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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Aladdin e os seus génios

 

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  As mil e uma noites é uma coletânea de histórias e contos populares do médio oriente e sul da Ásia que já conta com uns valentes séculos. Recentemente li a "História de Aladino ou a lâmpada maravilhosa" e revi também o antigo filme da disney, do qual me lembro bastante bem. Antes de mais é curioso que o livro, supostamente, não se passa algures nas Arábias, mas sim na China, apesar das poucas referências culturais presentes nele apontarem para as Arábias - se bem que muito pouco conheço sobre a China.


  A história original, comparada com o filme de animação da disney, deixa muito a desejar. Não há a grande moral de libertar o génio, não há o número limitado de desejos, não há uma personagem feminina com um mínimo de vontade de viver; não. Há um Aladino, que não é órfão de pai e mãe, apenas de pai, vivendo assim com a mãe, e não na rua. Não quer trabalhar e recusa-se a aprender o que quer que seja. Nisto aparece um mago, vindo algures de África, que o quer usar para obter a lâmpada. Ao contrário do que acontece no filme, não se percebe o porquê de não ir o próprio mago buscar a lâmpada, e também ao contrário do que acontece no filme, o ter escolhido aquele rapaz foi algo aleatório. O mago no livro vem do nada, não é vizir ou conselheiro do Sultão como no filme. No livro há também um conselheiro, mas a sua vontade resume-se a casar o filho com a princesa, o que depressa vai por água abaixo após um plano bem esquisito e imoral de Aladino usando o génio da lâmpada para os separar.

 

  No livro, para além da lâmpada, o mago que vem de África tem também um anel que dá a Aladino e que também contém um génio, também com poderes ilimitados e que pode ser convocado ilimitadamente. Apesar disso é usado apenas duas vezes. Sobre a diferença de poderes entre os génios de um objecto e de outro (há mais do que um "escravo" - como eles próprios se identificam - para cada objeto), sabemos apenas que os do anel não podem desfazer o que tiver sido feito pelos da lâmpada. No entanto o poder de uns parece-me tão ilimitado quanto o poder dos outros.

 

  A princesa no livro praticamente não existe, é apenas o objeto de desejo de Aladino. Diga-se também que é a única mulher a quem Aladino viu a cara, tirando a própria velha mãe. Só com um vislumbre de um segundo, lá ficou o moço com uma tal vontade de a ter para ele que a sua vida se viu consumida por esse desejo. Só com as riquezas infinitas provenientes do génio é que o conseguiu, pedindo-lhe escravos, ouro ilimitado, e até um palácio, que aparece construído da noite para o dia, e cuja construção o Sultão aceita cegamente como sendo prova da riqueza de Aladino. Enfim, há aqui muita tolice à mistura. No geral a versão do filme de animação da Disney é muito, mas muito melhor - para mim pelo menos - do que a original. Sem dúvida. Já o filme recente de 2019... bem esse provavelmente nunca o vou ver.

Harper Lee - Por favor não matem a cotovia

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  No seu título original, que é basicamente igual a este mas não na negativa, incidentalmente soando ridiculamente cool, To Kill a Mocking Bird é um livro escrito por uma adulta refletindo, quiçá em muitos aspetos recordando, no que é e como é a vida, em como funciona a sociedade aos olhos de uma criança para quem o pai é a pessoa mais corajosa do mundo apenas por dizer “bom dia” a uma velhota doente que assusta as crianças.

 

  Há muitos livros direcionados para os mais novos, mas surpreendentemente poucos são, como este, pelo menos na minha opinião é, direcionados para os mais velhos, através dos olhos de uma criança. Antes de qualquer outra coisa parece-me importante fazer esta distinção especialmente devido aos temas que o livro aborda – divisões sociais de todo o tipo.

 

  Com o tempo To Kill a Mockingbird veio a tornar-se um clássico da literatura americana, tendo ganho um dos mais importantes prémios do país, o Pulitzer, em 1961, um ano após ser publicado. Ganhou quase desde logo a distinção de “clássico”, ainda hoje sendo ensinado nas escolas americanas, e foi também adaptado ao cinema em 1962. Estas pequenas curiosidades só para dizer que, ao contrário da grande maioria dos “clássicos” que vou encontrando, este é talvez um dos melhores livros que já li.

