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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Pierre Loti - Madame Chrisanthème

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  Pierre Loti foi um oficial de alta patente da marinha francesa que, em 1885, passou cerca de dois meses e meio, entre Julho e Setembro, em Nagasaki, no Japão. Este livro, supostamente autobiográfico, relata os acontecimentos durante esse tempo.

 

  Começa com a sua chegada a Nagasaki. O que ele vai lá fazer ao certo, infelizmente nunca nos é dito, mas entende-se que a estadia no Japão faz parte do trabalho dele com a marinha. O que nos é dito, no entanto, é que ele tinha um sonho: casar com uma japonesa. Grande tara tinha este homem por quimonos no geral; por caras de olhos em bico e pele amarelada também.

 

  Pouco depois de chegar, o narrador vai ter com um homem que faz as vezes de vendedor de mulheres e, após lhe ter sido apresentada uma rapariga que, se bem me recordo deveria ter os seus 12 anos, deixando-o chocado por ser tão nova, o narrador acaba por escolher a irmã mais velha. Assim alugou ele uma mulher japonesa por vinte piastras por mês, seja lá isso quanto for. O “aluguer” de mulheres e a prostituição é algo bem batido no livro. Uma grande parte dos oficiais franceses que ali pára aluga mulheres com bastante facilidade, para depois se separarem delas (aparentemente fazia-se mesmo uma espécie de casamento e divórcio, assinavam-se papéis e tudo, qual contrato), para além de nos serem dados a conhecer casos de prostituição mais normal, que fora parte do negócio, há muitos anos atrás, dos que viriam a ser os senhorios do narrador. Tudo isso é descrito com bastante naturalidade e o mais politicamente correto possível, evitando praticamente sempre ferir suscetibilidades.

 

  O livro está escrito como um diário. Devo dizer que nunca gostei de livros escritos na primeira pessoa, mas este é capaz de me ter convertido. O narrador passa bastante bem os seus sentimentos para o papel, nomeada e especialmente o afastamento que sente em relação àquela cultura, o que é normal porque afinal não é a dele. Eu não sei explicar como ele o faz mas muitas vezes dá uma certa sensação de vazio como no filme “Lost in Translation” – que acidentalmente também se desenrola no Japão.

 

  No início do livro, numa nota do autor (aliás, uma carta a uma duquesa qualquer), o mesmo refere que “…as três principais personagens são: eu, o Japão, e o efeito que esse país produziu em mim” e isso é bem notório ao longo de todo o livro. O narrador desenvolve uma espécie de relação de amor-ódio (e tudo o que há entre os dois) para com o país. Tanto adora o cenário, as cores, os sons das guitarras japonesas, como não suporta nada disso. No entanto, na maioria dos casos e em grande parte do tempo, tudo lhe é indiferente, incluindo a própria mulher alugada, Crisântemo. Mas é das pessoas que ele menos parece gostar, notando toda a pequenez e hipocrisia desse povo que, em todo o caso, ou apenas para ele visto ser rico e estrangeiro, parece estar sempre a sorrir.

 

  Outra coisa que salta à vista é o quão turística Nagasaki é em 1885. Não só pelo negócio de jovens alugadas, que parece ser o sustendo de muitas famílias, mas também pelos restaurantes, pelas festas que decorrem à noite e até pelas pessoas que transportam os ricos. Parece que todos os empregos, todo o comércio local se centra em volta do turismo - ou, pelo menos, na satisfação da prazeres caros. Mas verdade é que, tratando-se Pierre Loti de um homem rico e estrangeiro, também não seria de esperar ver dali outra realidade.

 

  Enfim, assim nos são descritas paisagens (juro: nunca tive tanta vontade de viajar ao ler um livro), a cidade cheias de cores, objetos repletos das mais pequenas e detalhadas representações – especialmente pássaros por alguma razão, roupas estranhas também bastante coloridas, cerimónias e festas religiosas onde os locais colocam máscaras de animais, muitas, muitas lanternas de papel levadas na ponta de paus para alumiar o caminho, a arquitetura, os interiores das casas, brancas limpas e vazias, a gastronomia repleta de pratos e iguarias agri-doces, talvez demasiado açucaradas, uma indústria de papel que parece bem desenvolvida para o tempo e, por fim, como não podia deixar de ser e não será grande novidade para quem já tenha visto desenhos animados japoneses, o som de fundo constante do canto das cigarras que nunca acaba.

 

  No final da estadia, Pierre Loti tirou uma foto onde se pode ver ele mesmo, com o seu bigode, Yves, mais alto, o seu melhor amigo, e Crisântemo, sentada numa cadeira, com os pés virados para dentro seguindo as normas de beleza japonesa. Aqui está essa foto:

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