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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Stephen King - A Cúpula

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  Após a leitura de alguns livros, fica-se com uma certa excitação do tipo “Raios partam! Melhor livro de todos os tempos!” Foi assim que fiquei após ler A Cúpula de Stephen King.

 

  No final há uma “nota do autor”, duas pequenas páginas com alguns detalhes e agradecimentos na qual, para começar, destaco a menção a Nan Graham, editora do livro, que aparentemente percebeu que Stephen King queria algo bem acelerado e cortou/editou tudo de forma a garantir o passo apressado que aqui se lê. Pode mover-se rapidamente mas é grande; nesta edição de bolso dividida em dois volumes, o primeiro deles tem, no total, 700 páginas e o segundo 655. No início do primeiro, antes de começar a prosa em si, temos uma lista relativamente grande das personagens de uma forma ou de outra mais importantes do livro. E a partir do momento em que há uma lista de personagens é porque vem aí algo longo, mas, como disse anteriormente e voltando um pouco atrás, rápido. Aliás, é surpreende o quão rápida A Cupula se move. Enfim, há livros que têm 100 páginas e parecem nunca mais acabar, este tem mais de 1000 e parece acabar cedo demais e de forma abrupta.

 

  Já falei muito sem mencionar o que se passa. A premissa é aparecer uma cúpula gigantesca à volta de uma pequenina cidade que mais parece uma grande vila. Nada entra, nada sai, tirando som e algum, ainda que ridiculamente pouco, ar e humidade. Dentro da cúpula o ar depressa fica bem malcheiroso não tendo a poluição atmosfera para onde subir e vento que a leve.

 

  Não há uma personagem principal mas sim uma boa porção delas. Há grupos e interesses diferentes. Após o aparecimento súbito e sem aviso da dita cúpula, que ninguém sabe explicar de onde ou como veio, sem ajuda exterior a cidade, de uma forma ridiculamente rápida, transforma-se numa espécie de ditadura militar em que o ditador é gordo, guardando sempre para amanhã a questão do controlo de peso e o tratamento dos vários problemas cardíacos que isso já lhe gerou juntamente com a idade, e o exército são uma data de adolescentes e “jovens adultos” sem qualquer espécie de treino e um gosto por vezes doentio em “fazer merda”. Depois vai-se também formando um pequeno grupo de “resistência” que não resiste coisa alguma, simplesmente não está de acordo com aquilo que o doente cardíaco anda a fazer. Enquanto o plano do ditador até parece bem constituído (excluindo a parte de não querer saber da cúpula em si para nada, apenas rezando a deus que a retire de lá após pôr em ordem os seus assuntos), o dos outros nem por isso, em parte porque são apenas um grupo de pessoas que se junta para fazer aquilo que pensam ser correto, apesar de não saberem como, em parte porque a história dura apenas cerca de uma semana.

 

  Uma semana! E uma semana chega para o ar ficar contaminado e poluído, para se formar todo um atabalhoado e armado batalhão de polícias, para um supermercado ser saqueado, para edifícios serem incendiados, pessoas assassinadas, dois presos, uma mulher violada, mais um ou outro tiroteio, mais uma ou outra pessoa morta, e até uma espécie de apocalipse. E depois é o final…mas os finais de Stephen têm tendência para, por vezes, serem um pouco… esquisitos… não é necessariamente o caso aqui, mas vamos ignorar.

 

  Voltando à nota do autor no final do livro, Stephen King diz que, apesar de ter sido lançado em 2009, tentou escrevê-lo pela primeira vez em 1976 e fugiu “com o rabo entre as pernas depois de duas semanas de trabalho”, não devido à complexidade da história em si, com a quantidade enorme de personagens que a mim me assustaria imenso se o fosse tentar escrever, “mas pelos problemas técnicos” da situação, principalmente no que toca a detalhes e consequências ecológicas e meteorológicas que a cúpula em si geraria. O autor segue então agradecendo a um tal de Russ Dorr pela pesquisa necessária à história. É certo e óbvio que há imensa pesquisa por detrás de tudo isto, não só pelas mencionadas questões ecológicas, mas também sociais e políticas, e, entrando em pormenores, até em questões médicas e relativas a radiação e aos perigos desta.

 

  Quanto à escrita em si, o autor deixa muito daquilo a que em inglês se chama “hooks”. Vai acabando quase sempre os capítulos com uma frase ou uma expressão que nos faz querer saber o que vem a seguir, no entanto no capítulo seguinte vem uma outra personagem e a história anterior fica suspensa. Stephen King vai assim misturando as narrativas das várias pessoas que se vão cruzando. Mas posso deixar aqui aquele que talvez seja o meu exemplo favorito para explicar estes “hooks”. Mais ou menos a três quartos do livro há um capítulo que acaba com uma promessa: “Desde que não haja derramamento de sangue. (Ponto, Parágrafo). Nada de Sangue – Disse Joe”. Seguem-se algumas linhas descrevendo como para ali ficaram a falar baixinho durante a noite. Vira-se a página e o capítulo seguinte chama-se “Sangue por toda a parte”. Não sei se é o melhor exemplo dos inúmeros que aqui há, mas parece-me o mais óbvio de uma promessa de que algo grande se irá passar a seguir e que cola o leitor ao texto.

