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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Odisseia hospitalar - Parte 4

     No dia seguinte - era então o terceiro - lá me dei ao trabalho de, por volição própria, chatear e falar com as pessoas. Perguntei pelo médico umas quantas vezes e, outra vez, foi-me dito que já podia ter alta e que a teria assim que o homem por lá passasse. Se não me engano, ritmo cardíaco 60, tenção 111. A única coisa que me faziam era pôr pomada e já nem na cara toda, apenas em redor do olho esquerdo, numa pequena parte da testa e numa pequena mancha no pescoço.

     A estadia estava a ficar enfadonha até mais não, especialmente porque já não havia qualquer necessidade dela e estava complicado ter a desejada alta. Ainda assim, confiando nas conversas que me davam, comuniquei à minha Maria que sairia de lá nesse dia. A manhã passou, o almoço passou, chegou a hora visitas, na qual eu já esperava encontrar-me noutro sítio. Médico nada: "Ele há-de aparecer aí, está a dar consultas lá em baixo". Aparentemente nem fazendo um pouco de empecilho me queriam ver dali para fora. Para alguém habituado a caminhar bastante todos os dias e mais algum exercício físico à parte, a inacção hospitalar estava já, naquele terceiro dia, a assemelhar-se a uma prisão, sentimento que aumentava com o saber não haver necessidade nenhuma de estar ali. Até a Maria estava também cansada.

     O velhote a meu lado, o senhor Luís, como já disse, não tinha grandes capacidades motoras. De manhã dois enfermeiros deram-lhe banho, limpando-o com, presumo eu, panos molhados. De seguida, dizendo-lhe ser bom para o coração, levantaram-no e sentaram-no num grande cadeirão. Assim permaneceu uma hora, duas talvez, e lá pressionou o botão de campainha dizendo a quem apareceu que queria dormir um pouco. Marcavam presença no hospital uma mão cheia de estagiários. Definitivamente não gosto da "pinta", da postura das novas gentes, mas há um contraste interessante entre eles e aqueles que já lidam com pessoas há muitos anos: os mais novos ainda não têm empatia para com as pessoas; hão-de-a criar mais tarde, julgo eu. Ao contrário do dia anterior, o senhor Luis teve uma visita: a da sua esposa.

     As pessoas, especialmente as mais novas, podem defender a poligamia o quanto quiserem. Em parte até concordo com eles, mas acho sinceramente que tal não funciona - ou pelo para mim não funciona, nem que seja pela quantidade de interacção que isso requer. Se estou numa relação não é somente por impulsos sexuais; acima disso, bem acima, é por uma questão de companheirismo. Sou um ser pouco social. Falo para muito pouca gente, tenho poucos conhecidos, amigos então..mas gosto da ideia do companheirismo conjugal, de ter naquela parceira alguém com quem contar e vice-versa. Fiquei contente por ver que o velho tinha alguém, alguém que se importasse, alguém que o fosse visitar. Afinal nós éramos dois homens cujas únicas visitas provinham das companheiras.

     Por volta das quatro horas da tarde lá estava eu novamente à frente dos enfermeiros a perguntar pela alta que teimava em vir. Gosto de ter a barba feita e até isso já incomodava de grande que estava. Aí, dessa vez, fui informado de que o meu médico - de quem sinceramente nem me lembro, apenas me atendeu no dia da chegada e eu estava um pouco desorientado - já tinha ido embora.

     Tanto falam nos encargos do Estado com a saúde e às vezes tornam o acto de sair do hospital num autêntico frete. Estava farto e cansado de lá estar. A pergunta que fiz foi "E se pegar na tralha e for embora?". "Assina este papel em conforme rejeita o internamento e pode ir". Ponderei. Assinei. Vim para casa.

     Fui bem recebido, trataram-me bastante bem, as acomodações eram bem confortáveis, a comida superou grandemente as expectativas. À parte do abusivamente quente e sempre ligado ar condicionado não tenho qualquer razão de queixa. Apenas queria vir para casa e assim fiz. Depois de assinar o tal papel, fui até à casa de banho mudar de roupa e, sem ter mais nada a dizer, saí levando a minha Maria pelo braço.

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