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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Irving Wallace - O Relatório Chapman

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  Era uma vez uma criança, que, como tantas outras, a certa altura questiona os pais acerca da sexualidade do ser humano. Os pais, acabrunhados com a questão, redirecionaram a criança para um familiar de meia-idade de nome George G. Chapman, biólogo de profissão; afinal, quem melhor para responder a essas questões que um familiar biólogo? Certo é que Chapman também não soube responder à criança, no entanto foi mais longe. Percebendo que no geral muito pouco se sabia acerca da sexualidade do ser humano, começou a entrevistar pessoas e a publicar estudos sobre o tema.

 

  No seu mais recente trabalho, uma pequena parte dele tratado e elaborado durante este livro, de nome “Uma história sexual da mulher casada americana”, a equipa de cientistas de Chapman entrevista mais de três mil mulheres, cada entrevista durando no máximo cerca de uma hora e meia. São feitas as mais minuciosas questões acerca da sua vida sexual, desde a sua história começando pela infância, até ao tempo médio de duração do ato sexual com o marido, passando por preliminares, regularidade do ato, infidelidades e desvios, fantasias, etc. Depois de cada entrevista, os dados são codificados, enfiados todos no mesmo pacote e usados no fim para elaborar uma enorme estatística da coisa.

 

  Desde as primeiras entrevistas que Chapman e a sua equipa têm vindo a ter fortes oposições ao seu trabalho. Preconceitos, grupos religiosos, outros cientistas que criticam a “frieza” dos dados, fazendo crer que a sua relevância é quase nula para o cidadão comum. No entanto, para a equipa (no geral), todo o esforço necessário à realização destes estudos é válido, pois, de certa forma, vem “iluminar” o conhecimento do ser humano para com uma área tão importante e tão pouco falada. E por mais incompleto ou desfasado que o megalómano estudo possa ser, servirá sempre de base para os que vierem mais tarde trabalhar na área. Apesar de tudo, e já estando há uns anos no jogo, Chapman conseguiu ganhar uma certa fama e posição de destaque nos círculos científicos.

 

  No início do livro é-nos apresentado “The Briars”, zona de média-alta sociedade dos subúrbios de Los Angeles, assim como algumas das moradoras da zona, mulheres essas que irão ser entrevistadas pela equipa de Chapman.

 

  Tendo o livro uma mão-cheia de mulheres e também uns quantos homens como personagens principais, já se está a ver que não é propriamente pequeno. Em mais de 650 páginas as personagens cruzam-se, conhecem-se, nós conhecemo-las, as suas famílias, os seus dramas, histórias, conflitos e mariquices. De uma maneira ou de outra, as vidas aqui retratadas são alteradas pelo próprio relatório que a equipa está a elaborar.

 

  Gostei imenso do livro, mas não existe sem as suas falhas, sem umas quantas conversas tolas e, especialmente, sem uma grande cena íntima quase no final do livro que é simplesmente horrível e não faz sentido nenhum. Ainda assim o ritmo lento da escrita de Irving Wallace cativa-me bastante. O autor conseguiu também criar personagens que, tirando uma ou outra coisa, me pareceram bem reais, como o próprio Chapman, que tenta manter uma postura de cientista objetivo mas a quem o orgulho por vezes trai, como o casal formado por Sam e Sarah Goldsmith, ela infeliz e sentindo-se ignorada, levada a trair o apático marido. Enfim, o livro é grande e desenvolve bem cada uma das personagens, umas melhores que as outras, mas no fim o resultado é bastante positivo.

 

  Tão positivo que provavelmente o próximo livro que vou ler será O Prémio, também do mesmo autor. E esse sim é um calhamaço… Não saberá Irving Wallace escrever livros pequenos?

Sobre escrever um post acerca da importância da leitura

  Já foi há alguns meses atrás que tive a intenção de fazer um post acerca da importância de ler, ou de possíveis benefícios que a leitura possa trazer. É um assunto que já foi tratado por quase todos os que têm alguma plataforma onde partilhem informação – como é o caso aqui dos blogues – e que vão lendo algo aqui e ali. Por vezes aparece de uma forma que tenta ser objetiva/científica, por vezes subjetiva/pessoal, onde se vão incluindo gostos e preferências, por vezes até social.

 

  A minha ideia era escrever algo um pouco para o pseudo-intelectualóide pegando em casos particulares de livros ou histórias. Algo como “Estão a ver estas raparigas que protagonizam alguns dos filmes da Disney? Elas leem livros…e acabaram a casar com príncipes, portanto…aí está! Benefícios da leitura!”. A verdade é que não encontrei um ângulo de jeito e como sou preguiçoso depressa desisti da ideia. No entanto encontrei um vídeo no youtube que faz mais ou menos o que eu queria fazer, e cujo link está guardado no browser há meses sem saber o que fazer com ele.