 

  Stephen King acaba os agradecimentos com uma frase que adorei, quase uma espécie de cereja (ainda que minúscula) no topo do bolo deste grande livro: “E a si, leitor fiel. Obrigado por ler esta história. Se se tiver divertido tanto como eu podemos considerar-nos afortunados.” Certamente foi esse o caso.

Pierre Loti - Madame Chrisanthème

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  Pierre Loti foi um oficial de alta patente da marinha francesa que, em 1885, passou cerca de dois meses e meio, entre Julho e Setembro, em Nagasaki, no Japão. Este livro, supostamente autobiográfico, relata os acontecimentos durante esse tempo.

 

  Começa com a sua chegada a Nagasaki. O que ele vai lá fazer ao certo, infelizmente nunca nos é dito, mas entende-se que a estadia no Japão faz parte do trabalho dele com a marinha. O que nos é dito, no entanto, é que ele tinha um sonho: casar com uma japonesa. Grande tara tinha este homem por quimonos no geral; por caras de olhos em bico e pele amarelada também.

 

  Pouco depois de chegar, o narrador vai ter com um homem que faz as vezes de vendedor de mulheres e, após lhe ter sido apresentada uma rapariga que, se bem me recordo deveria ter os seus 12 anos, deixando-o chocado por ser tão nova, o narrador acaba por escolher a irmã mais velha. Assim alugou ele uma mulher japonesa por vinte piastras por mês, seja lá isso quanto for. O “aluguer” de mulheres e a prostituição é algo bem batido no livro. Uma grande parte dos oficiais franceses que ali pára aluga mulheres com bastante facilidade, para depois se separarem delas (aparentemente fazia-se mesmo uma espécie de casamento e divórcio, assinavam-se papéis e tudo, qual contrato), para além de nos serem dados a conhecer casos de prostituição mais normal, que fora parte do negócio, há muitos anos atrás, dos que viriam a ser os senhorios do narrador. Tudo isso é descrito com bastante naturalidade e o mais politicamente correto possível, evitando praticamente sempre ferir suscetibilidades.

 

  O livro está escrito como um diário. Devo dizer que nunca gostei de livros escritos na primeira pessoa, mas este é capaz de me ter convertido. O narrador passa bastante bem os seus sentimentos para o papel, nomeada e especialmente o afastamento que sente em relação àquela cultura, o que é normal porque afinal não é a dele. Eu não sei explicar como ele o faz mas muitas vezes dá uma certa sensação de vazio como no filme “Lost in Translation” – que acidentalmente também se desenrola no Japão.

 

  No início do livro, numa nota do autor (aliás, uma carta a uma duquesa qualquer), o mesmo refere que “…as três principais personagens são: eu, o Japão, e o efeito que esse país produziu em mim” e isso é bem notório ao longo de todo o livro. O narrador desenvolve uma espécie de relação de amor-ódio (e tudo o que há entre os dois) para com o país. Tanto adora o cenário, as cores, os sons das guitarras japonesas, como não suporta nada disso. No entanto, na maioria dos casos e em grande parte do tempo, tudo lhe é indiferente, incluindo a própria mulher alugada, Crisântemo. Mas é das pessoas que ele menos parece gostar, notando toda a pequenez e hipocrisia desse povo que, em todo o caso, ou apenas para ele visto ser rico e estrangeiro, parece estar sempre a sorrir.

 

  Outra coisa que salta à vista é o quão turística Nagasaki é em 1885. Não só pelo negócio de jovens alugadas, que parece ser o sustendo de muitas famílias, mas também pelos restaurantes, pelas festas que decorrem à noite e até pelas pessoas que transportam os ricos. Parece que todos os empregos, todo o comércio local se centra em volta do turismo - ou, pelo menos, na satisfação da prazeres caros. Mas verdade é que, tratando-se Pierre Loti de um homem rico e estrangeiro, também não seria de esperar ver dali outra realidade.

 

  Enfim, assim nos são descritas paisagens (juro: nunca tive tanta vontade de viajar ao ler um livro), a cidade cheias de cores, objetos repletos das mais pequenas e detalhadas representações – especialmente pássaros por alguma razão, roupas estranhas também bastante coloridas, cerimónias e festas religiosas onde os locais colocam máscaras de animais, muitas, muitas lanternas de papel levadas na ponta de paus para alumiar o caminho, a arquitetura, os interiores das casas, brancas limpas e vazias, a gastronomia repleta de pratos e iguarias agri-doces, talvez demasiado açucaradas, uma indústria de papel que parece bem desenvolvida para o tempo e, por fim, como não podia deixar de ser e não será grande novidade para quem já tenha visto desenhos animados japoneses, o som de fundo constante do canto das cigarras que nunca acaba.

