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Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Sofá Branco

"Esta é sem dúvida a era das novas invenções para matar corpos e salvar almas, todas divulgadas com a melhor das intenções." - Byron

Tenras Idades

  A carreira de um desportista, na maior parte dos casos e dos desportos, é curta. Chega-se aos trinta, talvez mais meia dúzia de anos, e acaba. O curioso é que uma pessoa com trinta anos hoje em dia ainda é “jovem”, mesmo que o corpo não seja já o que foi antes e por vezes pareça ser feito para não durar muito.

 

  Ontem no trabalho ouvi duas pessoas falar de uma terceira colega que há-de ter os seus quarenta, e referiram-se a ela como “jovem”. Com trinta anos nos dias que correm muita gente ainda vive na casa dos pais, sem nunca ter trabalhado, sem saber o que fazer da vida, talvez sem querer fazer nada, e por vezes a gastar dinheiro em noitadas. Não é que seja mau ou bom, é o que é e eu não sou ninguém para dizer o que quer seja sobre o que é e o que deixa de ser: faz-me é confusão que pessoas com quarenta e trinta anos sejam consideradas “jovens”.

 

  Com trinta anos já o cabelo cai às mãos-cheias, já a cara se vai enchendo de rugas, já os olhos veem torvo, já os dentes apodrecem e caem, já os ossos estão perros, as articulações cansadas e os desgraçados dos joelhos cheios de dor, especialmente com o frio do Inverno. Enfim, ainda jovens…

Cigarros e ano novo

  Muita gente fica esperançada para o “novo ano”. Entram então em campo as resoluções que, no conjunto, formam uma ideia de vida melhor que a anteriormente vivida. Dos milhões de projetos de ano novo feitos, pergunto-me quantos, até ao dia de hoje, 3, já foram esquecidos e atirados para o cesto dos pensamentos inúteis.

 

  Este ano também tenho uma, que certamente partilho com imensa gente: deixar de fumar. Quantos já a terão quebrado nestes três dias e meio? Em Portugal, na faixa etária entre os 25 e os 39 anos a percentagem de fumadores é cerca de 38% (link). Se me perguntarem porque é que fumo não sei dar uma resposta de jeito. Hábito, talvez? Não sei, mas sei que 38% é um número um bocado ridículo do qual sinceramente não estava à espera (mas que aparentemente está a descer que aquele link não é recente).

 

  Há vícios que parecem ser uma loucura, que deixam as pessoas tolas se não os satisfazem. Fumar não é assim. A nicotina funciona subtilmente, é um hábito, algo que é feito muitas vezes, até só para matar tempo, é ter uma pausa de dez minutos no trabalho e não ter mais nada que fazer. Quem não conhece alguém que é viciado mas que não o assume, que diz que a qualquer altura deixa de fumar mas não deixa e assim regularmente lá está a comprar mais um maço de tabaco, cujo preço tem vindo a disparar de forma estúpida durante os últimos anos. Talvez esses tenham razão apesar de continuarem, talvez tenham a certeza que tem razão, ou então não entendem como funciona a nicotina porque a sensação criada pelo tabaco – ou melhor, pela falta dele – não é algo forte que passe por necessidade.

 

  32% dos fumadores já tentou deixar de fumar e eu sou um deles. A verdade é que é simples, é só não fazer algo que não dá trabalho nenhum a fazer, que é feito sem ter qualquer objetivo específico à vista e que, ao contrário de muitos outros vícios, maioritariamente não dá prazer algum. Não se fuma para se estar num estado diferente, não se fuma para esquecer, não se fuma para se ficar alegre; apenas se fuma. No entanto deixar de o fazer é uma espécie de dança executada por dois parceiros tolos que não sabem o que estão a fazer e se pisam constantemente. Ou então pessoalmente apenas nunca me tenha convencido e por isso continuei. Ou como alguns dizem quem deixa de fumar “está apenas entre cigarros”. Para mim nunca houve um intervalo de tempo muito longo apesar de algumas tentativas. Não sei porquê. Se é algo que em si não tem finalidade, que muito pouco ou nenhum prazer dá e que muitos chamam até de nojento, qual é o problema? … meh … As pessoas raramente mudam e muito menos gostam de mudanças, talvez seja isso.

