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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Germaine Acremant - As Solteironas dos Chapéus Verdes

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  Este livro remete-nos para algures no século 19 (presumo eu…), altura em que se começam a ver mais carros pelas ruas de França, e onde uma mulher solteira era, aparentemente, bastante mal vista. Ou melhor, o próprio livro passa bastante essa ideia, de que a “verdadeira vida”, para uma mulher, começa apenas após casar-se.

 

  A autora faz uma coisa bem, e muito bem, da qual eu gostei bastante, que é ridicularizar a banalidade de vários gestos e costumes tolos, focando-se bastante nos mais pequenos movimentos, ações, palavras e descuidos. Mas vamos primeiro vamos à história em si. A personagem principal é Arlete, uma jovem proveniente de uma família rica que perde todo o seu dinheiro, o que leva o pai a suicidar-se e o irmão a ir trabalhar para outro país. Ela quer ir com ele, mas basicamente não pode por ser mulher, e acaba por sair de Paris, onde vivia, para ir morar para uma terriola pequena com quatro tias solteiras, as tais “Solteironas dos chapéus verdes”. As quatro são descritas como… ridículas, por vezes pelo simples facto de não estarem casadas, mas principalmente pelos seus costumes. Vivem de forma bastante recatada, de hábitos e rotinas rígidas, são bastante religiosas, indo todos os dias à missa, muito senhoras de si, más-línguas, um pouco orgulhosas e presunçosas, torcendo o nariz a tudo o que seja “modernice” ou espalhafatoso.

 

  Parece fazer-se pouco destas quatro mulheres pelo simples facto de estarem solteiras, como se isso fosse algo mau em si, e chega-se até a tentar justificar, ainda que muito levemente, o porquê disso. Com o passar do tempo vamos conhecendo-as melhor e a própria Arlete se vai habituando a elas aos poucos, mas a verdade é que de uma forma ou de outra, sem dependerem de mais ninguém, neste caso de um homem visto isto se focar tanto no casamento, são independentes. Em todo o livro há duas situações apenas (que eu tenha apanhado) onde se dá a entender que elas são costureiras, penso eu, mas nunca nos é dito diretamente, no meio de todos os hábitos que são passados por ridículos, como elas ganham a vida, mas é certo que não se dão nada mal, tendo até dinheiro para ter uma empregada permanentemente em casa. É outra coisa que me irrita um pouco, e que já mencionei algumas vezes por este blogue: não se falar de dinheiro. As pessoas simplesmente ou são ricas ou pobres, e seja qual for o caso muito raramente se explica de onde o sustento provém, e mais raramente ainda isso é algo central numa história, tirando às vezes para criar conflitos vindos do nada. Há apenas uma minoria de escritores que o faz bem. Mas enfim, só essa questão dava para um post bem grande.

 

  Vindo a protagonista da capital para a província para viver com gente recatada e sossegada, há aqui bastante atrito e ela tem alguma dificuldade em adaptar-se a uma vida mais calma. Tanto quanto nos é dito nunca ninguém a põe a trabalhar seja no que for, o que mais uma vez acumula à falta de justificação do sustento daquela casa. A protagonista começa então a fazer de casamenteira pois descobre que uma das tias esteve no passado interessada por um professor que ali vive perto. Arlete conhece também um jovem bem rico, com castelos e tudo, por quem se apaixona após duas pequenas conversas (como acontece sempre neste tipo de livros) e com quem no fim acaba por casar depois de umas quantas confusões, trocas e baldrocas, e é assim que acaba o livro…o que é importante pois o maior medo dela, no que toca a viver com as tias, era que a “solteirice” se pegasse.

 

  Enfim, a independência feminina no livro parece ser algo a que se torce o nariz. A vida a sério, como disse acima, só começa a ser vivida, e isto é-nos dito diretamente pela mais velha das “solteironas”, após o casamento. Eu não sei mas este tipo de histórias choca sempre comigo em vários, vários sentidos. No entanto quero terminar o post na que é sem dúvida a melhor parte, a que torna “As Solteironas dos Chapéus Verdes” algo que vale a pena ler: a quantidade de comédia que Germaine Acremant consegue criar em situações banais. Vou deixar um dos exemplos de que mais gostei: Lá para o fim do livro as solteironas são visitadas pelo senhorio, bastante rico e cujo filho é quem vai acabar por casar com Arlete. Estando elas na sala, quando ouvem a campainha sobem as escadas a correr e vão para os seus quartos. Isto porque fica mal às senhoras da casa abrir a porta ao visitante. Não: dizem as regras que deve ser a empregada a abrir a porta, a anunciá-lo, e a chamá-las de longe para o virem receber. Mas quando esta abre a porta apenas diz ao homem algo como “não sei onde elas se meteram, mesmo agora aqui estavam”.

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