 

  No final da estadia, Pierre Loti tirou uma foto onde se pode ver ele mesmo, com o seu bigode, Yves, mais alto, o seu melhor amigo, e Crisântemo, sentada numa cadeira, com os pés virados para dentro seguindo as normas de beleza japonesa. Aqui está essa foto:

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Três contos de Beatrix Potter

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  Recentemente estreou nos cinemas um filme chamado “Peter Rabbit”. Pelo trailer não parece muito bom. Não conheço bem a personagem, sei apenas que vive numa quinta que na verdade pertence a um tal de senhor Gregório, a quem o “Pedrito Coelho” faz a vida negra. A personagem foi criada por Beatrix Potter, que editou uma data de contos infantis durante a primeira metade do século passado. Aqui o que eu acho singular é que ela não só escreveu, como ilustrou os seus livros. Não me recordo de nenhum outro autor que tenha feito as duas coisas à escala que esta senhora fez. E talvez a ilustração seja até a melhor parte, mas pessoalmente não me interessa tanto quanto as palavras escritas… Para mais informações sobre a autora vejam este post:

https://pantano.blogs.sapo.pt/o-imaginario-mundo-de-beatrix-potter-40769.

 

  Foi na biblioteca que estes três pequenos livros foram requisitados da secção dos mais novos. São bem pequeninos e leem-se rapidamente. Literatura para adolescentes há a montes, e algumas coisas muito boas lá pelo meio, mas infantil…? Eu não percebo histórias infantis. Não há enredo, não há objetivo, e pior do que isso, nem parece haver um sentido. Mas vamos lá por ordem de leitura.

 

  O primeiro deles que li foi “A história da Senhora Rata Migalha”. Esta rata migalha só quer ter uma casa limpa e em ordem, mas todo o tipo de bicharada entra lá constantemente, sujando-lhe tudo. O que ela menos gosta, e que a visita, é um sapo que vem dos esgotos e deixa tudo cheio de pegadas. No entanto o sapo afugenta-lhe todos os outros bichos da casa. Depois de ele ir embora, com musgo e paus, a rata migalha tapa parte da entrada da porta de modo a que o grande sapo nunca mais possa entrar. Aí ela limpa a casa e dá uma festa convidando os ratos da vizinhança… Nem nexo  nem moral a meu ver.

 

  Já “A História dos Coelhinhos Flopsi”, primos do coelho Pedrito já agora, e que não tendo muita comida em casa decidem ir alimentar-se por aí...alimentar-se de alface do caixote do lixo do senhor Gregório. Aparentemente a alface dá sono aos coelhos deste livro e é a dormir que o senhor Gregório os apanha. O agricultor lá pensa que já tem almoço, mete-os num saco que fecha e deixa sozinho durante uns minutos. Tempo suficiente para os coelhos se escapulirem, encherem o saco de coisas podres e ficar a ver a reação da mulher do senhor Gregório quanto abre o saco… Mais uma vez parece não haver nada que valha a pena ler aqui. Ou não sei, eu não vejo nada que valha a pena.

 

  Por fim temos “A História do Esquilo Trinca-Nozes” que tem até o seu quê de macabro. O trinca-nozes é..é um otário…que vai ser castigado. Portanto junto da casa dos esquilos fica um lago, no centro do qual há uma pequena ilha onde vive uma coruja, e nessa ilha há uma série de nogueiras. Para não serem comidos pela coruja, os esquilos levam-lhe sempre comida, e em troca ela deixa-os apanhar nozes. Mas o trinca-nozes nunca lhe leva nada, só goza e faz pouco dela. Nem sequer na recolha de alimento participa. Como castigo, a certa altura a coruja já farta dele apanha-o, supostamente para o comer. Ele lá consegue fugir, as fica sem cauda. Aliás, é assim que o livro começa: “Esta é a história de uma cauda”.

 

  Não é que os livros tenham de ter uma moral, aliás, isso na maior dos casos só prejudica uma história, mas estas pelo menos podiam ter nexo. Especialmente a da Senhora Rata Migalha…é que não tem ponta por onde se lhe pegue. Já a do Trinca-Nozes parece apenas um castigo absurdo. Como disse no início, acho que o mais bonito destes livros são os desenhos de Beatrix Potter. Abaixo deixo o exemplo talvez do meu favorito destes três livros: os esquilos a irem para a ilha, em jangadas de pauzinhos e com as caudas a servir de velas.

  Talvez estes contos façam parte de uma imagem maior, até porque os livros assemelham-se a pequenos episódios e muitas das personagens parecem aparecer com alguma frequência, e daí eu não estar a ver o sentido de nada disto. Eu sei é que achei, por exemplo, Os Contos de Beedle O Bardo, da JK Rowling um livro excecional. E são contos infantis que fazem parte de um universo ficcional criado pela escritora.

