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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Pessoas nos empregos errados

...há muitas por aí. Ou por vezes não é a questão do emprego certo, podem simplesmente estar a ter um mau dia, afinal todos os temos, ou não lhes apetecer trabalhar, quiçá terem uma grande dor de cabeça, ou outras mil e uma situações. De uma forma ou de outra acho um pouco ridícula a pessoa que estando na biblioteca não faz a mais pequena ideia do "layout" do sítio e não sabe responder a nada.

  No outro dia estava eu num café e alguém questionou o empregado de mesa se tinham pastilhas sem açúcar, ao que o homem virou as costas ainda antes de responder e resmungou em voz alta "Sei lá eu se têm açúcar ou não. Nunca as provei!" E lá foi ele ignorando quem fez a pergunta.

  Exemplos estes talvez um pouco tolos. Especialmente nos serviços públicos (finanças principalmente por experiência própria) as pessoas parecem não estar a trabalhar nos sítios certos. Talvez por falta de vontade, talvez por cansaço, mas seja lá qual o for o motivo, irrita, e aquela do homem do café irritou-me.

Comida de laboratório

  Há quem diga que gostos não se discutem. Há quem diga que gostos são a única coisa que se discute. Para mim já lá vão os tempos em que os tinha bem definidos, e mais ainda, já lá vai o tempo em que tinha paciência para os discutir. Agora tudo se transforma numa espécie de mancha indefinida. Sei distinguir o que me agrada do que não me agrada e não tenho paciência para defender esta ou aquela posição.

 

  Apesar de ser um pouco idílico e tolo, porque afinal todos temos preconceitos, gosto de pensar que me identifico com a tal frase do livro do desassossego “Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado.” As pessoas parecem sempre procurar algo com que se identificar, para serem diferentes, para se imporem, para serem especiais, talvez chicos-espertos, eu lá sei… Simplesmente não há paciência para isso. Talvez seja problema meu, perdido na vida sem saber o que quero.

 

  Seja como for, já fui uma pessoa de gostos, que discutia coisas tolas e defendia ideias disto e daquilo. Nesses tempos, quando se falava de cinema, um dos realizadores que mais me agradava era Terry Gilliam. Entre outros realizou um filme chamado Brazil em que numa das sequências mostrava um grupo de pessoas a jantar num restaurante. Pedissem o que pedissem, a comida servida eram umas bolas (tipo bolas de gelado) de cores diferentes. Seja bife de vaca, seja pato com batatas fritas, mudava apenas a cor e o sabor.

 

  Ontem no supermercado comprei uns nuggets que diziam ter “proteína láctea”. Eu sei, eu sei, de toda a porcaria de compostos que metem na comida (especialmente a embalada) nos dias de hoje, é “proteína láctea” que me faz confusão e me deixa a pensar…muito tolo da minha parte. Levou-me a pensar no quão longe estamos da realidade daquele filme que vi há tantos anos em que toda a comida parecia ser transformada e servida na mesma papa de diferentes cores. Pessoalmente, desde que seja saudável - o que não é nos dias que correm, não tenho nada contra. Venha de lá a comida de laboratório com todas as proteínas, vitaminas, gorduras e afins que o ser humano precisa! Venha de lá essa mistela! Mais uma vez, desde que seja saudável... E a diferenciação entre comidas? A tradição? Os toques pessoais dos grandes chefes de cozinha? Os pratos típicos daqui e dali? O prazer de comer, em si, onde fica? Bem, hipocrisias e pancas pessoais à parte, deixemos isso para quem queira discutir gostos. Só não me tirem as ruffles de presunto, ok?

Pelos castelos de Portugal

  Certa vez ouvi um homem falar muito emocionadamente de uma viagem que fez à Índia. Entre outras coisas ridículas descrevia como, em vários sítios por onde andou, as mulheres andavam na rua não ao lado dos maridos mas sim atrás, e nunca sozinhas. O homem também falou em como lá, se uma mulher de alguma forma falta ao respeito (seja lá o que for “faltar ao respeito”) ao marido, vai sofrer consequências disso, e que um castigo usual é algum tipo de desfiguração facial.