 

  Pesquisando rapidamente há várias coisas que sempre aparecem, muitas delas tolas. A mais importante, mais séria, e aos meus olhos de leigo ignorante mais acertada, é ajudar a prevenir e combater variadas doenças mentais, desde depressão a alzheimer. No entanto, não me parece que a leitura seja mais eficaz nisso que qualquer outra atividade na qual haja necessidade de concentração, seja ela costura, ver filmes, cavar terra, malabarismo ou desporto, desde que sejam feitas regularmente e com disciplina. Parece-me que tudo aquilo que envolva concentração e disciplina faz esse trabalho tão bem quanto a leitura. Mas provavelmente a mais comum, e que é bastante tola, é a ideia de que ficamos mais inteligentes ao ler. Para além disso é dada uma certa aura à leitura que não me agrada nada. É verdade que o vocabulário pode ir aos poucos aumentando, tal como a cultura geral, sendo também verdade que se vai treinando a memória. Tirando o vocabulário, que há-de ser a mais diretamente afetada aqui, se bem que também há outras formas de o ir melhorando, há várias outras maneiras de “treinar” tudo o resto. No entanto, objetiva e diretamente mais inteligentes, tendo em conta a complexidade do conceito psicológico de inteligência? Não me parece. Acho é que é possível ficar-se menos inteligente se não se fizer absolutamente nada, se os dias se ficarem por idas ao café e pela televisão sem ao menos se prestar atenção a uma ou à outra coisa, à medida que se vai vivendo nas redes sociais e em sites tolos onde a única coisa que se faz é “scroll down” à espera que algo nos chame a atenção, e tudo isto regado com álcool e/ou drogas. Afinal nada como ter uma atividade – seja ela qual for – à qual nos dediquemos. E ainda assim com o que está acima há-de ser pouco inteligente da minha parte dizer que se fica menos inteligente.

 

  Mas enfim, desde as ideias que aqui pus, passando por inspiração ao ler acerca de (ou as palavras de) pessoas de alguma forma importantes e influentes, até à atratividade perante o sexo oposto. A tudo isto e mais ainda queria eu fugir quando na minha cabeça um dia surgiu esse “tenho que fazer um post sobre leitura!”.

 

  Foi então já há algum tempo que encontrei o vídeo que aqui partilho, que infelizmente não está legendado para quem não saiba inglês – e quem gostar pode dar uma vista de olhos pelo canal visto ter umas quantas coisas interessantes. Não é propriamente o post que eu queria fazer, pois faz desde logo a distinção entre ficção e não ficção, dizem diretamente que ler nos torna pessoas melhores, e mais umas quantas tolices – mas é aceitável. Ainda estive para copiar a ideia à minha maneira, usando até os dois livros aqui falados, mas a verdade é que não gosto deles o suficiente para tal e afinal... Porquê copiar quando posso, de forma mais honesta, partilhar aqui o vídeo?

 

  Independentemente da minha opinião acerca deles, o 1984 de George Orwell e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley são hoje gigantes da literatura. Não tenho problema nenhum com eles em particular e são bem interessantes, no entanto tornaram-se uma espécie de pet peeve por achar que não falta por aí melhor ficção científica que toca nos mesmos assuntos. Apesar disso é sempre da mesma treta dos mesmos dois livros que as pessoas acabam por falar - e que eu estou aqui agora a falar... De alguma forma ganharam um estatuto não só de obras-primas, mas também sinónimos de “cool”. Adiante. Cada um dos livros mostra um mundo onde basicamente não existe arte, seja por imposição num caso, ou por falta de interesse do público no outro, criando sociedades onde existe falta de interesse pelos variados assuntos da vida e um leve contentamento que evita qualquer tipo de revolta por parte do povo, ou sequer vontade de mudança de algum tipo. O vídeo termina com a frase, traduzida às três pancadas, “Se acha que o seu país se está a transformar numa distopia, o seu primeiro acto de resistência deverá sempre ser abrir um livro”. Aqui fica:

Graham Greene - O Mundo dos Ricos

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  Traduzido à letra o título seria algo como “O Doutor Fischer de Gevena ou A Festa da Bomba”. Bem melhor, tendo em conta o que aqui se passa, do que este que foi dado na nossa língua. Não sei quem se lembrou de “O mundo dos ricos”, e especialmente não sei quem acrescentou na capa “A ambição de ricos e o orgulho de pobres”, pois dá uma imagem bem errada do livro… apesar de tocar nisso mas… simplesmente é um mau título.

 

  Este pequeno livro, que se pode ler por inteiro numa tarde, conta a história de um homem de meia-idade que se apaixona e casa com uma mulher jovem, o que não dura muito pois ela morre pouco depois num acidente. Mas isso não interessa para nada, interessa é o doutor Fischer do título original. É o sogro da personagem principal, e logo desde o início é mostrado como uma personagem bem excêntrica, fria, desapaixonada, quase maléfica, que tem a particularidade de ser anfitrião de umas festas bem ridículas. Se a nossa personagem principal representa os supostos “pobres”, apesar de pouco ter de orgulhoso, o doutor Fischer – e por extensão o pequeno grupo de pessoas que ele convida para as suas “festas” – representam os ricos, se bem que ambição também pouca é mostrada, já ganância... Pois bem, o doutor Fischer, milionário diga-se de passagem, convida então esse pequeno grupo de pessoas, todas elas no mínimo riquíssimas, para jantares onde são ridicularizadas ao máximo. Se passarem as provações, no fim, recebem presentes caríssimos como relógios de ouro, colares de pérolas, etc. Diz o anfitrião que apenas quer testar até onde vai a ganância deles, dizendo também que quem provenha de meios mais humildes não percebe o porquê dos convidados se rebaixarem tanto para receberem esses presentes caríssimos, que eles próprios poderiam muito bem comprar.