 

  Mas o que dizer sobre um livro que já tantos leram? Bem, passa-se no sul dos EUA na cidade ficcional Maycomb durante os anos da grande depressão e relata a história da pequena cidade através dos olhos de Scout Finch, filha de Atticus Finch, advogado de profissão que se vê encarregue de defender um negro em tribunal. A acusação é de violência e violação de uma jovem e desde cedo que vê que o acusado claramente não é culpado, apesar de lhe acabarem por dar a setença de morte.

 

  Já acabei o livro há algumas semanas no entanto é-me extremamente difícil falar dele, porque tudo o que posso aqui escrever me soa a redutor. Todas as personagens estão extremamente bem construídas. Até o próprio ambiente é alvo de atenção especial. A cidade está degradada e por vezes parece quase abandonada; os seus habitantes miseráveis durante a grande depressão, vencidos pela vida, grande parte deles com deformidades físicas, ou psicológicas como no caso de “Bo” Radley, vizinho de Scout que durante décadas quase não saiu de casa.

 

  Ao longo do livro vemos as personagens principais, as crianças, crescer e ganhar uma maior compreensão do mundo, mas o mundo em si não muda, as personagens em si não mudam, ou pelo menos não o suficiente para que se veja alguma mudança imediata no mundo de Scout Finch. Leiam, por favor, não se arrependerão.

Palema Sargent - O meu vizinho alienígena

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  Fringe é uma série de ficção científica da qual apenas vi, há largos anos atrás, um ou outro episódio solto, mas no geral tenho uma imagem bastante positiva dela. Curiosamente apanhei mais do que um episódio com os “Observadores”, personagens idênticas entre si que se mostram nos mais variados momentos de toda a história do ser humano, mas que, tanto quanto vi na séria, nada fazem, simplesmente estão lá, observam.

 

  Não conhecendo a série, não sei dizer se houve algum desenvolvimento nos observadores, mas os criadores podem muito bem ter-se baseado neste livro para criar estas personagens. Editado primeiramente em 1983, escrito por Pamela Sargent, a quem foi dado erradamente o sexo masculino por quem compôs a contracapa do livro, pois trata-se de facto de uma mulher. (Há pequenas coisas que não se sabe bem como passam). O livro mostra-nos um mundo marcado pela pobreza e pela falta de emprego, onde as únicas soluções viáveis para a população, pelo menos na cidade onde o livro se passa, parecem ser, ou juntarem-se ao exército, ou…irem viver para a parte da cidade onde estão os sem-abrigo e afins. Nestas circunstâncias, tudo na vida do casal protagonista se centra em volta de manter os seus empregos e contar tostões. Uma chávena de café é um autêntico luxo.

 

  O casal protagonista vive constantemente com medo em serem despejados da velha casa onde moram, constantemente a necessitar reparações. Nisto lá surge um novo vizinho, algo extravagante, que parece ser rico e que abertamente diz a todos que é um alien. No final de contas não é propriamente um alien, mas sim um ser humano que viveu centenas, talvez milhares de anos, com recursos infinitos e tecnologia insondável. O único problema dele é a solidão. Mas antes de o saberem os protagonistas são envolvidos no mistério da identidade da sua pessoa.

 

  Não sei se há palavra para definir o que vou demorar um parágrafo inteiro a explicar, mas a ficção científica pode ser muito…(inserir palavra). Isto é, o equivalente ao que em filmes de ação se chama a “suspensão da descrença”, quando é necessário simplesmente ver e não ligar a cenas que sejam estupidamente impossíveis. Enquanto em ação são cenas específicas em ficção científica ou fantasia é todo o ambiente, toda a história, toda a explicação que por vezes parece não fazer sentido, mas à qual damos um certo “desconto”. Largamente não foi o caso deste livro.