 

  Esse homem era um instrutor de yoga que se vestia todo de branco e falava disto com um estúpido ar de tolice. Quando confrontado com essa situação ele respondeu apenas, encolhendo os ombros, “é a cultura deles”. Parecia abastado e já tinha viajado para retiros e outras coisas turísticas nesse país umas quantas vezes.

 

  Há por aí muita gente que diz que viajar é tudo. Que viajar basicamente nos torna, sob todos os aspetos e considerações, pessoas melhores. Não sei se é só publicidade para agências de viagens, se é inveja de quem tem pouco dinheiro e nunca vai a lado nenhum, se é gabarolice de quem tem de sobra e vai a todo o lado.

 

  Cá a mim parece-me que uma pessoa pode viver uma vida inteira num raio de cinco quilómetros e ser perfeitamente equilibrada e, no geral, enfim, boa pessoa. Talvez um tanto aborrecida com a vida mas isso é outra conversa. A mesquinhice e a idiotice afinal são comuns a todos e não me parece que gente “mal criada” vá mudar por ir ver o palácio de Westminster e ouvir as badaladas do Big Ben. No entanto, de qualquer forma, estando-se longe do mar, vale a pena subir algum monte, mesmo que esteja a uns bons quilómetros de distância, para alargar a vista…

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Os juízes decidem

  Alguém se lembra de um programa chamado “O Juíz decide” que passava na sic? Lembro-me da existência de tal mas não de quaisquer pormenores ou casos específicos que lá tenham passado. Recentemente, pelos campos do youtube, encontrei vários programas similares, basicamente todos americanos, sendo “Judge Judy” sem dúvida o mais famoso.

 

  Pelo pouco que percebo todos estes programas funcionam basicamente da mesma forma. Trata-se sempre daquilo a que chamam em Inglês “small claims”, pequenos conflitos entre indivíduos ou grupos, processos que estão de facto em tribunal, e que os produtores do programa selecionam a dedo (apesar de provavelmente também nos podermos candidatar) para aparecer na tv. Como é óbvio desta forma os envolvidos no processo jurídico não pagam quaisquer despesas de tribunal – possivelmente até recebem por estar a aparecer na tv – e têm até estadias e viagens pagas até aos estúdios do programa, onde se simula um tribunal. E digo “simula” porque não substituí de facto um. As pessoas assinam algo em que como deixam a decisão nas mãos deste juiz, e essa decisão tem implicações legais, no entanto trata-se não de um julgamento em si, mas de um processo de arbitragem (ver mais info aqui).

 

  Na maior parte dos programas que tenho visto, incluindo a já menciona Judge Judy, existe o limite de cinco mil dólares, portanto, mais uma vez, trata-se apenas de “small claims”, disputas financeiras a nível de “ah e tal ele estragou-me o carro e não pagou”. Aqui não se tratam casos mais sérios de prisão, de custódia de crianças, etc. É mesmo para resolver as mesquinhices entre as pessoas. E apesar de, ao fim ao cabo, ninguém perder, por não terem de pagar a tal arbitragem, ou os custos de tribunal, que podem ser bastante elevados, e de terem as viagens pagas pelo programa, quase uma espécie de mini-férias pagas, estes programas viciaram de uma maneira um pouco estúpida.

 

  Coloca-se sempre a questão do quão real é o que estamos a ver, porque afinal casos escolhidos a dedo, pessoas escolhidas a dedo e filmagens escolhidas a dedo para televisão, já para não falar da possível existência de casos inventados pelos produtores… Apesar de tudo isso estes programas são viciantes. Demonstram muito bem a pequenez do ser humano, as ninharias que vai buscar para criar conflitos, a estupidez de uns, ignorância de outros e falta de bom senso dos restantes – coisas estas afinal tão comuns a todos nós nos mais variados aspetos da vida. Também gosto especialmente de ouvir as pessoas falar. Na tv, em filmes, ou livros, toda a gente tem boa dicção, todos falam corretamente. Mas na realidade não é isso que se vê, metem-se os pés pelas mãos, usam-se substantivos a mais e pronomes a menos, repetem-se coisas, conjugam-se mal os verbos, estruturam-se mal as frases etc etc etc. Isso acontece em todas as conversas que temos, no entanto podemos não o notar muito nelas, a não ser que se gravem para serem depois ouvidas, mas naquele clima com uma leve tenção em que alguém está a pôr pressão para que se diga a “verdade”…jesus, as pessoas parecem analfabetas. O facto de todos falarmos mal aqui salta à vista de uma forma ridícula.