 

  Do que já li de Graham Greene, este foi sem dúvida o que menos gostei. Não sei, achei tudo  meio ridículo, muito tolo. O doutor Fischer chega mesmo a compará-los diretamente com porcos durante estes peculiares jantares e nenhum deles tem a mais pequena reação. Isso e muitas outras coisas para mim pareceram não fazer qualquer sentido. Felizmente as últimas duas ou três páginas até compensam mas...

 

  Para quem esteja interessado há também um filme que por agora está completo no youtube, se bem que não com grande qualidade, ainda para mais sendo um filme relativamente antigo. Não o vi, nem tenciono ver, não é o meu tipo de filme e parece um tanto aborrecido. No entanto, saltando rapidamente pela hora e trinta e sete que dura, parece representar o livro quase parágrafo a parágrafo, havendo conversas inteiras citadas diretamente de lá. Aqui fica:

José Saramago - A Jangada de Pedra

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  Já tive mais paciência para ler Saramago. Ou talvez este livro não me tenha cativado como outros. Ou, o mais certo, uma mistura entre as duas.

 

  A premissa será provavelmente conhecida por muitos: por artes mágicas, ocultas ou desconhecidas, a península ibérica separa-se da Europa e lá vai ela, navegando pelo Atlântico fora. Seguimos então, tanto um grupo de pessoas que passam por experiências “estranhas” no começo da história e que lá acabam por se juntar, de forma bem Saramaguesga, cheia de fantasia e simultaneamente de banalidade, como um pouco da política mundial e nacional face ao fenómeno. É a tal coisa que este autor faz sempre, de mostrar a imagem grande, a política mundial, e a pequena, um grupo de pessoas que percorre a península. Depois como é normal Saramago enfia os dedos nas feridas, com a sua típica voz irónica, mostrando tanto o melhor como o pior dos humanos – focando-se quase sempre mais no pior.

 

  Mas como estava a dizer, não ando com grande paciência para ler Saramago, ou melhor, não ando com grande paciência para ler este tipo de escritores. Estes que constantemente disparam em tangentes, simbolismos (por vezes um pouco forçados como me pareceu ser o caso neste livro livro) e divagações (o mais “straight forward” dos pouco que li dele deve ser o Memorial) o que se pode tornar bastante cansativo se uma pessoa não está com cabeça para tal. Houve alturas nesta Jangada de Pedra em que tive de me obrigar a ler, alturas em que bate muito na mesma tecla, houve muitas, muitas palavras que eu deveria ter procurado no dicionário, o que não fiz porque queria apenas que isto andasse para a frente.

 

  Enfim, está longe, bem longe, de ser o melhor dele – e eu digo isso tendo lido ainda poucos e tendo adorado alguns desses. No entanto há também momentos de genialidade, pequenos gestos, pequenas passagens, por vezes dezenas de páginas de uma vez, que passam sem darmos por elas. O melhor, como em tudo o que li dele, são sem dúvida os diálogos. Em livros de José Saramago não há diálogos normais, as personagens discutem e debatem sobre significados de palavras, de expressões, de sentimentos, de uma forma bastante bela e rara em literatura.

 

  Queria aqui deixar um desses diálogos. Já foi há dias que acabei de ler o livro e não sabendo bem o que procurar, abri e folheei um pouco ao calhas. Não foi difícil encontrar um bom exemplo que, acredito, faz sentido e dá para se perceber o que quero dizer mesmo sem contexto:

 

  “Novamente a caminho, sempre para o norte, em certa altura José Anaiço disse, era a Pedro Orce que se dirigia, A continuar assim vamos entrar em Espanha, voltamos à tua terra, A minha terra é a Andaluzia, Terra e país são tudo o mesmo, Não são, podemos não conhecer o nosso país, mas conhecemos a nossa terra, Já alguma vez foste à Galiza, Nunca fui à Galiza, a Galiza é terra doutros”.

Stephen King - A Cúpula

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  Após a leitura de alguns livros, fica-se com uma certa excitação do tipo “Raios partam! Melhor livro de todos os tempos!” Foi assim que fiquei após ler A Cúpula de Stephen King.

 

  No final há uma “nota do autor”, duas pequenas páginas com alguns detalhes e agradecimentos na qual, para começar, destaco a menção a Nan Graham, editora do livro, que aparentemente percebeu que Stephen King queria algo bem acelerado e cortou/editou tudo de forma a garantir o passo apressado que aqui se lê. Pode mover-se rapidamente mas é grande; nesta edição de bolso dividida em dois volumes, o primeiro deles tem, no total, 700 páginas e o segundo 655. No início do primeiro, antes de começar a prosa em si, temos uma lista relativamente grande das personagens de uma forma ou de outra mais importantes do livro. E a partir do momento em que há uma lista de personagens é porque vem aí algo longo, mas, como disse anteriormente e voltando um pouco atrás, rápido. Aliás, é surpreende o quão rápida A Cupula se move. Enfim, há livros que têm 100 páginas e parecem nunca mais acabar, este tem mais de 1000 e parece acabar cedo demais e de forma abrupta.