Germaine Acremant - As Solteironas dos Chapéus Verdes

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  Este livro remete-nos para algures no século 19 (presumo eu…), altura em que se começam a ver mais carros pelas ruas de França, e onde uma mulher solteira era, aparentemente, bastante mal vista. Ou melhor, o próprio livro passa bastante essa ideia, de que a “verdadeira vida”, para uma mulher, começa apenas após casar-se.

 

  A autora faz uma coisa bem, e muito bem, da qual eu gostei bastante, que é ridicularizar a banalidade de vários gestos e costumes tolos, focando-se bastante nos mais pequenos movimentos, ações, palavras e descuidos. Mas vamos primeiro vamos à história em si. A personagem principal é Arlete, uma jovem proveniente de uma família rica que perde todo o seu dinheiro, o que leva o pai a suicidar-se e o irmão a ir trabalhar para outro país. Ela quer ir com ele, mas basicamente não pode por ser mulher, e acaba por sair de Paris, onde vivia, para ir morar para uma terriola pequena com quatro tias solteiras, as tais “Solteironas dos chapéus verdes”. As quatro são descritas como… ridículas, por vezes pelo simples facto de não estarem casadas, mas principalmente pelos seus costumes. Vivem de forma bastante recatada, de hábitos e rotinas rígidas, são bastante religiosas, indo todos os dias à missa, muito senhoras de si, más-línguas, um pouco orgulhosas e presunçosas, torcendo o nariz a tudo o que seja “modernice” ou espalhafatoso.

 

  Parece fazer-se pouco destas quatro mulheres pelo simples facto de estarem solteiras, como se isso fosse algo mau em si, e chega-se até a tentar justificar, ainda que muito levemente, o porquê disso. Com o passar do tempo vamos conhecendo-as melhor e a própria Arlete se vai habituando a elas aos poucos, mas a verdade é que de uma forma ou de outra, sem dependerem de mais ninguém, neste caso de um homem visto isto se focar tanto no casamento, são independentes. Em todo o livro há duas situações apenas (que eu tenha apanhado) onde se dá a entender que elas são costureiras, penso eu, mas nunca nos é dito diretamente, no meio de todos os hábitos que são passados por ridículos, como elas ganham a vida, mas é certo que não se dão nada mal, tendo até dinheiro para ter uma empregada permanentemente em casa. É outra coisa que me irrita um pouco, e que já mencionei algumas vezes por este blogue: não se falar de dinheiro. As pessoas simplesmente ou são ricas ou pobres, e seja qual for o caso muito raramente se explica de onde o sustento provém, e mais raramente ainda isso é algo central numa história, tirando às vezes para criar conflitos vindos do nada. Há apenas uma minoria de escritores que o faz bem. Mas enfim, só essa questão dava para um post bem grande.

 

  Vindo a protagonista da capital para a província para viver com gente recatada e sossegada, há aqui bastante atrito e ela tem alguma dificuldade em adaptar-se a uma vida mais calma. Tanto quanto nos é dito nunca ninguém a põe a trabalhar seja no que for, o que mais uma vez acumula à falta de justificação do sustento daquela casa. A protagonista começa então a fazer de casamenteira pois descobre que uma das tias esteve no passado interessada por um professor que ali vive perto. Arlete conhece também um jovem bem rico, com castelos e tudo, por quem se apaixona após duas pequenas conversas (como acontece sempre neste tipo de livros) e com quem no fim acaba por casar depois de umas quantas confusões, trocas e baldrocas, e é assim que acaba o livro…o que é importante pois o maior medo dela, no que toca a viver com as tias, era que a “solteirice” se pegasse.

 

  Enfim, a independência feminina no livro parece ser algo a que se torce o nariz. A vida a sério, como disse acima, só começa a ser vivida, e isto é-nos dito diretamente pela mais velha das “solteironas”, após o casamento. Eu não sei mas este tipo de histórias choca sempre comigo em vários, vários sentidos. No entanto quero terminar o post na que é sem dúvida a melhor parte, a que torna “As Solteironas dos Chapéus Verdes” algo que vale a pena ler: a quantidade de comédia que Germaine Acremant consegue criar em situações banais. Vou deixar um dos exemplos de que mais gostei: Lá para o fim do livro as solteironas são visitadas pelo senhorio, bastante rico e cujo filho é quem vai acabar por casar com Arlete. Estando elas na sala, quando ouvem a campainha sobem as escadas a correr e vão para os seus quartos. Isto porque fica mal às senhoras da casa abrir a porta ao visitante. Não: dizem as regras que deve ser a empregada a abrir a porta, a anunciá-lo, e a chamá-las de longe para o virem receber. Mas quando esta abre a porta apenas diz ao homem algo como “não sei onde elas se meteram, mesmo agora aqui estavam”.