Stephen King - The Cell

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  Stephen King devia estar um pouco farto da banalidade dos zombies mortos-vivos que não fazem sentido nenhum e decidiu dar-lhes um upgradezito, que pouco sentido teve também. Antes de mais não são mortos vivos, que essa trapalhada não tem jeito nenhum; são pessoas normais cujos cérebros, de alguma forma, foram apagados, ou “reiniciados” – como gostam de dizer no livro – devido a um qualquer “impulso” transmitido através de telemóveis. Sim, telemóveis. Ah, e vamos-lhes dar poderes, como telepatia, que é até bastante utilizada no livro. E já agora também porque não levitação? Meter os zombies por aí a flutuar, sem sequer terem noção de que o fazem e sem qualquer controlo aparente sobre isso, e que não leva a lado nenhum. Pelo menos não são zombies, são pessoas loucas que andam por aí a correr...não tanto Walking Dead mas mais 28 Days Later. E nada dessa trapalhada de comer pessoas. Apenas pura violência e pilhagem.

  Aí está senhoras e senhores, The Cell, de Stephen King, editado primeiramente em 2006, provavelmente escrito algum tempo antes disso, altura em que toda a gente começava a ter telemóveis.


  Este livro tem vários problemas e ideias que me deixam a torcer o nariz e, curiosamente, sendo King, o final em si não foi um problema. O problema são as ideias e os conceitos que se introduzem sem serem explicados e que não chegam a lado nenhum. São personagens que deveriam reaparecer mas que nunca mais lhes pomos a vista em cima, ou aquelas que acompanhamos mas cujo desenvolvimento é muito pouco interessante; são conceitos que tocam a ficção científica mas que não têm jeito nenhum nem fazem qualquer sentido. No geral, tolices a mais.

  Mas uma coisa é certa, o homem sabe como começar um livro. Desde a primeira página com os desde logo apocalítico primeiro parágrafo, até cinquenta ou cem páginas adiante, em que vemos a cidade de Boston, onde começa a história, ser virada ao avesso, corrida por acidentes, mortos, assassinatos, violência, até aviões caem, enfim, sangue e fogo por todo o lado. O problema é quando se sai de lá. O livro começa bem acelerado, mas de alguma forma vai diminuindo tanto de velocidade como de intensidade até ao fim que, na verdade, após vários momentos dececionantes, é até bastante bom.

C.S. Lewis - Para Além do Planeta Silencioso

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  Aparentemente este livro é o primeiro de uma trilogia, se bem que não vejo como possa vir algo mais. O final foi bem decisivo, algo que por vezes é bom, por vezes nem tanto. Aqui até gostei, o autor fez aquela coisa de adicionar numa espécie de posfácio excertos de uma carta que o próprio Ransom, personagem principal do livro, lhe teria enviado. Enfim, dá um certo charme à coisa, um certo toque de realismo, e Lewis utilizou isso também para acrescentar um monte de referências e factos sobre o mundo que criou, o planeta para onde Ransom é levado à força, que já bem adiantados no livro nos é confirmado ser Marte, aqui chamado de Malacandra.

 

  Não é propriamente o planeta vermelho que se conhece nas aulas de ciências. C.S. Lewis não se foca muito na ficção científica em si, não só na descrição do próprio planeta, como em muitos outros aspetos, especialmente em informação do espaço e da nave que leva as personagens até lá. Mas quando se chega… Foi criado todo um mundo, populado por três espécies inteligentes, cada uma com sua história. O livro é uma espécie de alegoria com comentários sociais e religiosos que por vezes deveriam ser menos óbvios. Acho que o autor se focou, por vezes, demasiado em coisas que…enfim, pelo menos a mim não me interessam muito como a linguagem das espécies que habitam Malacandra, o que até é natural uma vez que a personagem principal é filóloga (palavra que eu não conhecia), e também se foca demasiado em descrever as várias paisagens do globo Malacandriano. Qualquer secção de qualquer livro onde se alonguem ao descrever uma cidade ou um terreno, ou uma sala, ou objetos do dia-a-dia, depressa perde o meu interesse e, apesar deste não ser de todo um livro grande, durante partes tive de me forçar a ler. Enfim, eu pessoalmente reescreveria ou cortaria partes, mas no geral foi um livro interessante.