 

  E assim se chega ao ano novo, quando ainda tinha menos de meio maço que fiz questão de acabar e...já foi. Bye-bye, por agora pelo menos, e que se seja por um longo longo tempo. A ver vamos.

Tempestades

  Com os ventos fortes, a chuva intensa e o frio, mas especialmente com os ventos fortes e os sons fantasmagóricos que criam durante a noite, os rebanhos nos bardos juntam-se. Cabras, ovelhas e outros, anteriormente separadas ocupando o máximo de espaço possível, ainda assim juntas em família, amontoam-se assustadas nos cantos. Em criança, no sítio onde cresci, não havia inverno em que lá vinha mau tempo e se ficava sem eletricidade durante, por vezes, mais de uma semana. No curto espaço de tempo em que se fica acordado, após o anoitecer, janta-se e fica-se um bocado a olhar para o lume à luz de uma vela ou um candeeiro a algum canto. Há um certo prazer em ficar a ver o lume a apagar-se. Algo difícil de explicar, mas especial e hoje já quase esquecido, mas feito por famílias durante séculos, e ainda hoje em terras afastadas onde não é estranho ficar sem luz durante períodos ainda longos após uma chuvada mais forte.

 

  Quando me falaram numa tal tempestade a que se chamou “Ana” não prestei muita atenção e nem levei guarda-chuva para o trabalho. Aqui nada se fez sentir de forma estúpida, mas até se sentiu. No trabalho, desde o cair da noite, esporadicamente foram-se ouvindo uns estrondos que as pessoas presumiram serem telhas das casas mais acima a cair no nosso telhado. Também se fez ouvir alguma chuva mais forte e vento. Para alguns que vivem longe do trabalho falou-se inclusive de uma ou outra estrada que aparentemente tinha sido cortada. Quando chegou a hora de saída o tempo parecia ter melhorado de um momento para o outro. Indo a pé para casa apanhei uma grande molha, mas nada de mais. E nada que um guarda-chuva tivesse salvado pois muito provavelmente, apesar de já não muito forte, o vento estragaria ainda o velho guarda-chuva. Aliás, encontrei dois ou três escavacados e abandonados ao longo do caminho.

 

  Em casa o cão dormia, alienado completamente de tudo. As duas gatas estavam um pouco sobressaltadas e notava-se-lhes algum medo. As velhas janelas de madeira batiam, uma delas rachou-se, e por quase todas elas entrou alguma água. Não muita, nada de grave, mas ainda assim lá se tem de andar com a esfregona de um lado para o outro e, para precaver, lá se barricou uma das janelas com o que se conseguiu encontrar. Imagino apenas o que será viver num daqueles cantos do mundo onde há tempestades a sério constantemente, furacões (pf!), tsunamis!  Mas enfim, durante alguns segundo até se finge que se vive no rés-do-chão e nos estamos a proteger de algum ataque de zombies... Entretanto muitos não podem é telefonar a ninguém que com o mau tempo as telecomunicações andam todas maradas.

Na estrada

   Era uma vez um casal que comprou um carrito já velho. Era uma vez um casal sem grande, ou melhor, com nenhuma experiência no que toca a carros. Era uma vez um cabo de embraiagem que rebentou.

   Só se queria um domingo de férias e, como se vive longe do mar, lá se foi a uma dessas praias fluviais onde se chapinha um pouco. Tudo correu bem até à viagem de volta a casa onde, uma meia dúzia de quilómetros depois e no meio do nada, soa um baque relativamente forte e o rapaz que conduzia nota que a embraiagem fica presa no fundo. De alguma forma e durante um par de minutos ainda se conseguiram pôr mudanças à trator mas a festa acabou quando se chegou a uma subida inclinada.