 

  Já falei muito sem mencionar o que se passa. A premissa é aparecer uma cúpula gigantesca à volta de uma pequenina cidade que mais parece uma grande vila. Nada entra, nada sai, tirando som e algum, ainda que ridiculamente pouco, ar e humidade. Dentro da cúpula o ar depressa fica bem malcheiroso não tendo a poluição atmosfera para onde subir e vento que a leve.

 

  Não há uma personagem principal mas sim uma boa porção delas. Há grupos e interesses diferentes. Após o aparecimento súbito e sem aviso da dita cúpula, que ninguém sabe explicar de onde ou como veio, sem ajuda exterior a cidade, de uma forma ridiculamente rápida, transforma-se numa espécie de ditadura militar em que o ditador é gordo, guardando sempre para amanhã a questão do controlo de peso e o tratamento dos vários problemas cardíacos que isso já lhe gerou juntamente com a idade, e o exército são uma data de adolescentes e “jovens adultos” sem qualquer espécie de treino e um gosto por vezes doentio em “fazer merda”. Depois vai-se também formando um pequeno grupo de “resistência” que não resiste coisa alguma, simplesmente não está de acordo com aquilo que o doente cardíaco anda a fazer. Enquanto o plano do ditador até parece bem constituído (excluindo a parte de não querer saber da cúpula em si para nada, apenas rezando a deus que a retire de lá após pôr em ordem os seus assuntos), o dos outros nem por isso, em parte porque são apenas um grupo de pessoas que se junta para fazer aquilo que pensam ser correto, apesar de não saberem como, em parte porque a história dura apenas cerca de uma semana.

 

  Uma semana! E uma semana chega para o ar ficar contaminado e poluído, para se formar todo um atabalhoado e armado batalhão de polícias, para um supermercado ser saqueado, para edifícios serem incendiados, pessoas assassinadas, dois presos, uma mulher violada, mais um ou outro tiroteio, mais uma ou outra pessoa morta, e até uma espécie de apocalipse. E depois é o final…mas os finais de Stephen têm tendência para, por vezes, serem um pouco… esquisitos… não é necessariamente o caso aqui, mas vamos ignorar.

 

  Voltando à nota do autor no final do livro, Stephen King diz que, apesar de ter sido lançado em 2009, tentou escrevê-lo pela primeira vez em 1976 e fugiu “com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho”, não devido à complexidade da história em si, com a quantidade enorme de personagens que a mim me assustaria imenso se o fosse tentar escrever, “mas pelos problemas técnicos” da situação, principalmente no que toca a detalhes e consequências ecológicas e meteorológicas que a cúpula em si geraria. O autor segue então agradecendo a um tal de Russ Dorr pela pesquisa necessária à história. É certo e óbvio que há imensa pesquisa por detrás de tudo isto, não só pelas mencionadas questões ecológicas, mas também sociais e políticas, e, entrando em pormenores, até em questões médicas e relativas a radiação e aos perigos desta.

 

  Quanto à escrita em si, o autor deixa muito daquilo a que em inglês se chama “hooks”. Vai acabando quase sempre os capítulos com uma frase ou uma expressão que nos faz querer saber o que vem a seguir, no entanto no capítulo seguinte vem uma outra personagem e a história anterior fica suspensa. Stephen King vai assim misturando as narrativas das várias pessoas que se vão cruzando. Mas posso deixar aqui aquele que talvez seja o meu exemplo favorito para explicar estes “hooks”. Mais ou menos a três quartos do livro há um capítulo que acaba com uma promessa: “Desde que não haja derramamento de sangue. (Ponto, Parágrafo). Nada de Sangue – Disse Joe”. Seguem-se algumas linhas descrevendo como para ali ficaram a falar baixinho durante a noite. Vira-se a página e o capítulo seguinte chama-se “Sangue por toda a parte”. Não sei se é o melhor exemplo dos inúmeros que aqui há, mas parece-me o mais óbvio de uma promessa de que algo grande se irá passar a seguir e que cola o leitor ao texto.

 

  Stephen King acaba os agradecimentos com uma frase que adorei, quase uma espécie de cereja (ainda que minúscula) no topo do bolo deste grande livro: “E a si, leitor fiel. Obrigado por ler esta história. Se se tiver divertido tanto como eu podemos considerar-nos afortunados.” Certamente foi esse o caso.

Pierre Loti - Madame Chrisanthème

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  Pierre Loti foi um oficial de alta patente da marinha francesa que, em 1885, passou cerca de dois meses e meio, entre Julho e Setembro, em Nagasaki, no Japão. Este livro, supostamente autobiográfico, relata os acontecimentos durante esse tempo.

 

  Começa com a sua chegada a Nagasaki. O que ele vai lá fazer ao certo, infelizmente nunca nos é dito, mas entende-se que a estadia no Japão faz parte do trabalho dele com a marinha. O que nos é dito, no entanto, é que ele tinha um sonho: casar com uma japonesa. Grande tara tinha este homem por quimonos no geral; por caras de olhos em bico e pele amarelada também.

