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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Breves considerações sobre velhice

  A velhice é uma coisa horrível à qual qualquer pessoa de saúde estará, um dia, sujeita, desde que não seja sujeita a qualquer contingência repentina e desastrante. A pele enruga, a vista cansa-se, dentes e cabelo caem, pernas, braços, mãos e pés perdem a força de outrora.

  Imagino que em tempos, perdendo a mobilidade, os velhos eram abandonados, aventados para uma qualquer vala, desprezados pela família que indirecta ou directamente os maltratava e matava até. Eram, enfim, uma carga de trabalhos, um estorvo. Havia até eutanásia, ao cargo das famílias, de uma forma bastante parecida à de hoje, havendo alguém de fora a encarregar-se de acabar com  os moribundos estorvos; tal realidade é-nos mostrada, por exemplo, na Acabadora de Michela Murgia, livro que a minha namorada leu há tempos e do qual gostou bastante.

  Nos dias que correm, tão conhecidos pelas "oportunidades" que toda a gente, por artes mágicas da economia, vai tendo, que são em maior número que antigamente, e por todos os confortos que a sociedade de consumo promete e concretiza, desde camas quitadas e confortáveis, a todo o tipo de medicamentos para dores e não só, a velhice vê-se também, para o melhor e para o pior, como o centro de um grande negócio. Sejam os lares de idosos que espremem todo o dinheiro que podem, sejam os encargos com a saúde no geral numa vida que se vê cada vez mais prolongada e mais pesada, mais despejada de significado, sejam as excursões a Espanha com o intuito de dar aos idosos a oportunidade de comprar óculos e colchões como se as suas vidas dependessem disso. Entre os programas de entretenimento a prometer muito dinheiro à distância de simples, rápidas e fáceis chamadas telefónicas e assaltos levados a cabo em zonas rurais afastadas onde se vive em relativa solidão, muito mais há para extorquir a estes coitados que se encontram num mundo muito diferente daquele em que cresceram. Parte deles nunca aprender a ler nem a escrever e, tendo andado descalços, com carroças a servir de principal meio de transporte, subitamente veem-se num mundo onde toda a gente olha constantemente para ecrãs florescentes quando eles passaram metade da vida sem electricidade. Felizmente há uma panóplia de medicamentos comparticipada pelo estado português...felizmente também há lares e hospitais públicos...

  Pequenos confortos certamente deverão ser atribuídos a estas gentes que construíram o nosso mundo de hoje, mas impingir-lhes as nossas coisas através de publicidade sem fim não está correcto. Não façam quem trabalhou uma vida inteira mais arduamente do qualquer coisa que se conceba às gentes de hoje sentir-se mal por não ter isto e aquilo, especialmente quando isto e aquilo são apenas me**as não necessárias. O entretenimento alastrou-se por todo o lado com a chegada da electricidade que, e muitos parece esquecerem-se, é uma invenção bastante recente. Hoje os jovens vão para discotecas, bares e afins, durante a noite, enquanto antigamente iam dormir para descansarem o corpo do trabalho diário. Não que não houvessem bêbedos, certamente os haveria, mas não havendo luz também não havia o ambiente de profundo degredo e estúpida ostentação que há agora, todos os dias, ou melhor, todas as noites. Ficava-se a olhar para o lume apenas. É horrível impingirem-se os bens e os confortos de hoje a pessoas que adormeciam a olhar para o lume. O consumismo, como se vê hoje, é também uma invenção recente. Diz-se que a razão para tal é instintiva, que somos geneticamente levados a acumular coisas, não vão essas coisas amanhã deixar de existir. Certo é que o que mais por aí há nas aldeias são velhos que muito pouco tendo gasto durante toda a vida, vivem agora sozinhos e abandonados, em casas e meios deficientes de tudo, trabalhando no campo como sempre fizeram, e com autenticas fortunas que são as poupanças de uma vida inteira, dos tempos em que, apesar de haver muito menos dinheiro e oportunidades no geral, também não havia vendedores da meo a bater à porta, constantemente a criar necessidades disto e daquilo.

  Quando os novos dão de caras com as fortunas dos velhos pensam, dizem e comentam coisas como "ao menos poderia ter comprado um aquecedorzito para se aquecer no inverno, ou uma televisão a cores para se entreter". Vivia-se, então, em tempos nos quais só se compravam sapatos novos quando os velhos estivessem sem sola e não porque se queriam mostrar os novos na discoteca.

  Escrevi muito e parece que pouco disse. Take it or leave it...

  Enfim, porque não tinha o velho roupas novas quando tinha tanto dinheiro? Porque quis morrer no mundo em que cresceu, não no mundo que nós criámos posteriormente.

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