 

  O mais conhecido destes programas, provavelmente, como disse anteriormente, é “A Juíza Judy”, ou em inglês que soa bem melhor “Judge Judy”. O programa começou em 1996 e depois de umas quantas alterações e temporadas, ainda hoje está no ativo, e Judy Sheindlin, que preside o programa, é uma das celebridades mais bem pagas da televisão americana. Nasceu em 1942, exerce direito desde 65, tendo-se tornado juíza em 82, para se “reformar” e começar o programa, como já foi dito, em 96. Nas programações de muitos canais já entraram outros desta natureza, muitos deles que desapareceram devido a baixas audiências, no entanto esta senhora sempre se manteve acima disso devido a um certo charme que cai muito bem com a televisão. É um pouco difícil explicar, só mesmo procurando e vendo no youtube. De uma maneira ou de outra, é hoje uma das estrelas de televisão mais bem pagas, recebendo atualmente, segundo alguns, cerca de 47 milhões por ano. Tem uns quantos filhos e, obviamente, uma mansão absurda. Ganhou um estatuto de estrela tal que não tem de se preocupar com audiências. Reformar-se-á apenas quando se fartar.

 

  No youtube há uns quantos vídeos do programa, que devido a direitos de autor estão sempre a ser eliminados e publicados novamente. Recomendo avidamente que deem uma vista de olhos. Pode ser que achem um aborrecimento total e mudem logo para algo que mais vos agrade, ou então, se tiverem o mesmo tipo de curiosidade e humor que eu tenho, por vezes um pouco sádico, e o mesmo interesse em ver gente pôr os pés pelas mãos e muitas vezes não ter noção nenhuma de senso comum, pode ser que entrem no espírito e de uma vez passem uma hora ou mais a ver vídeos uns a seguir aos outros. Mas tudo o que aqui digo acerca destes programas é extremamente redutor para descrever o seu conteúdo. Terá de ser mesmo ver para crer e tirar as próprias conclusões.

Sobre escrever um post acerca da importância da leitura

  Já foi há alguns meses atrás que tive a intenção de fazer um post acerca da importância de ler, ou de possíveis benefícios que a leitura possa trazer. É um assunto que já foi tratado por quase todos os que têm alguma plataforma onde partilhem informação – como é o caso aqui dos blogues – e que vão lendo algo aqui e ali. Por vezes aparece de uma forma que tenta ser objetiva/científica, por vezes subjetiva/pessoal, onde se vão incluindo gostos e preferências, por vezes até social.

 

  A minha ideia era escrever algo um pouco para o pseudo-intelectualóide pegando em casos particulares de livros ou histórias. Algo como “Estão a ver estas raparigas que protagonizam alguns dos filmes da Disney? Elas leem livros…e acabaram a casar com príncipes, portanto…aí está! Benefícios da leitura!”. A verdade é que não encontrei um ângulo de jeito e como sou preguiçoso depressa desisti da ideia. No entanto encontrei um vídeo no youtube que faz mais ou menos o que eu queria fazer, e cujo link está guardado no browser há meses sem saber o que fazer com ele.

 