 

  Pouco depois de chegar, o narrador vai ter com um homem que faz as vezes de vendedor de mulheres e, após lhe ter sido apresentada uma rapariga que, se bem me recordo deveria ter os seus 12 anos, deixando-o chocado por ser tão nova, o narrador acaba por escolher a irmã mais velha. Assim alugou ele uma mulher japonesa por vinte piastras por mês, seja lá isso quanto for. O “aluguer” de mulheres e a prostituição é algo bem batido no livro. Uma grande parte dos oficiais franceses que ali pára aluga mulheres com bastante facilidade, para depois se separarem delas (aparentemente fazia-se mesmo uma espécie de casamento e divórcio, assinavam-se papéis e tudo, qual contrato), para além de nos serem dados a conhecer casos de prostituição mais normal, que fora parte do negócio, há muitos anos atrás, dos que viriam a ser os senhorios do narrador. Tudo isso é descrito com bastante naturalidade e o mais politicamente correto possível, evitando praticamente sempre ferir suscetibilidades.

 

  O livro está escrito como um diário. Devo dizer que nunca gostei de livros escritos na primeira pessoa, mas este é capaz de me ter convertido. O narrador passa bastante bem os seus sentimentos para o papel, nomeada e especialmente o afastamento que sente em relação àquela cultura, o que é normal porque afinal não é a dele. Eu não sei explicar como ele o faz mas muitas vezes dá uma certa sensação de vazio como no filme “Lost in Translation” – que acidentalmente também se desenrola no Japão.

 

  No início do livro, numa nota do autor (aliás, uma carta a uma duquesa qualquer), o mesmo refere que “…as três principais personagens são: eu, o Japão, e o efeito que esse país produziu em mim” e isso é bem notório ao longo de todo o livro. O narrador desenvolve uma espécie de relação de amor-ódio (e tudo o que há entre os dois) para com o país. Tanto adora o cenário, as cores, os sons das guitarras japonesas, como não suporta nada disso. No entanto, na maioria dos casos e em grande parte do tempo, tudo lhe é indiferente, incluindo a própria mulher alugada, Crisântemo. Mas é das pessoas que ele menos parece gostar, notando toda a pequenez e hipocrisia desse povo que, em todo o caso, ou apenas para ele visto ser rico e estrangeiro, parece estar sempre a sorrir.

 

  Outra coisa que salta à vista é o quão turística Nagasaki é em 1885. Não só pelo negócio de jovens alugadas, que parece ser o sustendo de muitas famílias, mas também pelos restaurantes, pelas festas que decorrem à noite e até pelas pessoas que transportam os ricos. Parece que todos os empregos, todo o comércio local se centra em volta do turismo - ou, pelo menos, na satisfação da prazeres caros. Mas verdade é que, tratando-se Pierre Loti de um homem rico e estrangeiro, também não seria de esperar ver dali outra realidade.

 

  Enfim, assim nos são descritas paisagens (juro: nunca tive tanta vontade de viajar ao ler um livro), a cidade cheias de cores, objetos repletos das mais pequenas e detalhadas representações – especialmente pássaros por alguma razão, roupas estranhas também bastante coloridas, cerimónias e festas religiosas onde os locais colocam máscaras de animais, muitas, muitas lanternas de papel levadas na ponta de paus para alumiar o caminho, a arquitetura, os interiores das casas, brancas limpas e vazias, a gastronomia repleta de pratos e iguarias agri-doces, talvez demasiado açucaradas, uma indústria de papel que parece bem desenvolvida para o tempo e, por fim, como não podia deixar de ser e não será grande novidade para quem já tenha visto desenhos animados japoneses, o som de fundo constante do canto das cigarras que nunca acaba.

 

  No final da estadia, Pierre Loti tirou uma foto onde se pode ver ele mesmo, com o seu bigode, Yves, mais alto, o seu melhor amigo, e Crisântemo, sentada numa cadeira, com os pés virados para dentro seguindo as normas de beleza japonesa. Aqui está essa foto:

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Três contos de Beatrix Potter

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  Recentemente estreou nos cinemas um filme chamado “Peter Rabbit”. Pelo trailer não parece muito bom. Não conheço bem a personagem, sei apenas que vive numa quinta que na verdade pertence a um tal de senhor Gregório, a quem o “Pedrito Coelho” faz a vida negra. A personagem foi criada por Beatrix Potter, que editou uma data de contos infantis durante a primeira metade do século passado. Aqui o que eu acho singular é que ela não só escreveu, como ilustrou os seus livros. Não me recordo de nenhum outro autor que tenha feito as duas coisas à escala que esta senhora fez. E talvez a ilustração seja até a melhor parte, mas pessoalmente não me interessa tanto quanto as palavras escritas… Para mais informações sobre a autora vejam este post:

https://pantano.blogs.sapo.pt/o-imaginario-mundo-de-beatrix-potter-40769.

 

  Foi na biblioteca que estes três pequenos livros foram requisitados da secção dos mais novos. São bem pequeninos e leem-se rapidamente. Literatura para adolescentes há a montes, e algumas coisas muito boas lá pelo meio, mas infantil…? Eu não percebo histórias infantis. Não há enredo, não há objetivo, e pior do que isso, nem parece haver um sentido. Mas vamos lá por ordem de leitura.

