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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Breves considerações infundadas sobre identidade de género

  Vamos lá então dar uma opinião pessoal e irrelevante sobre um assunto que para mim pouco interessa, mas do qual, pelo que vejo pela internet, tem-se feito grande alarido. Digo pela internet porque pessoalmente nunca ouvi ninguém falar sobre isto.

 

  O primeiro contacto que tive com este tema foi já há alguns meses, através de uma notícia (não sei se era esta, mas serve) que partilharam comigo, em que se dizia que o facebook dos EUA permitia escolher de entre mais de 50 géneros diferentes. A ideia de “género” aqui é que, em vez de a palavra ser utilizada como um qualitativo para definir o sexo de um indivíduo, é utilizada para definir onde esse indivíduo se encaixa naquilo que são os papéis sociais de cada sexo no seu tempo e na sua cultura…ou seja, o significado da palavra foi alterado, o que é um bocado à 1984 mas eh…enfim. Essa alteração aparentemente foi feita já há umas boas décadas por uns quantos sociólogos que devem ter achado redundante haver basicamente duas palavras para definir o sexo biológico e associaram então “género” ao quão masculino, ou feminino, um indivíduo é, tendo em consideração a cultura em que se insere. Basicamente em vez de algo preto ou branco, ou nenhum, ou os dois ao mesmo tempo (porque a biologia é marada e não nos podemos esquecer dos hermafroditas), o género é visto como um espectro, uma linha, onde numa ponta está aquilo que é tido como cem por cento “masculino”, e noutra o que é tido como cem por cento “feminino”. Assim, uma mulher, só por ser mulher, começa na ponta do “feminino” e escolhe um ponto na linha onde se possa inserir, de acordo com os preconceitos existentes, podendo, assim, identificar-se mais com os estereótipos masculinos que femininos.

 

  Em português pode haver alguma confusão quando falo em mudar o significado às coisas, porque a palavra “género” é uma palavra bastante abrangente que basicamente serve para agrupar conjuntos do que quer que seja. No entanto em língua inglesa há uma palavra específica usada para qualificar coisas quanto ao sexo (ou pelo menos assim era): “Gender”. No entanto, mesmo em língua portuguesa, sendo a palavra abrangente como é, o mesmo aplicava-se: se um ser humano se define em relação ao sexo como “homem”, define-se em relação ao género como “masculino” e ponto final. Prós em linguística como somos, arranjámos uma solução com bem mais classe que a inglesa, de alterar o significado de palavras. Criou-se uma expressão: “Identidade de género”. É importante perceber essa diferenciação porque, isto em língua portuguesa, pelas pequenas pesquisas que fiz, confunde-se o "género" em si, com a "identidade de género", que trata da forma como se experienciam os estereótipos associados aos sexos.

 

  Não faço ideia se o facebook português já fez essa alteração, mas basta uma pequena passagem de olhos pelo artigo acima referido para verificar o ridículo ao que a situação rapidamente chegou. Em vez de se falar de género como algo mais ou menos identificável, confunde-se isto tudo e tratam-se estes conceitos como “novos géneros”, que não verdade não o são, e com os quais as pessoas se devem definir a elas mesmas no seu perfil e, por extensão, na sua vida. Tratando esta definição de género dos estereótipos e preconceitos associados a homens e a mulheres, esta escolha de género do facebook é como um ridículo preconceito que vamos atribuir a nós mesmos. Ou seja, transformando aquilo a que se poderia, estereotipa e preconceituosamente chamar a “experiência de género” num “género”, um homem que esteja a costurar deixa de pertencer ao género “masculino” e passa a pertencer ao género “feminino”. Ou melhor, passa a ser algo entre um e outro, e basicamente podem ir à tal lista de géneros do facebook e escolher à vontade. Esta abordagem só serve para reforçar e vincar ainda mais todo e qualquer tipo de preconceito que aqui possa existir, em vez de os tentar combater, que deveria ser o objetivo.