  Pesquisando rapidamente há várias coisas que sempre aparecem, muitas delas tolas. A mais importante, mais séria, e aos meus olhos de leigo ignorante mais acertada, é ajudar a prevenir e combater variadas doenças mentais, desde depressão a alzheimer. No entanto, não me parece que a leitura seja mais eficaz nisso que qualquer outra atividade na qual haja necessidade de concentração, seja ela costura, ver filmes, cavar terra, malabarismo ou desporto, desde que sejam feitas regularmente e com disciplina. Parece-me que tudo aquilo que envolva concentração e disciplina faz esse trabalho tão bem quanto a leitura. Mas provavelmente a mais comum, e que é bastante tola, é a ideia de que ficamos mais inteligentes ao ler. Para além disso é dada uma certa aura à leitura que não me agrada nada. É verdade que o vocabulário pode ir aos poucos aumentando, tal como a cultura geral, sendo também verdade que se vai treinando a memória. Tirando o vocabulário, que há-de ser a mais diretamente afetada aqui, se bem que também há outras formas de o ir melhorando, há várias outras maneiras de “treinar” tudo o resto. No entanto, objetiva e diretamente mais inteligentes, tendo em conta a complexidade do conceito psicológico de inteligência? Não me parece. Acho é que é possível ficar-se menos inteligente se não se fizer absolutamente nada, se os dias se ficarem por idas ao café e pela televisão sem ao menos se prestar atenção a uma ou à outra coisa, à medida que se vai vivendo nas redes sociais e em sites tolos onde a única coisa que se faz é “scroll down” à espera que algo nos chame a atenção, e tudo isto regado com álcool e/ou drogas. Afinal nada como ter uma atividade – seja ela qual for – à qual nos dediquemos. E ainda assim com o que está acima há-de ser pouco inteligente da minha parte dizer que se fica menos inteligente.

 

  Mas enfim, desde as ideias que aqui pus, passando por inspiração ao ler acerca de (ou as palavras de) pessoas de alguma forma importantes e influentes, até à atratividade perante o sexo oposto. A tudo isto e mais ainda queria eu fugir quando na minha cabeça um dia surgiu esse “tenho que fazer um post sobre leitura!”.

 

  Foi então já há algum tempo que encontrei o vídeo que aqui partilho, que infelizmente não está legendado para quem não saiba inglês – e quem gostar pode dar uma vista de olhos pelo canal visto ter umas quantas coisas interessantes. Não é propriamente o post que eu queria fazer, pois faz desde logo a distinção entre ficção e não ficção, dizem diretamente que ler nos torna pessoas melhores, e mais umas quantas tolices – mas é aceitável. Ainda estive para copiar a ideia à minha maneira, usando até os dois livros aqui falados, mas a verdade é que não gosto deles o suficiente para tal e afinal... Porquê copiar quando posso, de forma mais honesta, partilhar aqui o vídeo?

 

  Independentemente da minha opinião acerca deles, o 1984 de George Orwell e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley são hoje gigantes da literatura. Não tenho problema nenhum com eles em particular e são bem interessantes, no entanto tornaram-se uma espécie de pet peeve por achar que não falta por aí melhor ficção científica que toca nos mesmos assuntos. Apesar disso é sempre da mesma treta dos mesmos dois livros que as pessoas acabam por falar - e que eu estou aqui agora a falar... De alguma forma ganharam um estatuto não só de obras-primas, mas também sinónimos de “cool”. Adiante. Cada um dos livros mostra um mundo onde basicamente não existe arte, seja por imposição num caso, ou por falta de interesse do público no outro, criando sociedades onde existe falta de interesse pelos variados assuntos da vida e um leve contentamento que evita qualquer tipo de revolta por parte do povo, ou sequer vontade de mudança de algum tipo. O vídeo termina com a frase, traduzida às três pancadas, “Se acha que o seu país se está a transformar numa distopia, o seu primeiro acto de resistência deverá sempre ser abrir um livro”. Aqui fica:

O dinheiro não importa

  Tantas vezes se ouve essa frase, tantas vezes exaltada, tantas vezes é o dinheiro desdenhado. Tantas vezes se diz que o amor à camisola é que importa, tantas vezes se diz que trabalhar por paixão é melhor que trabalhar por pão.

 

  Estas frases e muitas mais são tantas vezes ditas, como hoje o foram a mim, por gente endinheirada...