 

  Fica também a curiosidade: no álbum "Brave New World", da banda Iron Maiden,  consta uma música chamada "Out of the Silent Planet", inspirada pelo livro.

Irving Wallace - O Relatório Chapman

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  Era uma vez uma criança, que, como tantas outras, a certa altura questiona os pais acerca da sexualidade do ser humano. Os pais, acabrunhados com a questão, redirecionaram a criança para um familiar de meia-idade de nome George G. Chapman, biólogo de profissão; afinal, quem melhor para responder a essas questões que um familiar biólogo? Certo é que Chapman também não soube responder à criança, no entanto foi mais longe. Percebendo que no geral muito pouco se sabia acerca da sexualidade do ser humano, começou a entrevistar pessoas e a publicar estudos sobre o tema.

 

  No seu mais recente trabalho, uma pequena parte dele tratado e elaborado durante este livro, de nome “Uma história sexual da mulher casada americana”, a equipa de cientistas de Chapman entrevista mais de três mil mulheres, cada entrevista durando no máximo cerca de uma hora e meia. São feitas as mais minuciosas questões acerca da sua vida sexual, desde a sua história começando pela infância, até ao tempo médio de duração do ato sexual com o marido, passando por preliminares, regularidade do ato, infidelidades e desvios, fantasias, etc. Depois de cada entrevista, os dados são codificados, enfiados todos no mesmo pacote e usados no fim para elaborar uma enorme estatística da coisa.

 

  Desde as primeiras entrevistas que Chapman e a sua equipa têm vindo a ter fortes oposições ao seu trabalho. Preconceitos, grupos religiosos, outros cientistas que criticam a “frieza” dos dados, fazendo crer que a sua relevância é quase nula para o cidadão comum. No entanto, para a equipa (no geral), todo o esforço necessário à realização destes estudos é válido, pois, de certa forma, vem “iluminar” o conhecimento do ser humano para com uma área tão importante e tão pouco falada. E por mais incompleto ou desfasado que o megalómano estudo possa ser, servirá sempre de base para os que vierem mais tarde trabalhar na área. Apesar de tudo, e já estando há uns anos no jogo, Chapman conseguiu ganhar uma certa fama e posição de destaque nos círculos científicos.

 

  No início do livro é-nos apresentado “The Briars”, zona de média-alta sociedade dos subúrbios de Los Angeles, assim como algumas das moradoras da zona, mulheres essas que irão ser entrevistadas pela equipa de Chapman.

 

  Tendo o livro uma mão-cheia de mulheres e também uns quantos homens como personagens principais, já se está a ver que não é propriamente pequeno. Em mais de 650 páginas as personagens cruzam-se, conhecem-se, nós conhecemo-las, as suas famílias, os seus dramas, histórias, conflitos e mariquices. De uma maneira ou de outra, as vidas aqui retratadas são alteradas pelo próprio relatório que a equipa está a elaborar.

 

  Gostei imenso do livro, mas não existe sem as suas falhas, sem umas quantas conversas tolas e, especialmente, sem uma grande cena íntima quase no final do livro que é simplesmente horrível e não faz sentido nenhum. Ainda assim o ritmo lento da escrita de Irving Wallace cativa-me bastante. O autor conseguiu também criar personagens que, tirando uma ou outra coisa, me pareceram bem reais, como o próprio Chapman, que tenta manter uma postura de cientista objetivo mas a quem o orgulho por vezes trai, como o casal formado por Sam e Sarah Goldsmith, ela infeliz e sentindo-se ignorada, levada a trair o apático marido. Enfim, o livro é grande e desenvolve bem cada uma das personagens, umas melhores que as outras, mas no fim o resultado é bastante positivo.

 

  Tão positivo que provavelmente o próximo livro que vou ler será O Prémio, também do mesmo autor. E esse sim é um calhamaço… Não saberá Irving Wallace escrever livros pequenos?