   Resultado? Lá tiveram de chamar o reboque e mandar o carro para a oficina do intermarché pois é a única que está aberta num domingo. O que os deixou aparvalhados foi o facto do homem do reboque pôr o carro a funcionar com toda a facilidade e metê-lo em cima do reboque. O rapaz sem experiência em condução perguntou ao homem como é que ele tinha feito aquilo e teve como resposta um labrego “Você não consegue, mas eu podia levar o carro até ao Porto se quisesse, você é que não consegue”. Tal resposta ficou atravancada nas cabeças do casal. Só mais tarde, falando com alguém mais experiente lhes foi dito que acelerando a fundo se consegue por fim engatar a primeira. E assim se gastam fichas do seguro sem necessidade. A falta de experiência...

Escritos de uns e de outros

  Uma pessoa conhecida de uma amiga teve a sorte de conseguir, de alguma forma, publicar um livro. Já dei de caras com livros de gente cuja existência conheço indirectamente mais que uma vez e é sempre com alguma curiosidade que os começo a ler. É um "ah a tua amiga escreveu isto? Deixa lá ver". Estas edições muito raramente estão ao nível do que seria de esperar. Ele é erros de português, de gramática, de sintaxe, ele é frases mal escritas, ele é uma cadência estranha nessas frases, ele é uma total falta, tanto de saber como de sensibilidade, para com aquilo que se escreve. Em suma: o livro que assim nos veio parar às mãos é uma desilusão que nos leva apenas a pensar "epá...fico contente por esta pessoa ter lançado alguma coisa, mas isto é tão mau que não sei como o fez". E assim se pára a leitura ao fim de dez páginas ou menos.

  Não sei como funciona o mundo editorial. Sei que há muitos livros cujos custos de impressão e tudo o mais saem directamente do bolso dos autores. Talvez seja um pouco por aí, um "O seu livro é mau mas como é, se tem dinheiro para gastar a gente publica-lhe isto." O mais estranho é que vêm com o carimbo das editoras. Não há revisores que leiam aquilo? Não há editores que indiquem "olhe, mude lá isto esta frase se faz favor e já agora corrija a outra".

  Uma coisa é escrever mal num blogue que recentemente se começou e que poucos lêem, outra é escrever mal num livro que se dá a conhecer ao mundo e para o lançamento do qual se deram umas boas centenas, senão milhares, de euros.

  Há muita gente a querer ser escritor quando muito raramente mesmo os melhores conseguem viver da escrita. Alguns podem argumentar com um vago "são sonhos". Pois bem, que o sejam, mas os sonhos, regra geral, envolvem muito trabalho.

  O que muitos dos novos autores não parecem compreender é que escrever, sendo quase sempre um pequeno part-time, é uma trabalheira levada da breca, especialmente quando se quer ter alguma qualidade. Não é uma pequena ocupação que se tenha durante um breve período de tempo. Requer dedicação e empenho. Requer muita leitura também. Ai de quem queira escrever sem ler bastante e ai de quem escreva sem, ao ler, consultar o dicionário de cada vez que encontra uma palavra desconhecida.

  Eu cá estou neste momento sentado num sofá branco e digo desde já que ter um sofá branco é uma carga de trabalhos. Se alguém andar à cata de sofás que tenha escrúpulos para comprar um com cores mais neutras, talvez verde escuro ou cinzento. De certa forma também tenho o sonho de ser escritor. Vou rabiscando umas coisas aqui e acolá. Ainda hoje acabei uma pequena história de pouco mais de dez mil palavras. Nem sei como nem onde a enquadrar mas vá. Publicar? Não me parece. Virginia Woolf dá o conselho de não editar nada antes dos trinta. Escrevo por ser uma actividade que me dá algum prazer. Quando conseguir escrever algo que ache que valha a pena talvez me dê ao trabalho de tentar publicar, mas só se valer a pena, tendo o texto uma qualidade inegável, nem que seja aos meus olhos. Ainda está para acontecer.