Lançaram-me os dados

  A Sra Pântano fez-me hoje este desafio em que teria de escrever uma pequena história usando três palavras: flor, música e dragão. Lá fui a correr escrever isso, tentando não fazer batota. Espero que gostem, aqui está o apressado resultado:

 

  A velha gadanha enferrujada, após afiada com pedra e água, corta a alta erva como nos seus tempos de juventude. O homem de meia-idade que agora a embala para trás e para a frente é que já perdeu não só a força, mas também o jeito. Afinal há coisas que parecem não ser como andar de bicicleta, e após vinte anos longe do campo a trabalhar sentado a uma secretária, bastam-lhe alguns minutos daquele trabalho para as costas lhe doerem e as mãos começarem a calejar. Juntemos a isso este sol absurdamente quente de início de verão e a António Silva, apesar de rodeado por quase todos os lados de verde, parece-lhe estar o mundo a arder.

  Afinal que espécie de ideia tinha sido aquela? Durante toda a sua juventude tentara fugir a sete pés daquele lugar e agora, só por a mulher o ter deixado e levado com ela a filha, tendo duas semanas de férias vai para a casa dos pais? Inicialmente vieram-lhe à lembrança algumas memórias felizes dos tempos de garoto, mas começando o trabalho, no silêncio do campo, interrompido apenas por trechos de música gritados bem alto pelas colunas dos raros carros que ali vão passando, nada o anima e as memórias parecem querer lavrar apenas em campos cheios de pedras. Ele é o pai a chegar a casa bêbedo, ele é a mãe a bater no pai por o ver naquele estado, ele é mulher a dizer que nunca mais verá a filha.

  Na torreira do sol e sem chapéu, passados vinte minutos, já o suor lhe escorre pelo corpo todo, pelo rosto, pelo pescoço, pela barriga, pelas pernas. O trabalho ainda nem a meio vai, aliás, muito longe de chegar a meio está ele, mas António Silva decide fazer uma pequena pausa. Tira a camisola, ficando em tronco nu, e senta-se numa pedra, cotovelos nos joelhos, camisa nas mãos, cabeça baixa para limpar com a camisa o suor. Não é preciso muito tempo para o sol lhe começar a escaldar as costas, qual fogo de um dragão. É então que António Silva torna a olhar em volta, para o horizonte interrompido pelos altos montes adiante. Olhando para longe não vê logo o que está perto: meia dúzia de regos bem delimitados na terra onde crescem girassóis, as flores que ofereça à mulher quando casou. Ao baixar os olhos do horizonte reparou neles, e tornou a baixar para as mãos a cara, onde agora corriam não só rios de suor mas também de lágrimas.

Não tenho um smartphone

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   É giro como se criam necessidades, por vezes do nada. É mais giro ainda quando se forçam. As empresas de telecomunicações por vezes são bastante inteligentes no que que toca a forçar essas necessidades, se é que a tal sequer se pode dar esse nome. Por vezes não.

 

  Eu não tenho um smartphone. Nem pretendo ter. Quando necessitar de um, hei-de o arranjar. Que remédio terei? Mas até lá... Nem tenho razões específicas, nem é teimosia nem nada. Não preciso de um. Logo não tenho.

 

  Quase não utilizo o telemóvel. Uma chamada ou uma mensagem de longe a longe, portanto gasto mesmo muito pouco dinheiro com isto, apesar de ter um tarifário caríssimo. Qual foi então a minha surpresa quando recebi uma mensagem da dita empresa fornecedora de telecomunicações a dizer-me que a partir de agora teria um custo de manutenção mensal de 1€.

 

  Lá passei pela loja, tendo a sorte de estar vazia e ser logo atendido. E quais foram as alternativas que me deram? “Então, pode pagar esta mensalidade e fica também com 200mbs de internet incluída”. “Com as comunicações caríssimas como tinha não gastava esse dinheiro. E não tenho internet.” “Então pode comprar este smartphone que está baratinho e assim aproveita essa internet”. Claro. É já a seguir.

Trocas e baldrocas de copyrights

    É um pouco complicado saber o quão verdadeiras são estas histórias, e a pequena pesquisa que fiz também não ajudou grande coisa, tendo encontrado logo informações contraditórias. Independentemente disso, isto parece-me bem ridículo.

    Em 1993 os Radiohead lançaram um single daquela que viria a ser provavelmente a sua música mais conhecida: Creep. Em 2017 sai o álbum mais recente de Lana Del Rey intitulado Lust For Life, e a última música desse álbum, de nome Get Free,  inclui uma parte bastante semelhante à Creep dos Radiohead.