Graham Greene - O Mundo dos Ricos

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  Traduzido à letra o título seria algo como “O Doutor Fischer de Gevena ou A Festa da Bomba”. Bem melhor, tendo em conta o que aqui se passa, do que este que foi dado na nossa língua. Não sei quem se lembrou de “O mundo dos ricos”, e especialmente não sei quem acrescentou na capa “A ambição de ricos e o orgulho de pobres”, pois dá uma imagem bem errada do livro… apesar de tocar nisso mas… simplesmente é um mau título.

 

  Este pequeno livro, que se pode ler por inteiro numa tarde, conta a história de um homem de meia-idade que se apaixona e casa com uma mulher jovem, o que não dura muito pois ela morre pouco depois num acidente. Mas isso não interessa para nada, interessa é o doutor Fischer do título original. É o sogro da personagem principal, e logo desde o início é mostrado como uma personagem bem excêntrica, fria, desapaixonada, quase maléfica, que tem a particularidade de ser anfitrião de umas festas bem ridículas. Se a nossa personagem principal representa os supostos “pobres”, apesar de pouco ter de orgulhoso, o doutor Fischer – e por extensão o pequeno grupo de pessoas que ele convida para as suas “festas” – representam os ricos, se bem que ambição também pouca é mostrada, já ganância... Pois bem, o doutor Fischer, milionário diga-se de passagem, convida então esse pequeno grupo de pessoas, todas elas no mínimo riquíssimas, para jantares onde são ridicularizadas ao máximo. Se passarem as provações, no fim, recebem presentes caríssimos como relógios de ouro, colares de pérolas, etc. Diz o anfitrião que apenas quer testar até onde vai a ganância deles, dizendo também que quem provenha de meios mais humildes não percebe o porquê dos convidados se rebaixarem tanto para receberem esses presentes caríssimos, que eles próprios poderiam muito bem comprar.

 

  Do que já li de Graham Greene, este foi sem dúvida o que menos gostei. Não sei, achei tudo  meio ridículo, muito tolo. O doutor Fischer chega mesmo a compará-los diretamente com porcos durante estes peculiares jantares e nenhum deles tem a mais pequena reação. Isso e muitas outras coisas para mim pareceram não fazer qualquer sentido. Felizmente as últimas duas ou três páginas até compensam mas...

 

  Para quem esteja interessado há também um filme que por agora está completo no youtube, se bem que não com grande qualidade, ainda para mais sendo um filme relativamente antigo. Não o vi, nem tenciono ver, não é o meu tipo de filme e parece um tanto aborrecido. No entanto, saltando rapidamente pela hora e trinta e sete que dura, parece representar o livro quase parágrafo a parágrafo, havendo conversas inteiras citadas diretamente de lá. Aqui fica:

José Saramago - A Jangada de Pedra

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  Já tive mais paciência para ler Saramago. Ou talvez este livro não me tenha cativado como outros. Ou, o mais certo, uma mistura entre as duas.

 

  A premissa será provavelmente conhecida por muitos: por artes mágicas, ocultas ou desconhecidas, a península ibérica separa-se da Europa e lá vai ela, navegando pelo Atlântico fora. Seguimos então, tanto um grupo de pessoas que passam por experiências “estranhas” no começo da história e que lá acabam por se juntar, de forma bem Saramaguesga, cheia de fantasia e simultaneamente de banalidade, como um pouco da política mundial e nacional face ao fenómeno. É a tal coisa que este autor faz sempre, de mostrar a imagem grande, a política mundial, e a pequena, um grupo de pessoas que percorre a península. Depois como é normal Saramago enfia os dedos nas feridas, com a sua típica voz irónica, mostrando tanto o melhor como o pior dos humanos – focando-se quase sempre mais no pior.