 

  O primeiro deles que li foi “A história da Senhora Rata Migalha”. Esta rata migalha só quer ter uma casa limpa e em ordem, mas todo o tipo de bicharada entra lá constantemente, sujando-lhe tudo. O que ela menos gosta, e que a visita, é um sapo que vem dos esgotos e deixa tudo cheio de pegadas. No entanto o sapo afugenta-lhe todos os outros bichos da casa. Depois de ele ir embora, com musgo e paus, a rata migalha tapa parte da entrada da porta de modo a que o grande sapo nunca mais possa entrar. Aí ela limpa a casa e dá uma festa convidando os ratos da vizinhança… Nem nexo  nem moral a meu ver.

 

  Já “A História dos Coelhinhos Flopsi”, primos do coelho Pedrito já agora, e que não tendo muita comida em casa decidem ir alimentar-se por aí...alimentar-se de alface do caixote do lixo do senhor Gregório. Aparentemente a alface dá sono aos coelhos deste livro e é a dormir que o senhor Gregório os apanha. O agricultor lá pensa que já tem almoço, mete-os num saco que fecha e deixa sozinho durante uns minutos. Tempo suficiente para os coelhos se escapulirem, encherem o saco de coisas podres e ficar a ver a reação da mulher do senhor Gregório quanto abre o saco… Mais uma vez parece não haver nada que valha a pena ler aqui. Ou não sei, eu não vejo nada que valha a pena.

 

  Por fim temos “A História do Esquilo Trinca-Nozes” que tem até o seu quê de macabro. O trinca-nozes é..é um otário…que vai ser castigado. Portanto junto da casa dos esquilos fica um lago, no centro do qual há uma pequena ilha onde vive uma coruja, e nessa ilha há uma série de nogueiras. Para não serem comidos pela coruja, os esquilos levam-lhe sempre comida, e em troca ela deixa-os apanhar nozes. Mas o trinca-nozes nunca lhe leva nada, só goza e faz pouco dela. Nem sequer na recolha de alimento participa. Como castigo, a certa altura a coruja já farta dele apanha-o, supostamente para o comer. Ele lá consegue fugir, as fica sem cauda. Aliás, é assim que o livro começa: “Esta é a história de uma cauda”.

 

  Não é que os livros tenham de ter uma moral, aliás, isso na maior dos casos só prejudica uma história, mas estas pelo menos podiam ter nexo. Especialmente a da Senhora Rata Migalha…é que não tem ponta por onde se lhe pegue. Já a do Trinca-Nozes parece apenas um castigo absurdo. Como disse no início, acho que o mais bonito destes livros são os desenhos de Beatrix Potter. Abaixo deixo o exemplo talvez do meu favorito destes três livros: os esquilos a irem para a ilha, em jangadas de pauzinhos e com as caudas a servir de velas.

  Talvez estes contos façam parte de uma imagem maior, até porque os livros assemelham-se a pequenos episódios e muitas das personagens parecem aparecer com alguma frequência, e daí eu não estar a ver o sentido de nada disto. Eu sei é que achei, por exemplo, Os Contos de Beedle O Bardo, da JK Rowling um livro excecional. E são contos infantis que fazem parte de um universo ficcional criado pela escritora.

Germaine Acremant - As Solteironas dos Chapéus Verdes

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  Este livro remete-nos para algures no século 19 (presumo eu…), altura em que se começam a ver mais carros pelas ruas de França, e onde uma mulher solteira era, aparentemente, bastante mal vista. Ou melhor, o próprio livro passa bastante essa ideia, de que a “verdadeira vida”, para uma mulher, começa apenas após casar-se.

 

  A autora faz uma coisa bem, e muito bem, da qual eu gostei bastante, que é ridicularizar a banalidade de vários gestos e costumes tolos, focando-se bastante nos mais pequenos movimentos, ações, palavras e descuidos. Mas vamos primeiro vamos à história em si. A personagem principal é Arlete, uma jovem proveniente de uma família rica que perde todo o seu dinheiro, o que leva o pai a suicidar-se e o irmão a ir trabalhar para outro país. Ela quer ir com ele, mas basicamente não pode por ser mulher, e acaba por sair de Paris, onde vivia, para ir morar para uma terriola pequena com quatro tias solteiras, as tais “Solteironas dos chapéus verdes”. As quatro são descritas como… ridículas, por vezes pelo simples facto de não estarem casadas, mas principalmente pelos seus costumes. Vivem de forma bastante recatada, de hábitos e rotinas rígidas, são bastante religiosas, indo todos os dias à missa, muito senhoras de si, más-línguas, um pouco orgulhosas e presunçosas, torcendo o nariz a tudo o que seja “modernice” ou espalhafatoso.

