensagem de longe a longe, portanto gasto mesmo muito pouco dinheiro com isto, apesar de ter um tarifário caríssimo. Qual foi então a minha surpresa quando recebi uma mensagem da dita empresa fornecedora de telecomunicações a dizer-me que a partir de agora teria um custo de manutenção mensal de 1€.

 

  Lá passei pela loja, tendo a sorte de estar vazia e ser logo atendido. E quais foram as alternativas que me deram? “Então, pode pagar esta mensalidade e fica também com 200mbs de internet incluída”. “Com as comunicações caríssimas como tinha não gastava esse dinheiro. E não tenho internet.” “Então pode comprar este smartphone que está baratinho e assim aproveita essa internet”. Claro. É já a seguir.

Trocas e baldrocas de copyrights

    É um pouco complicado saber o quão verdadeiras são estas histórias, e a pequena pesquisa que fiz também não ajudou grande coisa, tendo encontrado logo informações contraditórias. Independentemente disso, isto parece-me bem ridículo.

    Em 1993 os Radiohead lançaram um single daquela que viria a ser provavelmente a sua música mais conhecida: Creep. Em 2017 sai o álbum mais recente de Lana Del Rey intitulado Lust For Life, e a última música desse álbum, de nome Get Free,  inclui uma parte bastante semelhante à Creep dos Radiohead.

    Posto isto, lá entraram as trapalhadas dos Copyrights e polémicas e uns dizem que os Radiohead queriam isto e aquilo, outros dizem que não queriam coisa nenhuma. A trapalhada do costume até aqui. No entanto há mais.

    Os Radiohead foram processados pelos direitos da música Creep, pela banda The Hollies, por Creep ser semelhante à sua música The Air That I Breathe.

    Ou seja, os Radiohead estão a dizer que Lana Del Rey copiou uma música que eles próprios copiaram. Sem comentários. Ficam em baixo as três músicas. Decidam por vocês se esta confusão tem ou não nexo.

Tenho pena de vegetarianos

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  Porque há muita gente que, sendo ignorante, é arrogante ao mesmo tempo, e porque o chico-espertismo e a rudeza têm poucos limites. Conheço umas quantas pessoas que são vegetarianas, e mais do que isso, já assisti a muitas conversas sobre este tema, e sim, essas conversas assustam e bastante. É um tema até simples e já bem batido. Para mim é difícil imaginar uma pessoa jovem que nunca tenha conversado acerca dele. Ainda assim parece que as questões que se levantam, e mais do que isso, as tretas que se dizem, geralmente de forma ofensiva, são sempre as mesmas. Aqui vão algumas pérolas mais batidas:

 

 - Vais-me dizer que não gostas de um hamburger do mac?

 - ‘Tão e uma chichinha, não comes, não gostas? Vais dizer que não gostas de um belo bife de alguma coisa de que eu gosto particularmente?

 - E onde vais buscar a proteína?

 - Não comes pão? Ou isto? Ou aquilo? Por vezes coisas claramente vegetarianas ou apenas estúpidas que fazem os outros questionar a inteligência de quem pergunta?

 - Não comes carne porquê? Tens pena dos animais, é? Eles são criados para isso! Sabes que nem sentem, nem cérebros têm! (E isto aparece mais vezes do que se calhar alguns possam imaginar).

 

  Sendo algo que possa fazer confusão a alguns, até seria de esperar uma ou outra coisa, quiçá dicas para receitas se para lá estiverem inclinados, ou algo alguma questão genuinamente mais "técnica" e à qual o vegetariano pode não saber ou sequer importar-se minimamente com a resposta. No entanto a ignorância que as perguntas feitas por vezes revela e, mais do que isso, o tom jocoso subjacente… bem, mete nojo. Que levante a mão um vegetariano que nunca tenha estado num jantar qualquer de grupo, seja ele do que for, e que não tenha tido uma pessoa ou mais claramente a gozar e a fazer troça dele sabe lá deus porquê.

 

  Há muitos vegetarianos, muitos tipos de vegetarianismo. Eu lá sei, há gente para tudo! Uns levam mais a sérios que outros. Muitos até vão comendo um fiambre ou bacon numa pizza de longe a longe, por exemplo. Muitos não querem saber de idealismo algum e simplesmente não gostam de carnes ou peixes, ou preferem refeições vegetarianas. Alguns são ferrenhos e nem a morrer de fome seriam capazes de comer uma sardinha. Da mesma forma, há quem coma carnes e peixes, quem beba leite de vaca e coma ovos mexidos todas as manhãs, e ainda assim seja completamente louco pelos direitos dos animais e os ande a pregar aos sete céus. Porque uma coisa não invalida automaticamente a outra.

 

  Enfim, há por aí muito vegetariano. Muitos deles tentam ao máximo esconder que o são. Por vezes apenas porque não querem falar disso, da mesma forma que não querem estar a justificar aos outros o porquê de terem vestido a camisola vermelha em vez da azul. Mas também muitas vezes só para se protegerem desta espécie não rara de bullying.

 

  Independentemente da razão pela qual fizeram essa escolha, que é pessoal, totalmente possível e saudável sem sequer andar a comer "coisas esquisitas", quase ninguém tem o mínimo de respeito por ela. Isso é vergonhoso. E especialmente triste e irritante quando vem de gente que come batatas fritas, arroz e bife todo o santo dia.

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