Confianças e traições

  O facebook está entulhado de m**da. Acho especial piada ao conhecimento científico e às verdades irrefutáveis que são primeira e exclusivamente lá reveladas. Mas também há as dicas de alimentação com o que se deve e não deve comer, o que é pior e melhor, e, claro, aquilo que as pessoas bem sucedidas fazem. Muita coisa é publicada e partilhada por lá, todas elas com zero (ou próximo de zero) de interesse ou verdade, em especial estas.

  Como seria de esperar encontram-se ainda muitas dicas e regras em relacionamentos. É óbvio que os relacionamentos, o amor e a amizade não podiam ficar de fora. Aparentemente as pessoas que mais traem e encornam os parceiros são aquelas que:

1 - Passa muito tempo nas redes sociais

2 - Já traíram anteriormente

3 - Sejam bem sucedidas na vida

  Não posso dizer que discorde disso. O segundo ponto...enfim, nem vale a pena comentar por ser óbvio. O primeiro é bem visto e irónico, mas o certo é que hoje as pessoas conhecem-se mais na internet que na rua e lá marcam os encontros que haja para marcar. Quem desdenha quer comprar e, querendo comprar, que melhor sítio para se encontrar aquilo que se pretende que num sítio prontamente chamado de facebook? Já o terceiro ponto é mais curioso, mas não deixa de ter a sua verdade porque ao ser humano...enfim, nada basta. Há uns episódios de Friends em que uma das personagens namora com um milionário que, dando um pouco em louco, mete na cabeça que há-de ser campeão de luta livre sem ter a menor propensão para tal, mas enfim, não desiste da ideia dizendo que o único domínio que lhe falta conquistar na vida é o da força física.

  Quanto mais se tem mais se quer, mas quanto mais se precisa menos se tem. Identifico-me mais com personagens terra-a-terra que procurem companheirismo. Nunca tive uma vida familiar muito boa mas confesso que é algo que me encanta, nem que seja por não ter grande receio da morte, mas sim da solidão. No livro "A Caverna", Saramago dá-nos a conhecer a personagem de Cripriano Algor, um velho que, vendo-se em vias de sair da única casa onde residiu, procura agarrar-se ao que pode para não sair de lá, especificamente em Isaura Estudiosa, na qual vê alguém que pode tomar conta dele e, portanto, uma forma de não deixar as suas raízes. Essa ideia de amor agrada-me bem mais que qualquer outra e parece-me a mim ser a que mais propensão tem a não se desmembrar.

Odisseia hospitalar - Parte 4

     No dia seguinte - era então o terceiro - lá me dei ao trabalho de, por volição própria, chatear e falar com as pessoas. Perguntei pelo médico umas quantas vezes e, outra vez, foi-me dito que já podia ter alta e que a teria assim que o homem por lá passasse. Se não me engano, ritmo cardíaco 60, tenção 111. A única coisa que me faziam era pôr pomada e já nem na cara toda, apenas em redor do olho esquerdo, numa pequena parte da testa e numa pequena mancha no pescoço.

     A estadia estava a ficar enfadonha até mais não, especialmente porque já não havia qualquer necessidade dela e estava complicado ter a desejada alta. Ainda assim, confiando nas conversas que me davam, comuniquei à minha Maria que sairia de lá nesse dia. A manhã passou, o almoço passou, chegou a hora visitas, na qual eu já esperava encontrar-me noutro sítio. Médico nada: "Ele há-de aparecer aí, está a dar consultas lá em baixo". Aparentemente nem fazendo um pouco de empecilho me queriam ver dali para fora. Para alguém habituado a caminhar bastante todos os dias e mais algum exercício físico à parte, a inacção hospitalar estava já, naquele terceiro dia, a assemelhar-se a uma prisão, sentimento que aumentava com o saber não haver necessidade nenhuma de estar ali. Até a Maria estava também cansada.