 

  Parece fazer-se pouco destas quatro mulheres pelo simples facto de estarem solteiras, como se isso fosse algo mau em si, e chega-se até a tentar justificar, ainda que muito levemente, o porquê disso. Com o passar do tempo vamos conhecendo-as melhor e a própria Arlete se vai habituando a elas aos poucos, mas a verdade é que de uma forma ou de outra, sem dependerem de mais ninguém, neste caso de um homem visto isto se focar tanto no casamento, são independentes. Em todo o livro há duas situações apenas (que eu tenha apanhado) onde se dá a entender que elas são costureiras, penso eu, mas nunca nos é dito diretamente, no meio de todos os hábitos que são passados por ridículos, como elas ganham a vida, mas é certo que não se dão nada mal, tendo até dinheiro para ter uma empregada permanentemente em casa. É outra coisa que me irrita um pouco, e que já mencionei algumas vezes por este blogue: não se falar de dinheiro. As pessoas simplesmente ou são ricas ou pobres, e seja qual for o caso muito raramente se explica de onde o sustento provém, e mais raramente ainda isso é algo central numa história, tirando às vezes para criar conflitos vindos do nada. Há apenas uma minoria de escritores que o faz bem. Mas enfim, só essa questão dava para um post bem grande.

 

  Vindo a protagonista da capital para a província para viver com gente recatada e sossegada, há aqui bastante atrito e ela tem alguma dificuldade em adaptar-se a uma vida mais calma. Tanto quanto nos é dito nunca ninguém a põe a trabalhar seja no que for, o que mais uma vez acumula à falta de justificação do sustento daquela casa. A protagonista começa então a fazer de casamenteira pois descobre que uma das tias esteve no passado interessada por um professor que ali vive perto. Arlete conhece também um jovem bem rico, com castelos e tudo, por quem se apaixona após duas pequenas conversas (como acontece sempre neste tipo de livros) e com quem no fim acaba por casar depois de umas quantas confusões, trocas e baldrocas, e é assim que acaba o livro…o que é importante pois o maior medo dela, no que toca a viver com as tias, era que a “solteirice” se pegasse.

 

  Enfim, a independência feminina no livro parece ser algo a que se torce o nariz. A vida a sério, como disse acima, só começa a ser vivida, e isto é-nos dito diretamente pela mais velha das “solteironas”, após o casamento. Eu não sei mas este tipo de histórias choca sempre comigo em vários, vários sentidos. No entanto quero terminar o post na que é sem dúvida a melhor parte, a que torna “As Solteironas dos Chapéus Verdes” algo que vale a pena ler: a quantidade de comédia que Germaine Acremant consegue criar em situações banais. Vou deixar um dos exemplos de que mais gostei: Lá para o fim do livro as solteironas são visitadas pelo senhorio, bastante rico e cujo filho é quem vai acabar por casar com Arlete. Estando elas na sala, quando ouvem a campainha sobem as escadas a correr e vão para os seus quartos. Isto porque fica mal às senhoras da casa abrir a porta ao visitante. Não: dizem as regras que deve ser a empregada a abrir a porta, a anunciá-lo, e a chamá-las de longe para o virem receber. Mas quando esta abre a porta apenas diz ao homem algo como “não sei onde elas se meteram, mesmo agora aqui estavam”.

Zombies e Walking Dead (A Estrada de Woodbury - Robert Kirkman e Jay Bonansinga)

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  Quem acompanhe a série de televisão ou leia as bandas desenhadas certamente se lembra do “Governador”, Philip Blake, e certamente se lembrará também da sua cidade, Woodbury. Enquanto na série, inicialmente, Woodbury nos é mostrado como uma espécie de utopia com umas quantas particularidades não muito bonitas, nas bandas desenhadas é podre desde o início. E é essa a Woodbury que aqui vemos. Mas só lá se chega já depois da centésima página.

 

  É possível que quem siga a série e não saiba da existência deste livro fique contente, mas ficará mais ainda em saber que é o segundo de uma série que segue a história desta cidade. Mas mesmo que não sigam ou não saibam absolutamente nada de Walking Dead, não há problema pois seguimos aqui personagens diferentes com uma nova história; nem sendo este o segundo livro, precisam ler o primeiro.

 

  Confesso que até gosto e sigo a série. Esta ideia dos zombies, por mais tola que seja e mesmo não fazendo sentido nenhum, já tem dado pano para mangas e não faltam para aí histórias envolvendo um futuro onde algo acontece e os mortos começam a andar e a comer pessoas. Por vezes apenas cérebros de pessoas, o que é tipo…a cereja no topo do bolo da tolice, mas ei, não é como se não se pudessem criar histórias e personagens interessantes sob uma premissa tola. Premissas tolas não faltam por aí. E só faço questão de o dizer porque já houve tanta história disto que aparentemente há uma certa “má” reputação aqui. Mas desde o filme “Night Of the Living Dead” que saiu em 1968 relizado por George Romero, tido como o filme que popularizou em massa a própria ideia dos zombies, já foram feitas muitas histórias até decentes pegando neste tópico. E assim se chega ao livro “A Estrada de Woodbury”.