Zombies e Walking Dead (A Estrada de Woodbury - Robert Kirkman e Jay Bonansinga)

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  Quem acompanhe a série de televisão ou leia as bandas desenhadas certamente se lembra do “Governador”, Philip Blake, e certamente se lembrará também da sua cidade, Woodbury. Enquanto na série, inicialmente, Woodbury nos é mostrado como uma espécie de utopia com umas quantas particularidades não muito bonitas, nas bandas desenhadas é podre desde o início. E é essa a Woodbury que aqui vemos. Mas só lá se chega já depois da centésima página.

 

  É possível que quem siga a série e não saiba da existência deste livro fique contente, mas ficará mais ainda em saber que é o segundo de uma série que segue a história desta cidade. Mas mesmo que não sigam ou não saibam absolutamente nada de Walking Dead, não há problema pois seguimos aqui personagens diferentes com uma nova história; nem sendo este o segundo livro, precisam ler o primeiro.

 

  Confesso que até gosto e sigo a série. Esta ideia dos zombies, por mais tola que seja e mesmo não fazendo sentido nenhum, já tem dado pano para mangas e não faltam para aí histórias envolvendo um futuro onde algo acontece e os mortos começam a andar e a comer pessoas. Por vezes apenas cérebros de pessoas, o que é tipo…a cereja no topo do bolo da tolice, mas ei, não é como se não se pudessem criar histórias e personagens interessantes sob uma premissa tola. Premissas tolas não faltam por aí. E só faço questão de o dizer porque já houve tanta história disto que aparentemente há uma certa “má” reputação aqui. Mas desde o filme “Night Of the Living Dead” que saiu em 1968 relizado por George Romero, tido como o filme que popularizou em massa a própria ideia dos zombies, já foram feitas muitas histórias até decentes pegando neste tópico. E assim se chega ao livro “A Estrada de Woodbury”.

 

  Passa-se em Atlanta – nos arredores de - e seguimos principalmente Lily, uma jovem inicialmente meio medricas que se vai escondendo atrás destes ou daqueles. No começo as personagens estão num grande acampamento com mais de uma centena de pessoas onde há até uma tenda gigante de circo. Sendo Walking Dead lá acontece merda, lá Lily e o seu grupo se vão embora e depois de alguns meses e muitas peripécias, lá acabam por chegar a Woodbury, uma pequena cidade com uma muralha à volta, que está a ser expandida, e onde vivem cerca de cinquenta pessoas, das quais apenas doze são mulheres e apenas quatro dessas não são idosas – e se isto não é uma receita para o desastre…

 

  Há duas coisas que me incomodaram bastante neste livro: Em primeiro lugar, há uma personagem que trata Lily sempre como “boneca” ou “querida”, ou ainda, “pequena”, mas principalmente “boneca”. E essa palavra é repetida muitas, muitas vezes. Antes de mais quem é que vai tratar sempre alguém por “boneca”? Não sei…se calhar até é comum, mas não deixa de me incomodar. A segunda coisa é a seguinte: a certa altura estabelece-se que as personagens em Woodbury trabalham em troca de comida e outros bens, e a certa altura deixa-se de trabalhar… e nunca mais ninguém refere de onde provem a subsistência da personagem principal. Eu sei que em ficção por norma dinheiro nunca falta e vai-se dar a volta ao mundo com cinco tostões se for preciso, mas se o autor faz questão de estabelecer que, dia após dia, é assim que as personagens vivem e é assim que arranjam bens de consumo, havendo aqui uma quebra se calhar era melhor explicar também o que acontece depois. Uma frase ou duas bastaria. Não sei. Curiosamente também nunca mais mencionam especificamente (ou se o fazem eu não apanhei) a passagem do tempo e quem quiser defender o livro pode dizer que a partir dai toda a história se passa no máximo em dois ou três dias, mas lendo o livro tal também não faz sentido.

 

  Resumindo, não é o melhor livro de todos os tempos mas não é de todo um mau livro, e recomendo-o não só a, mas a todos os que gostem destes temas. É curioso como isto dos zombies se assemelha a “settings” de guerra, sendo um bom ambiente para colocar personagens em situações extremas, levando-as a extremos. E podem crer que aqui isso acontece!

Frederik Pohl - Ó Pioneiro!

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   É sempre bom quando as histórias se focam no quão pequeno o ser humano é, muitas vezes nas mais ridículas coisas. Sejam segredos que não o deviam ser, sejam artimanhas de uns que prejudicam outros, sejam as más-línguas que nunca param de trocar ideias, sejam cobardias ou arrogâncias. E quando estas coisas se atribuem não a indivíduos mas a dramas e sistemas políticos ficcionais…temos histórias como esta, “Ó Pioneiro!” de Frederik Pohl.

 

   O protagonista da história é-nos apresentado como um daqueles génios informáticos que, por serem génios informáticos, conseguem “hackear” tudo e mais um par botas e ter toda a informação do mundo em três segundos. Estas personagens irritam por simplesmente as coisas não funcionarem assim (digo eu…) mas enfim, passam-se décadas e as histórias de ficção científica e não só continuam a publicitar estes seres inexistentes que têm especial piada naqueles filmes tolos em que parece bastar a uma pessoa escrever rápido num computador para se ser um deus da informática e conseguir tudo o que se quer. Isto por si só, usado mais que uma vez neste livro, é talvez o pior defeito que lhe consigo pôr. Mas adiante.