     O velhote a meu lado, o senhor Luís, como já disse, não tinha grandes capacidades motoras. De manhã dois enfermeiros deram-lhe banho, limpando-o com, presumo eu, panos molhados. De seguida, dizendo-lhe ser bom para o coração, levantaram-no e sentaram-no num grande cadeirão. Assim permaneceu uma hora, duas talvez, e lá pressionou o botão de campainha dizendo a quem apareceu que queria dormir um pouco. Marcavam presença no hospital uma mão cheia de estagiários. Definitivamente não gosto da "pinta", da postura das novas gentes, mas há um contraste interessante entre eles e aqueles que já lidam com pessoas há muitos anos: os mais novos ainda não têm empatia para com as pessoas; hão-de-a criar mais tarde, julgo eu. Ao contrário do dia anterior, o senhor Luis teve uma visita: a da sua esposa.

     As pessoas, especialmente as mais novas, podem defender a poligamia o quanto quiserem. Em parte até concordo com eles, mas acho sinceramente que tal não funciona - ou pelo para mim não funciona, nem que seja pela quantidade de interacção que isso requer. Se estou numa relação não é somente por impulsos sexuais; acima disso, bem acima, é por uma questão de companheirismo. Sou um ser pouco social. Falo para muito pouca gente, tenho poucos conhecidos, amigos então..mas gosto da ideia do companheirismo conjugal, de ter naquela parceira alguém com quem contar e vice-versa. Fiquei contente por ver que o velho tinha alguém, alguém que se importasse, alguém que o fosse visitar. Afinal nós éramos dois homens cujas únicas visitas provinham das companheiras.

     Por volta das quatro horas da tarde lá estava eu novamente à frente dos enfermeiros a perguntar pela alta que teimava em vir. Gosto de ter a barba feita e até isso já incomodava de grande que estava. Aí, dessa vez, fui informado de que o meu médico - de quem sinceramente nem me lembro, apenas me atendeu no dia da chegada e eu estava um pouco desorientado - já tinha ido embora.

     Tanto falam nos encargos do Estado com a saúde e às vezes tornam o acto de sair do hospital num autêntico frete. Estava farto e cansado de lá estar. A pergunta que fiz foi "E se pegar na tralha e for embora?". "Assina este papel em conforme rejeita o internamento e pode ir". Ponderei. Assinei. Vim para casa.

     Fui bem recebido, trataram-me bastante bem, as acomodações eram bem confortáveis, a comida superou grandemente as expectativas. À parte do abusivamente quente e sempre ligado ar condicionado não tenho qualquer razão de queixa. Apenas queria vir para casa e assim fiz. Depois de assinar o tal papel, fui até à casa de banho mudar de roupa e, sem ter mais nada a dizer, saí levando a minha Maria pelo braço.

Odisseia hospitalar - Parte 3

     As recuperações hoje podem ser rápidas, em tempos não o seriam. Épocas de reis e rainhas, castelos e soldados, em que de um corte pais profundo, por não haver ora com o que se tratar, ora condições ou conforto para isso, lá apareciam infecções, deformações que deixavam os membros estropiados e abriam caminho para a gangrena que matava em menos de nada. A ganância do homem pode ser ilimitada, sim, quer-se sempre mais, e quer-se sempre fazer mal a gentes "de fora"; olha-se de lado, rogam-se pragas...Em tempos de reis conquistavam-se terras e castelos, matavam-se as populações, queimavam-se as casas. No cimo das muralhas havia todo o tipo de gente, soldados e escravos, catapultas atiravam pedregulhos, arqueiros disparavam setas. Atirava-se, lá de cima, também, azeite a ferver. Ando eu para aqui a choramingar por ter uma queimadura de 2ºgrau na cara quando outrora se fritavam assim pessoas vivas. Hajam gentes e mortes horríveis.