 

  Mas como estava a dizer, não ando com grande paciência para ler Saramago, ou melhor, não ando com grande paciência para ler este tipo de escritores. Estes que constantemente disparam em tangentes, simbolismos (por vezes um pouco forçados como me pareceu ser o caso neste livro livro) e divagações (o mais “straight forward” dos pouco que li dele deve ser o Memorial) o que se pode tornar bastante cansativo se uma pessoa não está com cabeça para tal. Houve alturas nesta Jangada de Pedra em que tive de me obrigar a ler, alturas em que bate muito na mesma tecla, houve muitas, muitas palavras que eu deveria ter procurado no dicionário, o que não fiz porque queria apenas que isto andasse para a frente.

 

  Enfim, está longe, bem longe, de ser o melhor dele – e eu digo isso tendo lido ainda poucos e tendo adorado alguns desses. No entanto há também momentos de genialidade, pequenos gestos, pequenas passagens, por vezes dezenas de páginas de uma vez, que passam sem darmos por elas. O melhor, como em tudo o que li dele, são sem dúvida os diálogos. Em livros de José Saramago não há diálogos normais, as personagens discutem e debatem sobre significados de palavras, de expressões, de sentimentos, de uma forma bastante bela e rara em literatura.

 

  Queria aqui deixar um desses diálogos. Já foi há dias que acabei de ler o livro e não sabendo bem o que procurar, abri e folheei um pouco ao calhas. Não foi difícil encontrar um bom exemplo que, acredito, faz sentido e dá para se perceber o que quero dizer mesmo sem contexto:

 

  “Novamente a caminho, sempre para o norte, em certa altura José Anaiço disse, era a Pedro Orce que se dirigia, A continuar assim vamos entrar em Espanha, voltamos à tua terra, A minha terra é a Andaluzia, Terra e país são tudo o mesmo, Não são, podemos não conhecer o nosso país, mas conhecemos a nossa terra, Já alguma vez foste à Galiza, Nunca fui à Galiza, a Galiza é terra doutros”.

Stephen King - A Cúpula

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  Após a leitura de alguns livros, fica-se com uma certa excitação do tipo “Raios partam! Melhor livro de todos os tempos!” Foi assim que fiquei após ler A Cúpula de Stephen King.

 

  No final há uma “nota do autor”, duas pequenas páginas com alguns detalhes e agradecimentos na qual, para começar, destaco a menção a Nan Graham, editora do livro, que aparentemente percebeu que Stephen King queria algo bem acelerado e cortou/editou tudo de forma a garantir o passo apressado que aqui se lê. Pode mover-se rapidamente mas é grande; nesta edição de bolso dividida em dois volumes, o primeiro deles tem, no total, 700 páginas e o segundo 655. No início do primeiro, antes de começar a prosa em si, temos uma lista relativamente grande das personagens de uma forma ou de outra mais importantes do livro. E a partir do momento em que há uma lista de personagens é porque vem aí algo longo, mas, como disse anteriormente e voltando um pouco atrás, rápido. Aliás, é surpreende o quão rápida A Cupula se move. Enfim, há livros que têm 100 páginas e parecem nunca mais acabar, este tem mais de 1000 e parece acabar cedo demais e de forma abrupta.

 

  Já falei muito sem mencionar o que se passa. A premissa é aparecer uma cúpula gigantesca à volta de uma pequenina cidade que mais parece uma grande vila. Nada entra, nada sai, tirando som e algum, ainda que ridiculamente pouco, ar e humidade. Dentro da cúpula o ar depressa fica bem malcheiroso não tendo a poluição atmosfera para onde subir e vento que a leve.