 

   A história propriamente dita passa-se num futuro um pouco distópico, mas do qual não vemos quase nada tirando alguns detalhes no início do livro. Isto porque tudo se passa num outro planeta, apelidado pelos humanos como “Tupelo” para onde a nossa personagem principal, de nome Evesham Giyt vai viver após responder a um anúncio de uma tal de “Sociedade de Amplitude da Terra” que anda a recrutar pessoas para colonizar o novo planeta. A viagem em si é feita através de um conveniente portal de ida e volta, e quando se chega lá a sociedade do planeta e a cidade onde ainda muito pouca gente vive tem aspeto de postal americano dos anos 50, onde as famílias vivem alegremente numa espécie de subúrbio rico onde as donas de casa vão oferecer bolos aos recém-chegados, vestidas com aventais bem limpos e de sorriso rasgado na cara.

 

   Mas os humanos não estão lá sozinhos. Quatro outras espécies alienígenas vivem ali, desde uma espécie de papa-formigas, até lesmas, passando por uma versão de primatas bem mais pequenos que os humanos. Para todos eles Tupelo é o “planeta da paz” e o planeta está organizado por secções que vamos vendo à medida que Giyt, que se torna presidente da câmara, passa por elas. Há preconceitos e conflitos entre as espécies que nos entretêm durante várias páginas, e cada uma está mais encarregada que as restantes de uma determinada especialidade. Uns da energia, eletricidade e não só, outros da construção e manutenção de infra-estruturas, desde casa a hospitais…já os humanos, tidos como os menos inteligentes, e certamente os menos tecnologicamente avançados, estão encarregados principalmente da produção alimentar, da agricultura.

 

   Há ressentimentos, mentiras e esquemas manhosos, e é aqui que entra tudo o que indiquei no primeiro parágrafo, enquanto o nosso protagonista, que só quer ter uma vida calma e descontraída, tenta distinguir a verdade da mentira e da meia mentira.

 

   Não é um livro muito grande, na verdade tem o tamanho ideal, e, apesar de ter várias falhas, há bastante tempo que não me empolgava tanto a ler um livro. Livro esse que, vim a descobrir, parece ser dos piores do autor. Se algum dia der de caras novamente com Frederik Pohl digo como correu.

Stephen King - O Jogo de Gerald

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  Tirando o facto de que gosta de amarrar a esposa à cama durante actos sexuais, a personagem de Gerald, que dá o nome ao livro, pouco ou nada interessa aqui. Interessa sim a sua esposa, Jessie, personagem principal do livro, que se vê de braços abertos, presa a uma cama por algemas das quais não consegue sair, com o marido morto, após um ataque cardíaco, ao lado da cama. E isto numa casa de “campo” isolada e longe de tudo. E parecendo que não a luta da mulher para dali sair é 90% do livro.

 

  Stephen King alonga-se então em pormenores, descrições e flashbacks da vida dela enquanto nos vai mostrando o que se passa nos seus pensamentos criando “vozes” na cabeça dela. A casa fica junto a um lago e no início são-nos descritos os sons que rodeiam a casa de Jessie, em específico uns pássaros, uma moto-serra e um cão que mais tarde vai aparecer, esfomeado como tudo e começando a encher a barriga com o marido de Jessie, uma vez que as portas da casa estão todas abertas e passam o tempo todo a bater devido ao tempo. Stephen King até a história do cão conta.

 

  Não é um livro para todos, nem que seja só pela sua simplicidade, mas é bastante forte. Nunca eu sofri tanto com a personagem de um livro como aqui, acompanhando a luta de Jessie, enquanto ela revive o passado, enquanto sofre, se magoa, se cansa, se impressiona, se corta, se esvai em sangue e se vai definhando com sede. Já para não falar de visitas de figuras negras que ela associa tanto à figura da própria morte, como a alucinações que a deixam ainda mais desesperada.

Ian Watson - O Livro do RIo

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“E assim o Blue Guitarprosseguiu na direcção do meu local de encontro com a cabeça da lagarta – enquanto, a trezentas léguas de distância, tinha começado uma guerra.”

 

  Que se pode dizer sobre o Livro do Rio? É aborrecido, maçante, um tanto cansativo e não está lá muito bem escrito. Introduz trinta personagens que parecem pouco mais que nevoeiro, não passamos tempo suficiente com elas e confundi-mo-las quase todas. A história passa também por um bom número de cidades, cada uma delas descrita com particularidades próprias, mas o problema é o mesmo e, a não ser que leia segunda vez, confunde-se tudo. Ou talvez eu não estivesse a ler com a devida atenção porque, afinal, como comecei por dizer, achei o livro um pouco aborrecido. Não é muito grande, no entanto demorei bastante tempo a lê-lo (e mais ainda a fazer este post). Está cheio de palavras rebuscadas que não conheço e que, confesso, na maior parte dos casos, nem me dei ao trabalho de procurar no dicionário porque só queria despachar o livro.