     No hospital o almoço é servido à uma. Às duas é hora de visita. Entre a uma e as duas trouxeram para a minha enfermaria um velhote a quem tratavam por senhor Luís e que mal se conseguia mexer. Não reclamava, não falava senão com algo específico em mente, não se movia, estava apenas lá. Ainda conseguia comer sozinho, levantando a parte de cima da cama com os pratos postos postos no tabuleiro que está na parte superior do móvel que serve de mesa-de-cabeceira. Este senhor Luis pouca mobilidade tem, não consegue andar, não consegue sair da cama. Nesse dia não teve visitas. Passava-me pela cabeça que estava apenas à espera de morrer, que tudo o que a vida tinha para lhe dar e tirar já lhe tinha sido entregue e roubado e que por isso ele dormia como nunca vi ninguém dormir, durane a maior parte do dia. Não perguntei a ninguém o que tinha ele e a única interação que houve entre os dois foi ter-me pedido água enquanto eu enchia o meu jarro - ele bebia-a através de uma espécie de biberão. Reparei também que de vez em quando coçava o braço no sítio onde estava a agulha intravenosa. Também a mim, que já não lhe dava uso, me incomodava. Esta agulha surpreendeu-me bastante pelo seu tamanho quando ma tiraram do braço, e também pela quantidade de sangue que desse buraquito saíu...

     Estava um dia de sol e, durante a hora de visitas, fui com a minha Maria até à entrada do hospital - a fim de andar um pouco - onde cravei um cigarro, quebrando novamente o meu "vou deixar de fumar". Cravar cigarros é como que uma pequena arte para quem tem vergonha. Não havendo vergonha pede-se a toda a gente e pronto, mas havendo é outra história. Há que, enfim, seleccionar a pessoa a quem se vai pedir; para evitar olhares desconfiados e de desconforto; muito velha não serve, muito jovem também não e de preferência que tenha bom aspecto e seja do sexo masculino, que o feminino é muito desconfiado. Não há tabaco à venda no hospital e, pedindo, as pessoas são bastante suvinas com os cigarros, mais depressa dão uma moeda de um euro... Lá me deram um cigarro, lá nós os dois caminhámos um pouco, de um lado para o outro, ao sol, perto da entrada do hospital.

     O segundo dia lá passou. Acabei a leitura de "O Consul Honorário" de Graham Greene e comecei "A Inocência e o Pecado" do mesmo autor. O livro de sudoku já ia quase a meio. Num hospital não há nada que fazer, apenas esperar. A pele da minha cara sarou de forma extraordinariamente rápida e ao fim do dia já nem se notava muito. O aspecto certamente era um pouco à Lázaro, ainda cheio de pequenas marcas e, em sítios, pequenas peles a saltar; dores não as havia desde o dia anterior. O médico não apareceu, portanto, e ao contrário do que me disseram, não tive alta.

     Seguiu-se a segunda e última noite lá. Adormeci a ler, sem sequer dar por isso, com a cama ainda reclinada, mas não foi algo de longa dura. Também passei essa noite mais ou menos em branco, despertando repetidamente.

Odisseia hospitalar - Parte 2

     Nunca saberei o estado em que a minha cara estava, o estado que despoletava trejeitos estranhos na face da minha Maria e que deixou a senhora das urgências toda alterada. Quando me vi ao espelho nem conseguia ver pele, apenas uma quantidade absurda de uma pomada branca. Cerca de uns quinze minutos depois do tratamento à chegada, levaram-nos, a mim e à minha maca, para uma enfermaria composta por quatro camas, todas elas vazias. Fiquei na mais próxima da janela. Ao contrário de outras destas salas de acamados , esta não tinha televisão e a primeira coisa que me passou pela cabeça foi agradecer a seja o que for por tal. No hospital soavam e soaram constantemente os ruídos tanto de tv como de música de uma rádio qualquer, mas onde eu estava não, eu estava sossegado e tal barulheira só me chegava como som de fundo.