 

  Aqui o cerne da questão é que as pessoas não se deveriam definir desta forma, e na verdade não se definem desta forma. Isto porque esta abordagem, que tem vindo a ganhar cada vez mais destaque, não interessa para nada no dia-a-dia. Não é importante perceber qual a “identidade de género" de alguém. Esta trapalhada dos géneros é importante apenas no âmbito em que foi criada: para estudar os papéis sociais dos sexos. Tirada do âmbito da sociologia (e talvez psicologia?) e dos estudos a que pertence, como a maior parte das coisas quando tiradas do contexto, perde qualquer sentido ou significado, o que neste caso se torna mesmo preocupante.

 

  Mas vamos olhar para a lista do facebook para ver o que lá há. Bigenero: pode apresentar-se tanto como homem ou mulher. Cisgénero: Vive de acordo com o seu sexo biológico. Se uma mulher faz desporto ou corta o cabelo curto aparentemente já não é isto porque tem que estar em casa a costurar e a cozinhar o dia todo. Genderqueer: Fora do sistema dos dois géneros. Nem sei o que isso seria (uma caixa de cartão, talvez?). Não-binário: desprezam a dicotomia entre “homem” e “mulher”. Basicamente dizer que esta questão de género não interessa é, em si, um género. Transgénero: Identifica-se apenas com o género oposto ao seu sexo. Transexual: Quem alterou o seu sexo.

 

  Ei! Ei! Esperem! Algo ali está errado! Se a identidade de género tem a ver com os papéis sociais e culturais de homens e mulheres, como é que transexual pode ser um género? Há muitas confusões e contradições neste assunto. A principal é confundir-se o que é cultural e o que é biológico. E, neste caso em específico da transexualidade parece-me alarmante a quantidade de informação contrária que se encontra.

 

  Presumo que hoje em dia para se mudar de sexo baste basicamente querer e ter dinheiro. No entanto, o que abriu as mentes mais conservadoras à liberdade para agora se poder fazê-lo, foi o facto de biológica e hormonalmente haver homens que são mulheres e vice-versa. Isso não é um estereótipo, não é preconceito, não é cultural: é físico. Porque a criação de um ser é algo complexo que por vezes corre bem, por vezes corre mal, por vezes não se percebe como correu. E foi o facto de haver mulheres que são biologicamente homens (e vice-versa mais uma vez) que sequer permitiu que em larga escala a possibilidade da mudança de sexo. E isso para agora ser confundido com “género”. A liberdade do ser humano, não apenas neste assunto mas no geral, é algo muito frágil, e erros destes, se generalizados, podem vir a ter repercussões bem negativas no futuro.

 

  É óbvio que uma escolha de género no facebook não é grande base para coisa alguma, e grande parte destes “géneros” não passa de anedotas propositadas, mas penso que através delas se pode ver os buracos deste conceito quanto retirado do âmbito de estudo em que foi criado e onde pertence e é importante. Ainda para mais tendo em conta que é aqui que a maioria de nós - presumo eu - vem ter conhecimento deste assunto. Uma pessoa que goste de caçar e que subitamente ganhe gosto também pela cozinha não passa a pertencer a uma categoria de pessoas diferente, apesar de estupidamente parecer ser essa a mensagem. Mais uma vez porque o conceito foi retirado do âmbito a que pertence. Tentem aplicar esta lógica a qualquer outra coisa e é fácil compreender o ridículo a que se chega.

 

  A identidade de género não é um “problema” ou uma “questão” que tenha de ser identificada e seguida de perto. Não é algo importante de se localizar e descobrir desde cedo. É algo que retirado do contexto, como eu vejo sempre, só serve para manter, talvez até aumentar e até criar novos estereótipos e preconceitos. Na minha vida já conheci umas quantas “marias-rapazes” que não gostavam de ser assim conhecidas ou tratadas. Como é óbvio há gente para tudo, e cada um se identifica como e com o que quiser. Não vale é a pena pegar em preconceitos já existentes e simplesmente enfiá-los num saco de plástico novo, com uma cor diferente. Metam é os sacos na reciclagem onde pertencem e ensinem apenas uma coisa, que é o mais importante: que todos somos humanos, que para todos a vida é uma grande merda, e como tal todos merecemos talvez alguma consideração e respeito. Porque afinal jamais um preconceito deixou de o ser dando-se relevo e importância ao que nos torna diferentes, mas sim ao que nos torna iguais.

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