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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Odisseia hospitalar - Parte 2

     Nunca saberei o estado em que a minha cara estava, o estado que despoletava trejeitos estranhos na face da minha Maria e que deixou a senhora das urgências toda alterada. Quando me vi ao espelho nem conseguia ver pele, apenas uma quantidade absurda de uma pomada branca. Cerca de uns quinze minutos depois do tratamento à chegada, levaram-nos, a mim e à minha maca, para uma enfermaria composta por quatro camas, todas elas vazias. Fiquei na mais próxima da janela. Ao contrário de outras destas salas de acamados , esta não tinha televisão e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi agradecer a seja o que for por tal. No hospital soavam e soaram constantemente os ruídos tanto de tv como de música de uma rádio qualquer, mas onde eu estava não, eu estava sossegado e tal barulheira só me chegava como som de fundo.

     Cinco minutos depois de lá chegar apareceu a Maria trazendo-me o primeiro entretém que tive: uma caneta e um livrito de sudoku comprado na papelaria do sítio. Tenho bastante a agradecer-lhe. Mesmo acabando por não ser algo de grave ela esteve sempre comigo, fazendo-me companhia durante todas as horas de visitas, abandonando tudo o resto. Eram então duas horas da primeira tarde do meu primeiro e curto internamento hospitalar.

     Falou-se, orientou-se a vida, deram-se as quatro e meia. Ela foi e voltou às seis. No intervalo vieram ligar-me a mais uma saqueta com paracetamol e eu fiz, durante uns breves minutos, a figura que se vê nos filmes, de alguém a passear pelo hospital a arrastar a seu lado o ferro com uma espécie de tripé com rodas em baixo no qual está um saco pendurado, ligado ao braço da pessoa por um pequeno tubo. A Maria lá me trouxe um par de livros e uma revista para ir lendo e não demorou muito até virem trazer o jantar.

     Nos hospitais as refeições são hora de grande movimento e, até, alegria. A comida é, para muitos que lá estão, a maior distracção do dia. Que se desengane quem pense que ali se come mal. "Comida de hospital" tem uma conotação bastante negativa e por isso foi com alguma surpresa que eu encontrei refeições fartas, bastante pão para os pequenos almoços e lanches e até leite e bolachas para cear noite dentro. Não, de fome aqui não se morre. E não, da comida não me posso queixar. O jantar serve-se pelas sete e meia e foi ainda acompanhado que jantei - a hora de visita acaba às oito. Pouco passava das nove quando um enfermeiro me veio encher novamente a cara de pomada e estava o dia feito.

     As noites foram o pior. As camas podem ser muito confortáveis com os seus sistemas de reclinação mas não ajudam em nada o sono que teima em vir, mesmo numa enfermaria sossegada onde se está sozinho. Fiquei a ler até quase à meia-noite e por volta das cinco já estava acordado, tendo-me levantado umas quantas vezes durante a noite, parte delas também para ir à casa-de-banho. Falaram-me do quão importante era beber muita água depois de uma queimadura, hidratar o corpo e a pele, portanto eu tratei de beber litros e litros dela.

     Os sons que se fazem ouvir quando tudo está calmo são bastante singulares num hospital; chegam-nos os gemidos de alguém ao longe, ocasionais passos e vozes sussurradas e, acima de tudo o resto, o constante zumbido ensurdecedor do ar condicionado. Pode até estar a nevar na rua que lá dentro estão uns bons e abafados vinte e tal graus.Respirar esse ar é, sem dúvida, a pior parte de lá estar.

     Depois da noite mal dormida vem a manhã, vêm gentes perguntar se está tudo em ordem, se há dores, "Está tudo bem, sim, e dores não as tenho". Dão-nos toalha para tomar banho, farda lavada, o pequeno almoço, mudam a roupa das camas, lavam o chão e tudo o resto. Por falta de asseio ninguém lhes aponta o dedo.

     Estando tudo limpo, lavado e as barrigas cheias, lá aparecem novamente enfermeiros que põem nova pomada, medem o ritmo cardíaco e a tenção arterial. Por esta altura a minha cara está vermelha, a testa tem uma crosta com mau aspecto e o olho esquerdo está um pouco inchado. Recuperação bastante boa tendo em conta o prognóstico negro que me tinham dado que incluía um inchaço tal que não conseguiria dar uso à vista esquerda e febre. Mas a pele estava quase sarada, febre nem uma pitada para dar sabor. Ritmo cardíaco e tenção também em ordem. "Já há-de ter alta hoje". Não a tive porque não apareceu médico que ma désse.

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