     Cinco minutos depois de lá chegar apareceu a Maria trazendo-me o primeiro entretém que tive: uma caneta e um livrito de sudoku comprado na papelaria do sítio. Tenho bastante a agradecer-lhe. Mesmo acabando por não ser algo de grave ela esteve sempre comigo, fazendo-me companhia durante todas as horas de visitas, abandonando tudo o resto. Eram então duas horas da primeira tarde do meu primeiro e curto internamento hospitalar.

     Falou-se, orientou-se a vida, deram-se as quatro e meia. Ela foi e voltou às seis. No intervalo vieram ligar-me a mais uma saqueta com paracetamol e eu fiz, durante uns breves minutos, a figura que se vê nos filmes, de alguém a passear pelo hospital a arrastar a seu lado o ferro com uma espécie de tripé com rodas em baixo no qual está um saco pendurado, ligado ao braço da pessoa por um pequeno tubo. A Maria lá me trouxe um par de livros e uma revista para ir lendo e não demorou muito até virem trazer o jantar.

     Nos hospitais as refeições são hora de grande movimento e, até, alegria. A comida é, para muitos que lá estão, a maior distracção do dia. Que se desengane quem pense que ali se come mal. "Comida de hospital" tem uma conotação bastante negativa e por isso foi com alguma surpresa que eu encontrei refeições fartas, bastante pão para os pequenos almoços e lanches e até leite e bolachas para cear noite dentro. Não, de fome aqui não se morre. E não, da comida não me posso queixar. O jantar serve-se pelas sete e meia e foi ainda acompanhado que jantei - a hora de visita acaba às oito. Pouco passava das nove quando um enfermeiro me veio encher novamente a cara de pomada e estava o dia feito.

     As noites foram o pior. As camas podem ser muito confortáveis com os seus sistemas de reclinação mas não ajudam em nada o sono que teima em vir, mesmo numa enfermaria sossegada onde se está sozinho. Fiquei a ler até quase à meia-noite e por volta das cinco já estava acordado, tendo-me levantado umas quantas vezes durante a noite, parte delas também para ir à casa-de-banho. Falaram-me do quão importante era beber muita água depois de uma queimadura, hidratar o corpo e a pele, portanto eu tratei de beber litros e litros dela.

     Os sons que se fazem ouvir quando tudo está calmo são bastante singulares num hospital; chegam-nos os gemidos de alguém ao longe, ocasionais passos e vozes sussurradas e, acima de tudo o resto, o constante zumbido ensurdecedor do ar condicionado. Pode até estar a nevar na rua que lá dentro estão uns bons e abafados vinte e tal graus.Respirar esse ar é, sem dúvida, a pior parte de lá estar.

     Depois da noite mal dormida vem a manhã, vêm gentes perguntar se está tudo em ordem, se há dores, "Está tudo bem, sim, e dores não as tenho". Dão-nos toalha para tomar banho, farda lavada, o pequeno almoço, mudam a roupa das camas, lavam o chão e tudo o resto. Por falta de asseio ninguém lhes aponta o dedo.

     Estando tudo limpo, lavado e as barrigas cheias, lá aparecem novamente enfermeiros que põem nova pomada, medem o ritmo cardíaco e a tenção arterial. Por esta altura a minha cara está vermelha, a testa tem uma crosta com mau aspecto e o olho esquerdo está um pouco inchado. Recuperação bastante boa tendo em conta o prognóstico negro que me tinham dado que incluía um inchaço tal que não conseguiria dar uso à vista esquerda e febre. Mas a pele estava quase sarada, febre nem uma pitada para dar sabor. Ritmo cardíaco e tenção também em ordem. "Já há-de ter alta hoje". Não a tive porque não apareceu médico que ma désse.