 

  Mas se é assim, porque o li eu até ao fim? Curiosidade e interesse no mundo que o autor, Ian Watson, aqui criou. O livro está escrito na primeira pessoa e é com os olhos da personagem principal, de nome Yaleen, que vemos este…bem, eu não se é suposto ser um vale ou…enfim, chamemos-lhe porção de terra habitada por seres humanos. Esta porção de terra está dividida por um rio de uma largura absurda no centro do qual passa a “corrente negra”. A corrente negra não é apenas uma nhaca viscosa e preta que passa no centro do rio, mas sim um organismo, uma entidade, uma espécie de bicho, um ser que por alguma razão não deixa ninguém atravessar o rio e só deixa os homens passear por água uma vez na vida. Yaleen vive do lado oriental desta corrente, onde, ao longo do rio, se desenvolveram cidades economicamente prósperas que usam os barcos de transporte da “guilda do rio” – onde a protagonista trabalha – para as suas trocas, vendas e compras de mercadorias. Numa dessas cidades há uma data de gente curiosa em saber o que está do outro lado do rio, do lado ocidental, e começam a construir telescópios. A certa altura descobrem, lá bem longe, uma aldeia onde todos se vestem de preto e queimam mulheres vivas. A nossa protagonista acaba, por vontade da corrente negra, a ir passar algum tempo ao outro lado do rio (note-se que, de acordo com o que sabemos, é a segunda pessoa a alguma vez conseguir atravessar porque a corrente negra literalmente afoga todos os que tentam) para descobrir uma cultura machista e, diga-se de passagem, fanaticamente religiosa. Eventualmente é mais ou menos revelado o que é a corrente, a espécie de bicho viscoso com milhares de metros lá começa a mover-se, as duas civilizações entram em guerra, há algumas divagações e conversas sobre a origem da vida, e cabe a Yaleen resolver toda esta trapalhada.

 

  E por isto é que eu adiei este post: porque esta maradice não soa muito bem e posso dizer que é bem melhor e mais bem estruturado do que talvez possa parecer. No fim de contas livros como este, independentemente do quanto eu tenha ou não gostado, são bons exemplos das viagens e dos mundos que se podem criar e mostrar através de literatura, pois essas páginas que estão por baixo dessa capa azul não funcionariam em nenhum outro tipo de meio e/ou adaptação. Ou pelo menos eu não vejo como funcionariam...

Evelyn Anthony - O General

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  Este livro foi editado pela primeira vez em 1972 sob o título The Poellenberg Inheritance, o que só interessa pois me parece bem mais fácil falar do livro começando por aí. A herança Poellenberg é uma obra de arte ficcional, uma escultura feita por Benvenuto Cellini em ouro maciço com “…noventa e um centímetros de altura, cravejada com cento e dezoito diamantes, oitenta e três rubis, cento e cinco safiras e vinte e cinco pérolas barrocas de tamanho grande.” Esta “Taça de Poellenberg” vale milhões e entrou na posse da família alemã Von Hessel no final do século dezassete. Durante a segunda guerra mundial foi “saqueada” pelos alemães e desde então nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima.

 

  Seguem-se aqui algumas personagens sem haver uma principal. Conhecemos a família Von Hessel, que, como já disse em cima, existe pelo menos desde o séc 17 mas parece ser bem mais antiga, que tem em sua posse uma fortuna e dirige várias empresas e fábricas tendo acumulado fortuna vendendo armamento em várias guerras e, como não podia deixar ser, à Alemanha durante a segunda guerra. Esta família é liderada por Margaret Von Hessel com um punho de aço e sem sentimentalismos. A velhota Margaret, ao contrário dos filhos – o que por si só já gera alguns conflitos – quer reaver a Taça Poellenberg e contrata os chefes de uma empresa de detetives privados, Eric Fisher e Dunstan, para a encontrar. Eric Fisher é quem primeiro se encarrega de tal e, seguindo várias pistas há muito definidas no livro por esta altura, chega a Paula Stanley, que vive em Inglaterra e é filha do “General” que dá o titulo ao livro. Era General da S.S. alemã durante a segunda-guerra e, ao contrário de outros, aprisionados ou condenados à morte, este homem que estava no “topo” do exército alemão é tido como morto por todos e vive em exílio em Espanha sob uma identidade diferente. E, passados não sei quantos anos, o general volta a aparecer em público pois descobrindo Paula, a filha, decide dar-lhe a taça de Poellenberg que ele escondeu desde os tempos da guerra e que vê como uma herança que deve ir para às mãos da filha por meios legais (em cima a palavra saqueada estava entre aspas).