 

  Passa-se em Atlanta – nos arredores de - e seguimos principalmente Lily, uma jovem inicialmente meio medricas que se vai escondendo atrás destes ou daqueles. No começo as personagens estão num grande acampamento com mais de uma centena de pessoas onde há até uma tenda gigante de circo. Sendo Walking Dead lá acontece merda, lá Lily e o seu grupo se vão embora e depois de alguns meses e muitas peripécias, lá acabam por chegar a Woodbury, uma pequena cidade com uma muralha à volta, que está a ser expandida, e onde vivem cerca de cinquenta pessoas, das quais apenas doze são mulheres e apenas quatro dessas não são idosas – e se isto não é uma receita para o desastre…

 

  Há duas coisas que me incomodaram bastante neste livro: Em primeiro lugar, há uma personagem que trata Lily sempre como “boneca” ou “querida”, ou ainda, “pequena”, mas principalmente “boneca”. E essa palavra é repetida muitas, muitas vezes. Antes de mais quem é que vai tratar sempre alguém por “boneca”? Não sei…se calhar até é comum, mas não deixa de me incomodar. A segunda coisa é a seguinte: a certa altura estabelece-se que as personagens em Woodbury trabalham em troca de comida e outros bens, e a certa altura deixa-se de trabalhar… e nunca mais ninguém refere de onde provem a subsistência da personagem principal. Eu sei que em ficção por norma dinheiro nunca falta e vai-se dar a volta ao mundo com cinco tostões se for preciso, mas se o autor faz questão de estabelecer que, dia após dia, é assim que as personagens vivem e é assim que arranjam bens de consumo, havendo aqui uma quebra se calhar era melhor explicar também o que acontece depois. Uma frase ou duas bastaria. Não sei. Curiosamente também nunca mais mencionam especificamente (ou se o fazem eu não apanhei) a passagem do tempo e quem quiser defender o livro pode dizer que a partir dai toda a história se passa no máximo em dois ou três dias, mas lendo o livro tal também não faz sentido.

 

  Resumindo, não é o melhor livro de todos os tempos mas não é de todo um mau livro, e recomendo-o não só a, mas a todos os que gostem destes temas. É curioso como isto dos zombies se assemelha a “settings” de guerra, sendo um bom ambiente para colocar personagens em situações extremas, levando-as a extremos. E podem crer que aqui isso acontece!

Frederik Pohl - Ó Pioneiro!

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   É sempre bom quando as histórias se focam no quão pequeno o ser humano é, muitas vezes nas mais ridículas coisas. Sejam segredos que não o deviam ser, sejam artimanhas de uns que prejudicam outros, sejam as más-línguas que nunca param de trocar ideias, sejam cobardias ou arrogâncias. E quando estas coisas se atribuem não a indivíduos mas a dramas e sistemas políticos ficcionais…temos histórias como esta, “Ó Pioneiro!” de Frederik Pohl.

 

   O protagonista da história é-nos apresentado como um daqueles génios informáticos que, por serem génios informáticos, conseguem “hackear” tudo e mais um par botas e ter toda a informação do mundo em três segundos. Estas personagens irritam por simplesmente as coisas não funcionarem assim (digo eu…) mas enfim, passam-se décadas e as histórias de ficção científica e não só continuam a publicitar estes seres inexistentes que têm especial piada naqueles filmes tolos em que parece bastar a uma pessoa escrever rápido num computador para se ser um deus da informática e conseguir tudo o que se quer. Isto por si só, usado mais que uma vez neste livro, é talvez o pior defeito que lhe consigo pôr. Mas adiante.

 

   A história propriamente dita passa-se num futuro um pouco distópico, mas do qual não vemos quase nada tirando alguns detalhes no início do livro. Isto porque tudo se passa num outro planeta, apelidado pelos humanos como “Tupelo” para onde a nossa personagem principal, de nome Evesham Giyt vai viver após responder a um anúncio de uma tal de “Sociedade de Amplitude da Terra” que anda a recrutar pessoas para colonizar o novo planeta. A viagem em si é feita através de um conveniente portal de ida e volta, e quando se chega lá a sociedade do planeta e a cidade onde ainda muito pouca gente vive tem aspeto de postal americano dos anos 50, onde as famílias vivem alegremente numa espécie de subúrbio rico onde as donas de casa vão oferecer bolos aos recém-chegados, vestidas com aventais bem limpos e de sorriso rasgado na cara.

 

   Mas os humanos não estão lá sozinhos. Quatro outras espécies alienígenas vivem ali, desde uma espécie de papa-formigas, até lesmas, passando por uma versão de primatas bem mais pequenos que os humanos. Para todos eles Tupelo é o “planeta da paz” e o planeta está organizado por secções que vamos vendo à medida que Giyt, que se torna presidente da câmara, passa por elas. Há preconceitos e conflitos entre as espécies que nos entretêm durante várias páginas, e cada uma está mais encarregada que as restantes de uma determinada especialidade. Uns da energia, eletricidade e não só, outros da construção e manutenção de infra-estruturas, desde casa a hospitais…já os humanos, tidos como os menos inteligentes, e certamente os menos tecnologicamente avançados, estão encarregados principalmente da produção alimentar, da agricultura.

 

   Há ressentimentos, mentiras e esquemas manhosos, e é aqui que entra tudo o que indiquei no primeiro parágrafo, enquanto o nosso protagonista, que só quer ter uma vida calma e descontraída, tenta distinguir a verdade da mentira e da meia mentira.

 

   Não é um livro muito grande, na verdade tem o tamanho ideal, e, apesar de ter várias falhas, há bastante tempo que não me empolgava tanto a ler um livro. Livro esse que, vim a descobrir, parece ser dos piores do autor. Se algum dia der de caras novamente com Frederik Pohl digo como correu.

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