 

  Não há uma personagem principal mas sim uma boa porção delas. Há grupos e interesses diferentes. Após o aparecimento súbito e sem aviso da dita cúpula, que ninguém sabe explicar de onde ou como veio, sem ajuda exterior a cidade, de uma forma ridiculamente rápida, transforma-se numa espécie de ditadura militar em que o ditador é gordo, guardando sempre para amanhã a questão do controlo de peso e o tratamento dos vários problemas cardíacos que isso já lhe gerou juntamente com a idade, e o exército são uma data de adolescentes e “jovens adultos” sem qualquer espécie de treino e um gosto por vezes doentio em “fazer merda”. Depois vai-se também formando um pequeno grupo de “resistência” que não resiste coisa alguma, simplesmente não está de acordo com aquilo que o doente cardíaco anda a fazer. Enquanto o plano do ditador até parece bem constituído (excluindo a parte de não querer saber da cúpula em si para nada, apenas rezando a deus que a retire de lá após pôr em ordem os seus assuntos), o dos outros nem por isso, em parte porque são apenas um grupo de pessoas que se junta para fazer aquilo que pensam ser correto, apesar de não saberem como, em parte porque a história dura apenas cerca de uma semana.

 

  Uma semana! E uma semana chega para o ar ficar contaminado e poluído, para se formar todo um atabalhoado e armado batalhão de polícias, para um supermercado ser saqueado, para edifícios serem incendiados, pessoas assassinadas, dois presos, uma mulher violada, mais um ou outro tiroteio, mais uma ou outra pessoa morta, e até uma espécie de apocalipse. E depois é o final…mas os finais de Stephen têm tendência para, por vezes, serem um pouco… esquisitos… não é necessariamente o caso aqui, mas vamos ignorar.

 

  Voltando à nota do autor no final do livro, Stephen King diz que, apesar de ter sido lançado em 2009, tentou escrevê-lo pela primeira vez em 1976 e fugiu “com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho”, não devido à complexidade da história em si, com a quantidade enorme de personagens que a mim me assustaria imenso se o fosse tentar escrever, “mas pelos problemas técnicos” da situação, principalmente no que toca a detalhes e consequências ecológicas e meteorológicas que a cúpula em si geraria. O autor segue então agradecendo a um tal de Russ Dorr pela pesquisa necessária à história. É certo e óbvio que há imensa pesquisa por detrás de tudo isto, não só pelas mencionadas questões ecológicas, mas também sociais e políticas, e, entrando em pormenores, até em questões médicas e relativas a radiação e aos perigos desta.

 

  Quanto à escrita em si, o autor deixa muito daquilo a que em inglês se chama “hooks”. Vai acabando quase sempre os capítulos com uma frase ou uma expressão que nos faz querer saber o que vem a seguir, no entanto no capítulo seguinte vem uma outra personagem e a história anterior fica suspensa. Stephen King vai assim misturando as narrativas das várias pessoas que se vão cruzando. Mas posso deixar aqui aquele que talvez seja o meu exemplo favorito para explicar estes “hooks”. Mais ou menos a três quartos do livro há um capítulo que acaba com uma promessa: “Desde que não haja derramamento de sangue. (Ponto, Parágrafo). Nada de Sangue – Disse Joe”. Seguem-se algumas linhas descrevendo como para ali ficaram a falar baixinho durante a noite. Vira-se a página e o capítulo seguinte chama-se “Sangue por toda a parte”. Não sei se é o melhor exemplo dos inúmeros que aqui há, mas parece-me o mais óbvio de uma promessa de que algo grande se irá passar a seguir e que cola o leitor ao texto.

 

  Stephen King acaba os agradecimentos com uma frase que adorei, quase uma espécie de cereja (ainda que minúscula) no topo do bolo deste grande livro: “E a si, leitor fiel. Obrigado por ler esta história. Se se tiver divertido tanto como eu podemos considerar-nos afortunados.” Certamente foi esse o caso.

Pierre Loti - Madame Chrisanthème

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  Pierre Loti foi um oficial de alta patente da marinha francesa que, em 1885, passou cerca de dois meses e meio, entre Julho e Setembro, em Nagasaki, no Japão. Este livro, supostamente autobiográfico, relata os acontecimentos durante esse tempo.

 

  Começa com a sua chegada a Nagasaki. O que ele vai lá fazer ao certo, infelizmente nunca nos é dito, mas entende-se que a estadia no Japão faz parte do trabalho dele com a marinha. O que nos é dito, no entanto, é que ele tinha um sonho: casar com uma japonesa. Grande tara tinha este homem por quimonos no geral; por caras de olhos em bico e pele amarelada também.

