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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

José Saramago - A Jangada de Pedra

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  Já tive mais paciência para ler Saramago. Ou talvez este livro não me tenha cativado como outros. Ou, o mais certo, uma mistura entre as duas.

 

  A premissa será provavelmente conhecida por muitos: por artes mágicas, ocultas ou desconhecidas, a península ibérica separa-se da Europa e lá vai ela, navegando pelo Atlântico fora. Seguimos então, tanto um grupo de pessoas que passam por experiências “estranhas” no começo da história e que lá acabam por se juntar, de forma bem Saramaguesga, cheia de fantasia e simultaneamente de banalidade, como um pouco da política mundial e nacional face ao fenómeno. É a tal coisa que este autor faz sempre, de mostrar a imagem grande, a política mundial, e a pequena, um grupo de pessoas que percorre a península. Depois como é normal Saramago enfia os dedos nas feridas, com a sua típica voz irónica, mostrando tanto o melhor como o pior dos humanos – focando-se quase sempre mais no pior.

 

  Mas como estava a dizer, não ando com grande paciência para ler Saramago, ou melhor, não ando com grande paciência para ler este tipo de escritores. Estes que constantemente disparam em tangentes, simbolismos (por vezes um pouco forçados como me pareceu ser o caso neste livro livro) e divagações (o mais “straight forward” dos pouco que li dele deve ser o Memorial) o que se pode tornar bastante cansativo se uma pessoa não está com cabeça para tal. Houve alturas nesta Jangada de Pedra em que tive de me obrigar a ler, alturas em que bate muito na mesma tecla, houve muitas, muitas palavras que eu deveria ter procurado no dicionário, o que não fiz porque queria apenas que isto andasse para a frente.

 

  Enfim, está longe, bem longe, de ser o melhor dele – e eu digo isso tendo lido ainda poucos e tendo adorado alguns desses. No entanto há também momentos de genialidade, pequenos gestos, pequenas passagens, por vezes dezenas de páginas de uma vez, que passam sem darmos por elas. O melhor, como em tudo o que li dele, são sem dúvida os diálogos. Em livros de José Saramago não há diálogos normais, as personagens discutem e debatem sobre significados de palavras, de expressões, de sentimentos, de uma forma bastante bela e rara em literatura.

 

  Queria aqui deixar um desses diálogos. Já foi há dias que acabei de ler o livro e não sabendo bem o que procurar, abri e folheei um pouco ao calhas. Não foi difícil encontrar um bom exemplo que, acredito, faz sentido e dá para se perceber o que quero dizer mesmo sem contexto:

 

  “Novamente a caminho, sempre para o norte, em certa altura José Anaiço disse, era a Pedro Orce que se dirigia, A continuar assim vamos entrar em Espanha, voltamos à tua terra, A minha terra é a Andaluzia, Terra e país são tudo o mesmo, Não são, podemos não conhecer o nosso país, mas conhecemos a nossa terra, Já alguma vez foste à Galiza, Nunca fui à Galiza, a Galiza é terra doutros”.

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