Odisseia hospitalar - Parte 1

     Estava eu muito bem em casa, na cozinha, a fritar massa com o intuito de fazer churros quando, debruçando-me sobre o óleo a fim de retirar de lá os primeiros, este estoirou violentamente, saltando tudo para a minha cara. Fiquei um pouco atordoado. Passei imediatamente água pela cara e a minha Maria, logo aflita, quis ir às urgências. Respondi, e disse-lhe várias vezes que não senhor, não era preciso, mas o certo foi cinco minutos depois estar a sair de casa, tendo como principal medo ter ido óleo para os olhos, que me ardiam um pouco. Tinha-se apagado o fogão mas aquilo continuava a saltar pela cozinha. Não faço ideia porquê.

     Comecei por sentir calor na cara, um leve ardor e grande formigueiro. Antes de sair de casa ainda lavei a cara mais umas vezes, pus bastante nívea que, para minha surpresa, desapareceu em três tempos. O estrago estava feito e as dores começam a picar e iam aumento segundo a segundo. As queimaduras dos cozinheiros dizem muito sobre o seu trabalho mas duvido que muitos vão para ao hospital por algo ridículo como fazer churros. Para quem nunca se queimou com óleo a ferver, é como se a própria pele fritasse, literalmente. Sentia, especialmente, a testa a arder e a pele desta parecia estalar, abrir-se. A meio caminho do hospital a minha Maria disse que se começar a ver uma espécie de crosta amarela. Boa figura não era com certeza.

     Ela estava aflita, eu um pouco em choque, nervoso até mais não, mas com uma postura calma. Movia-me e alava devagar. Pouco olhava para o que se passava à minha volta. Chegando ao hospital, avançámos até ao balcão e, quando questionado sobre o que tinha acontecido, disse somente, apontando para a cara, "Queimei-me". Ao olhar para mim até a senhora das urgências ficou toda agitada. Enfim, depressa me deram uma pulseira laranja, depressa me chamaram antes de todos os outros que lá estavam - incluindo um jovem casal que por alguma razão me chamou a atenção - e depressa me vi sentado em frente de um médico que repetia a pergunta. A resposta, desta vez, foi ligeiramente mais completa, "Eh...queimei a cara com óleo que saltou da frigideira". Em ambas as situações a Maria comentou detalhes com eles. Eu estava por demais nervoso. Esse médico pediu-me que o seguisse e assim se entrou pelo hospital dentro, ele à frente, nós os dois atrás, ela levando-me pelo braço. Encaminhámos-nos pelos corredores até uma pequena sala que não tinha porta - uma grande cortina que foi prontamente fechada - , onde estava uma maca na qual me disseram para deitar. Logo apareceu uma enfermeira que me tirou a roupa enquanto o médico me dava duas injecções e me espetava uma agulha intra-venosa que ligou a um saco que tinha, se não me engano, paracetamol, para as dores. Falavam-me da maneira como as pessoas da saúde falam quando querem animar e espevitar os doentes, mas eu pouco ligava à animada conversa. Apareceu um segundo médico que ligou uma lâmpada forte acima da minha cara e os dois começaram por verificar os meus olhos e disseram que queimados não estavam, "Com a sua vista está tudo em ordem", uma sorte tendo em conta que a pálpebra esquerda que tanto me ardia tinha ficado toda queimada e inflamada. Seguiu-se a lavagem da cara, despejando nela o que me pareceu um balde inteiro de água, - destilada, pelo cheiro - espalharam um gel bastante frio, seguido de pelo menos uma bisnaga inteira de uma qualquer pomada. Depois mandaram-me aguardar até que alguém me levasse dali.

     No meio disto ouvia um médico falar lá fora com a minha Maria e foi ela quem me disse que teria de ficar uns dias internado. A princípio nem queria lá ir e acabei por ter de ficar internado...

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