 

  Pouco depois de chegar, o narrador vai ter com um homem que faz as vezes de vendedor de mulheres e, após lhe ter sido apresentada uma rapariga que, se bem me recordo deveria ter os seus 12 anos, deixando-o chocado por ser tão nova, o narrador acaba por escolher a irmã mais velha. Assim alugou ele uma mulher japonesa por vinte piastras por mês, seja lá isso quanto for. O “aluguer” de mulheres e a prostituição é algo bem batido no livro. Uma grande parte dos oficiais franceses que ali pára aluga mulheres com bastante facilidade, para depois se separarem delas (aparentemente fazia-se mesmo uma espécie de casamento e divórcio, assinavam-se papéis e tudo, qual contrato), para além de nos serem dados a conhecer casos de prostituição mais normal, que fora parte do negócio, há muitos anos atrás, dos que viriam a ser os senhorios do narrador. Tudo isso é descrito com bastante naturalidade e o mais politicamente correto possível, evitando praticamente sempre ferir suscetibilidades.

 

  O livro está escrito como um diário. Devo dizer que nunca gostei de livros escritos na primeira pessoa, mas este é capaz de me ter convertido. O narrador passa bastante bem os seus sentimentos para o papel, nomeada e especialmente o afastamento que sente em relação àquela cultura, o que é normal porque afinal não é a dele. Eu não sei explicar como ele o faz mas muitas vezes dá uma certa sensação de vazio como no filme “Lost in Translation” – que acidentalmente também se desenrola no Japão.

 

  No início do livro, numa nota do autor (aliás, uma carta a uma duquesa qualquer), o mesmo refere que “…as três principais personagens são: eu, o Japão, e o efeito que esse país produziu em mim” e isso é bem notório ao longo de todo o livro. O narrador desenvolve uma espécie de relação de amor-ódio (e tudo o que há entre os dois) para com o país. Tanto adora o cenário, as cores, os sons das guitarras japonesas, como não suporta nada disso. No entanto, na maioria dos casos e em grande parte do tempo, tudo lhe é indiferente, incluindo a própria mulher alugada, Crisântemo. Mas é das pessoas que ele menos parece gostar, notando toda a pequenez e hipocrisia desse povo que, em todo o caso, ou apenas para ele visto ser rico e estrangeiro, parece estar sempre a sorrir.

 

  Outra coisa que salta à vista é o quão turística Nagasaki é em 1885. Não só pelo negócio de jovens alugadas, que parece ser o sustendo de muitas famílias, mas também pelos restaurantes, pelas festas que decorrem à noite e até pelas pessoas que transportam os ricos. Parece que todos os empregos, todo o comércio local se centra em volta do turismo - ou, pelo menos, na satisfação da prazeres caros. Mas verdade é que, tratando-se Pierre Loti de um homem rico e estrangeiro, também não seria de esperar ver dali outra realidade.

 

  Enfim, assim nos são descritas paisagens (juro: nunca tive tanta vontade de viajar ao ler um livro), a cidade cheias de cores, objetos repletos das mais pequenas e detalhadas representações – especialmente pássaros por alguma razão, roupas estranhas também bastante coloridas, cerimónias e festas religiosas onde os locais colocam máscaras de animais, muitas, muitas lanternas de papel levadas na ponta de paus para alumiar o caminho, a arquitetura, os interiores das casas, brancas limpas e vazias, a gastronomia repleta de pratos e iguarias agri-doces, talvez demasiado açucaradas, uma indústria de papel que parece bem desenvolvida para o tempo e, por fim, como não podia deixar de ser e não será grande novidade para quem já tenha visto desenhos animados japoneses, o som de fundo constante do canto das cigarras que nunca acaba.

 

  No final da estadia, Pierre Loti tirou uma foto onde se pode ver ele mesmo, com o seu bigode, Yves, mais alto, o seu melhor amigo, e Crisântemo, sentada numa cadeira, com os pés virados para dentro seguindo as normas de beleza japonesa. Aqui está essa foto:

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