    Posto isto, lá entraram as trapalhadas dos Copyrights e polémicas e uns dizem que os Radiohead queriam isto e aquilo, outros dizem que não queriam coisa nenhuma. A trapalhada do costume até aqui. No entanto há mais.

    Os Radiohead foram processados pelos direitos da música Creep, pela banda The Hollies, por Creep ser semelhante à sua música The Air That I Breathe.

    Ou seja, os Radiohead estão a dizer que Lana Del Rey copiou uma música que eles próprios copiaram. Sem comentários. Ficam em baixo as três músicas. Decidam por vocês se esta confusão tem ou não nexo.

Tenho pena de vegetarianos

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  Porque há muita gente que, sendo ignorante, é arrogante ao mesmo tempo, e porque o chico-espertismo e a rudeza têm poucos limites. Conheço umas quantas pessoas que são vegetarianas, e mais do que isso, já assisti a muitas conversas sobre este tema, e sim, essas conversas assustam e bastante. É um tema até simples e já bem batido. Para mim é difícil imaginar uma pessoa jovem que nunca tenha conversado acerca dele. Ainda assim parece que as questões que se levantam, e mais do que isso, as tretas que se dizem, geralmente de forma ofensiva, são sempre as mesmas. Aqui vão algumas pérolas mais batidas:

 

 - Vais-me dizer que não gostas de um hamburger do mac?

 - ‘Tão e uma chichinha, não comes, não gostas? Vais dizer que não gostas de um belo bife de alguma coisa de que eu gosto particularmente?

 - E onde vais buscar a proteína?

 - Não comes pão? Ou isto? Ou aquilo? Por vezes coisas claramente vegetarianas ou apenas estúpidas que fazem os outros questionar a inteligência de quem pergunta?

 - Não comes carne porquê? Tens pena dos animais, é? Eles são criados para isso! Sabes que nem sentem, nem cérebros têm! (E isto aparece mais vezes do que se calhar alguns possam imaginar).

 

  Sendo algo que possa fazer confusão a alguns, até seria de esperar uma ou outra coisa, quiçá dicas para receitas se para lá estiverem inclinados, ou algo alguma questão genuinamente mais "técnica" e à qual o vegetariano pode não saber ou sequer importar-se minimamente com a resposta. No entanto a ignorância que as perguntas feitas por vezes revela e, mais do que isso, o tom jocoso subjacente… bem, mete nojo. Que levante a mão um vegetariano que nunca tenha estado num jantar qualquer de grupo, seja ele do que for, e que não tenha tido uma pessoa ou mais claramente a gozar e a fazer troça dele sabe lá deus porquê.

 

  Há muitos vegetarianos, muitos tipos de vegetarianismo. Eu lá sei, há gente para tudo! Uns levam mais a sérios que outros. Muitos até vão comendo um fiambre ou bacon numa pizza de longe a longe, por exemplo. Muitos não querem saber de idealismo algum e simplesmente não gostam de carnes ou peixes, ou preferem refeições vegetarianas. Alguns são ferrenhos e nem a morrer de fome seriam capazes de comer uma sardinha. Da mesma forma, há quem coma carnes e peixes, quem beba leite de vaca e coma ovos mexidos todas as manhãs, e ainda assim seja completamente louco pelos direitos dos animais e os ande a pregar aos sete céus. Porque uma coisa não invalida automaticamente a outra.

 

  Enfim, há por aí muito vegetariano. Muitos deles tentam ao máximo esconder que o são. Por vezes apenas porque não querem falar disso, da mesma forma que não querem estar a justificar aos outros o porquê de terem vestido a camisola vermelha em vez da azul. Mas também muitas vezes só para se protegerem desta espécie não rara de bullying.

 

  Independentemente da razão pela qual fizeram essa escolha, que é pessoal, totalmente possível e saudável sem sequer andar a comer "coisas esquisitas", quase ninguém tem o mínimo de respeito por ela. Isso é vergonhoso. E especialmente triste e irritante quando vem de gente que come batatas fritas, arroz e bife todo o santo dia.

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