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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Odisseia hospitalar - Parte 3

     As recuperações hoje podem ser rápidas, em tempos não o seriam. Épocas de reis e rainhas, castelos e soldados, em que de um corte pais profundo, por não haver ora com o que se tratar, ora condições ou conforto para isso, lá apareciam infecções, deformações que deixavam os membros estropiados e abriam caminho para a gangrena que matava em menos de nada. A ganância do homem pode ser ilimitada, sim, quer-se sempre mais, e quer-se sempre fazer mal a gentes "de fora"; olha-se de lado, rogam-se pragas...Em tempos de reis conquistavam-se terras e castelos, matavam-se as populações, queimavam-se as casas. No cimo das muralhas havia todo o tipo de gente, soldados e escravos, catapultas atiravam pedregulhos, arqueiros disparavam setas. Atirava-se, lá de cima, também, azeite a ferver. Ando eu para aqui a choramingar por ter uma queimadura de 2ºgrau na cara quando outrora se fritavam assim pessoas vivas. Hajam gentes e mortes horríveis.

     No hospital o almoço é servido à uma. Às duas é hora de visita. Entre a uma e as duas trouxeram para a minha enfermaria um velhote a quem tratavam por senhor Luís e que mal se conseguia mexer. Não reclamava, não falava senão com algo específico em mente, não se movia, estava apenas lá. Ainda conseguia comer sozinho, levantando a parte de cima da cama com os pratos postos postos no tabuleiro que está na parte superior do móvel que serve de mesa-de-cabeceira. Este senhor Luis pouca mobilidade tem, não consegue andar, não consegue sair da cama. Nesse dia não teve visitas. Passava-me pela cabeça que estava apenas à espera de morrer, que tudo o que a vida tinha para lhe dar e tirar já lhe tinha sido entregue e roubado e que por isso ele dormia como nunca vi ninguém dormir, durane a maior parte do dia. Não perguntei a ninguém o que tinha ele e a única interação que houve entre os dois foi ter-me pedido água enquanto eu enchia o meu jarro - ele bebia-a através de uma espécie de biberão. Reparei também que de vez em quando coçava o braço no sítio onde estava a agulha intravenosa. Também a mim, que já não lhe dava uso, me incomodava. Esta agulha surpreendeu-me bastante pelo seu tamanho quando ma tiraram do braço, e também pela quantidade de sangue que desse buraquito saíu...

     Estava um dia de sol e, durante a hora de visitas, fui com a minha Maria até à entrada do hospital - a fim de andar um pouco - onde cravei um cigarro, quebrando novamente o meu "vou deixar de fumar". Cravar cigarros é como que uma pequena arte para quem tem vergonha. Não havendo vergonha pede-se a toda a gente e pronto, mas havendo é outra história. Há que, enfim, seleccionar a pessoa a quem se vai pedir; para evitar olhares desconfiados e de desconforto; muito velha não serve, muito jovem também não e de preferência que tenha bom aspecto e seja do sexo masculino, que o feminino é muito desconfiado. Não há tabaco à venda no hospital e, pedindo, as pessoas são bastante suvinas com os cigarros, mais depressa dão uma moeda de um euro... Lá me deram um cigarro, lá nós os dois caminhámos um pouco, de um lado para o outro, ao sol, perto da entrada do hospital.

     O segundo dia lá passou. Acabei a leitura de "O Consul Honorário" de Graham Greene e comecei "A Inocência e o Pecado" do mesmo autor. O livro de sudoku já ia quase a meio. Num hospital não há nada que fazer, apenas esperar. A pele da minha cara sarou de forma extraordinariamente rápida e ao fim do dia já nem se notava muito. O aspecto certamente era um pouco à Lázaro, ainda cheio de pequenas marcas e, em sítios, pequenas peles a saltar; dores não as havia desde o dia anterior. O médico não apareceu, portanto, e ao contrário do que me disseram, não tive alta.

     Seguiu-se a segunda e última noite lá. Adormeci a ler, sem sequer dar por isso, com a cama ainda reclinada, mas não foi algo de longa dura. Também passei essa noite mais ou menos em branco, despertando repetidamente.

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