 

  Como escrevi há pouco o livro não tem propriamente uma personagem principal mas foca-se bastante em Paula, o que é curioso pois é uma personagem bastante fraca que depende e anda sempre atrás de outros. Ação da parte dela não há muita, mas no final de contas não é problema nenhum, pois ação no geral não falta. Se eu algum dia escrever um livro, gostaria que fosse algo como este...quem sabe...mas enfim, é um livro rápido em que vamos seguindo intercaladamente as várias personagens, acompanhando os seus dramas, as ações e decisões que ancoram a história. Pessoalmente não gosto de romances históricos, não são algo que me chame a atenção, muito menos histórias relacionadas com a segunda guerra mundial, talvez por as haver aos milhares, e eu pensei que este livro fosse um pouco estas duas coisas. Para quem não está interessado, não se preocupem pois não é nada assim, felizmente. Em inglês usa-se a expressão "page turner", "vira-páginas", o que O General certamente é.

Dádivas de arroz e épocas festivas

  Estas épocas festivas de Natal e Ano Novo são sempre um pouco bizarras. As pessoas juntam-se em famílias para comer e trocam prendas, lembrando-se daqueles que estão longe e nos quais não pensam duas vezes durante o resto do ano. O ambiente familiar por norma é um pouco constrangedor, estando-se na companhia de gente que não se conhece muito bem, que só se encontra em raras ocasiões e a quem se vai contando uma ou outra novidade ou desavença que a vida vai trazendo. Depois vem a passagem de ano… eh… já viram noticiários na passagem de ano? Metade é passada a mostrar extravagantes festas, espetáculos de fogo-de-artifício que custam balúrdios por esse mundo fora, pessoas contentes a beber a uma vida melhor, a um ano melhor, a um futuro melhor; a outra metade a falar em aumentos de impostos.

 

   Mas também é tempo de pensar nos outros, em pessoas desconhecidas que, no geral, por uma ou outra razão, se encontram em piores condições de vida que nós. São feitas doações à caridade, há o Natal nos hospitais, nas prisões, há grandes refeições para os sem-abrigo, há gente que faz dádivas de sangue e medula pela primeira vez. Confesso que não faço a mais pequena ideia do que para aí há este ano, mas são sempre feitas angariações de fundos para instituições, campanhas para estes, para aqueles, espalhadas pelos centros das cidades, pelos centros comerciais e atualmente até pelas operadoras de telecomunicações. No Verão lembro-me ter recebido uma mensagem à qual a resposta teria um custo que reverteria em favor dos bombeiros. Com este tipo de campanhas feitas diretamente por este tipo de entidades como é o caso de supermercados por exemplo, independentemente do que seja feito são sempre eles que mais ganham, o que é muito feio tendo em conta que estão a ganhar em nome de…por exemplo os sem-abrigo, ou a cruz vermelha ou algo, sei lá. Enfim, de boas intenções... O mundo é um sítio estranho cheio de desequilíbrios e desavenças, sejam elas económicas, políticas, religiosas, sociais ou pessoais, em que os envolvidos andam na luta constante pela sardinha. E não é que atual campeã de xadrez do mundo perdeu o título por o campeonato se estar a realizar na Arábia Saudita e ela não querer participar por a obrigarem a usar os ridículos trajes deles? Aparentemente nem a deixariam sair de casa sem um homem a acompanhá-la. Não vou opinar se fez bem em não ir mas credo! Este caso em específico tem andado muito em voga por aí nas redes sociais.

 

  Recentemente li um pequeno conto chamado Arroz do Céu, escrito por um tal de José Rodrigues Miguéis que, como se pode ver pela imagem em baixo, foi aqui vendido como um conto juvenil (orientado para o 7º ano de escolaridade) cheio de letras grandes e ilustrações não muito boas. Armando-me em pseudo-intelectual o conto é uma espécie de alegoria da caverna com implicações religiosas. Conta a história de um “limpa-vias” que limpa o chão do metro e a certa altura começa a encontrar arroz no chão. Enquanto imigrante que nem sabe falar a língua, o nosso homem do lixo não vive nas melhores condições de vida e, vendo aquele arroz como uma dádiva divina, começa a apanhá-lo do chão, levando-o para casa para alimentar a esposa e os filhos. O que ele não sabe, nem se questiona sobre isso, é que por cima de onde trabalha fica uma glamorosa igreja que serve de escolha de eleição para os casamentos de classes mais altas. O arroz que é atirado ao ar sem pensar duas vezes por cima dos noivos, e o que não é comido pelos pombos é então varrido para os respiradores e sarjetas para acabar por alimentar a família do nosso limpa-vias. Para ele é um presente de deus, e assim reza para que continue a chover arroz. Não sou de forma alguma uma pessoa religiosa mas como se diz por essas igrejas fora, coitados dos ricos que dos pobres é o céu!

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Podem ser sempre os mesmos a ganhar mas pode também ser que uns cêntimos aqui e ali, que servem mais para quem os dá se sentir bem que qualquer outra coisa, façam realmente alguma diferença, não sei.  Mas chega de divagações tolas e infantis! O Natal já passou mas boas festas para todos e bom ano novo!

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