Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Lançaram-me os dados

  A Sra Pântano fez-me hoje este desafio em que teria de escrever uma pequena história usando três palavras: flor, música e dragão. Lá fui a correr escrever isso, tentando não fazer batota. Espero que gostem, aqui está o apressado resultado:

 

  A velha gadanha enferrujada, após afiada com pedra e água, corta a alta erva como nos seus tempos de juventude. O homem de meia-idade que agora a embala para trás e para a frente é que já perdeu não só a força, mas também o jeito. Afinal há coisas que parecem não ser como andar de bicicleta, e após vinte anos longe do campo a trabalhar sentado a uma secretária, bastam-lhe alguns minutos daquele trabalho para as costas lhe doerem e as mãos começarem a calejar. Juntemos a isso este sol absurdamente quente de início de verão e a António Silva, apesar de rodeado por quase todos os lados de verde, parece-lhe estar o mundo a arder.

  Afinal que espécie de ideia tinha sido aquela? Durante toda a sua juventude tentara fugir a sete pés daquele lugar e agora, só por a mulher o ter deixado e levado com ela a filha, tendo duas semanas de férias vai para a casa dos pais? Inicialmente vieram-lhe à lembrança algumas memórias felizes dos tempos de garoto, mas começando o trabalho, no silêncio do campo, interrompido apenas por trechos de música gritados bem alto pelas colunas dos raros carros que ali vão passando, nada o anima e as memórias parecem querer lavrar apenas em campos cheios de pedras. Ele é o pai a chegar a casa bêbedo, ele é a mãe a bater no pai por o ver naquele estado, ele é mulher a dizer que nunca mais verá a filha.

  Na torreira do sol e sem chapéu, passados vinte minutos, já o suor lhe escorre pelo corpo todo, pelo rosto, pelo pescoço, pela barriga, pelas pernas. O trabalho ainda nem a meio vai, aliás, muito longe de chegar a meio está ele, mas António Silva decide fazer uma pequena pausa. Tira a camisola, ficando em tronco nu, e senta-se numa pedra, cotovelos nos joelhos, camisa nas mãos, cabeça baixa para limpar com a camisa o suor. Não é preciso muito tempo para o sol lhe começar a escaldar as costas, qual fogo de um dragão. É então que António Silva torna a olhar em volta, para o horizonte interrompido pelos altos montes adiante. Olhando para longe não vê logo o que está perto: meia dúzia de regos bem delimitados na terra onde crescem girassóis, as flores que ofereça à mulher quando casou. Ao baixar os olhos do horizonte reparou neles, e tornou a baixar para as mãos a cara, onde agora corriam não só rios de suor mas também de lágrimas.

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogues

Youtube

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Mensagens